O melhor futebol da europa… de longe!!


No futebol deve-se fazer a distinção, por motivos imperativos, entre três tipos de adeptos: os “resultadistas”, os imberbes fanáticos e os verdadeiros amantes do futebol. 

Os resultadistas são, genericamente, aquele grupo de adeptos que, percebendo ou não, com elevado ou baixo grau de conhecimento, as várias dimensões\vertentes do jogo bem como as várias condicionantes (contextuais ou não contextuais, conjunturais; do momento ou da temporada), não dá muita relevância aos processos de jogo que são a consequência do trabalho (metodologia) que é trabalhado pelos treinadores e pelos jogadores, em detrimento dos resultados obtidos. Por norma, para esse tipo de adeptos, as dimensões\vertentes do jogo e as suas condicionantes bem como os processos de jogo, o trabalho dos treinadores ou as suas opções tomadas sem existirem condicionantes de maior, só são enfatizadas quando os resultados das equipas que vêem não são os melhores. Esses adeptos por norma não se importam que a sua equipa ganhe a jogar mal.

Noutra tipologia de adeptos encontram-se os imberbes. Os imberbes são aquele tipo de adeptos que fala por falar sobre futebol, sem perceber um chavelho do jogo. Por mais jogos ou jogadores que vejam, não conseguem exprimir uma única observação daquilo que viram. Este tipo de adeptos adora portanto todos os jogos de bastidores extra-futebol que vão acontecendo. A imprensa desportiva tem vindo a standardizar os seus conteúdos à bitola das necessidades deste tipo de adeptos… para subsistir!

Por outro temos os verdadeiros amantes do futebol. Os verdadeiros amantes do futebol são aqueles que diariamente se esforçam para tentar saber mais sobre um jogo cuja multiplicidade de variáveis é infinita. Os verdadeiros amantes de futebol são aqueles que discutem até ao osso determinados pormenores sobre determinados jogos, jogadores, equipas, treinadores, processos de jogo, processos de treino, gestão dos clubes, etc. Os verdadeiros amantes de futebol são aqueles que passam jogos inteiros a ver um jogo por detrás daquilo a que eu chamo um “conjunto de lupas de análise”:

  1. Uma lupa para as acções que são executadas\comportamentos por um ou mais jogadores em campo, sem no entanto perder foco no “todo” que o jogo oferece
  2. Outra lupa para o comportamento defensivo e\ou ofensivo das equipas num determinado momento de jogo, sem perder de vista as prestações individuais de determinados jogadores.
  3. Outra lupa para as decisões tácticas que são executadas pelos jogadores ou ordenadas pelos treinadores a meio de um determinado jogo.

Consoante o grau de interactividade de vários jogadores bem como do objectivo e do interesse de quem se pretende analisar, as “lupas de análise” podem ser muitas durante uma partida. Na análise, o importante é ter sempre uma metodologia que permita enquadrar os diversos objectos de estudo sem perder o fio à meada.

Os verdadeiros amantes de futebol são aqueles que por norma dão mais enfoque à forma em como se constrói um processo que permite a obtenção ou a não obtenção de um resultado do que ao resultado em si. Esses adeptos são por norma aqueles que preferem ver os resultados alcançados por determinada equipa a um futebol estético e efectivo.

O Napoli de Maurizio Sarri é para mim (e para muita gente) a equipa que pratica o mais estético futebol da velha europa. De trás para a frente. A autêntica máquina de circulação (e de pressão) que Sarri tem vindo, nos últimos anos, a construir em Napoli deixa-me profundamente encantado. O Napoli pode não atingir resultados coadunáveis com a estética e a eficácia do futebol que é praticado, mas enche-me o olho ao nível de processos: é a todos os níveis a equipa mais trabalhada do futebol europeu.

Este Napoli de Sarri, cravejado de jogadores de combate na defesa e no meio-campo como o romeno Chiriches, Albiol, Ivan Strinic, Kalidou Koulibaly (defesa) e os pulmões Jorginho, Diawara e Allan (se bem que estes dois são médios centros que não só não se limitam a destruir mas que ajudam a construir o jogo da equipa com uma grande precisão no passe e com um apoio constante à linha da frente na construção ofensiva) que são dois jogadores que acrescentam muito músculo a um meio-campo que precisa de carburar imenso na recuperação de bola como se pode ver nos vídeos acima postados, pela intensidade que Sarri quer que os jogadores coloquem no pressing a meio-campo para que a equipa recupere a bola.

Com um ataque cravejado de jogadores que tem tanto de tecnicistas como de dinâmicos como de eficazes, como são os casos de Lorenzo Insigne, Marek Hamsik, José Callejón, Arkadiuz Milik ou jovem médio ofensivo croata Marko Rog, é uma equipa muito bem trabalhada em várias vertentes pelo seu treinador. Quer na intensidade do pressing alto ou médio-alto que fazem muito bem no terreno, que não deixa os adversários construir e que permite à equipa ter sempre a bola nos seus pés.

1.Quer numa construção de jogo muito cuidada, afirmativa, de posse constante do esférico, a rápida velocidade em passe curto, extremamente dinâmica em que os jogadores fazem swap de posição (necessário para deixar imóveis os adversários) e apoiam sempre o colega mais próximo, entrando Hamsik e Allan em movimentos de ruptura entre as linhas adversárias (no seu bloco defensivo), ou seja, entre a linha média e a linha defensiva.

2.Quer numa fantástica panóplia de processos de jogo em ataque organizado que incluem sempre o apoio frontal do avançado (saído da marcação) para tabelar, triangulações vistosas a meio-campo, movimentos de ruptura de Allan, jogador que em entre linhas consegue arranjar sempre um espaço para dar e receber no espaço vazio, a presença constante de Hamsik entre a linha média e a linha defensiva contrária e um nível de profundidade aceitável oferecida pelos laterais da equipa (Hysaj e Maggio na direita\Strinic e Ghoulam na esquerda; exceptuando o croata, todos os restantes são laterais que cruzam muito bem para a área) 

3. quer também nas rápidas transições em contra-ataque onde Insigne, Mertens e Callejón, pragmaticamente fornecidos por um meio-campo inteligente e expedito, são autênticas motas a conduzir contra-ataques que invariavelmente causam perigo na baliza adversária.

Apesar do Napoli possuir neste momento jogadores altamente inteligentes, tudo isto foi obviamente mecanizado por Sarri nos bastidores. Ou seja, o posicionamento, as rotinas de jogo, a distância de passe, os apoios, a finalização, as situações de pressing, o posicionamento defensivo que a equipa deve apresentar, os jogadores ideais para trabalhar a sua identidade de jogo.

Pressão alta é isto, meus senhores!

O Napoli de Sarri fá-lo constantemente nos jogos grandes. É preciso ter uma coragem enorme para pressionar alto em casa de uma Juventus ou em casa de um Inter, sabendo que a passagem da bola pela teia que é tecida ou seja, a ruptura da linha média napolitana, usualmente resulta numa construção rapidíssima que habitualmente chega aos pés de jogadores que desequilibram muito bem no 1×1 como são os casos de Perisic, João Mário e Antonio Candreva no Inter ou Juan Cuadrado e Paolo Dybala na Juventus, p.e.

A pressão alta implica conhecer o mecanismo de saída de jogo do adversário, treinar o posicionamento de todas as peças na mesma saída de jogo, ter uma equipa fisicamente muito bem preparada para ter que executar esta mesma pressão alta em vários momentos do jogo, cobrir todos os espaços possíveis para a equipa adversária não consiga furar o mecanismo de pressão de forma a criar ruptura e consequentemente superioridade numérica em determinados sector para, efectivamente, se poder recuperar a bola em terrenos que permitam o lançamento de um contra-ataque demolidor e ter laterais que se consigam aguentar bem num 1×1 ou num 1×2.

Sarri pretende, obviamente, com esta postura agressiva, tanto no pressing alto como no pressing a meio-campo jogar e capitalizar com o erro do adversário. Contudo, o risco de aplicar pressão alta é enorme. Primeiro porque maior parte das equipas (ocorre-me agora por exemplo as equipas de Marcelo Bielsa, treinador que gosta que as equipas pressionem alto durante os 90 minutos de todas as partidas) quebram fisicamente porque é muito difícil pressionar alto durante mais de 60 minutos. Depois porque passando a bola a linha média, o quarteto defensivo fica sempre muito exposto se a equipa contrária for rápida a chegar ao último terço. Criam-se portanto rapidamente situações de uma enorme superioridade numérica que obrigam os centrais a sair das suas posições para efectuar pressing, abrindo espaço para a desmarcação de um avançado ou de um jogador que jogue nos corredores (em diagonal).

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s