Tour de France – Etapa 18 – Muito Barguil para tão pouca corrida


Se não fosse o ataque do francês da Sunweb (à procura de vencer a 2ª etapa na presente edição; arrastando consigo Alberto Contador) nos últimos quilómetros para a mítica subida de Izoard, estou certo que teria adormecido. A etapa de hoje foi seguramente uma das etapas de montanha mais secantes que vi em toda a minha vida, pelo menos no que diz respeito ao Tour. Nem as etapas que eram vencidas por Lance Armstrong eram tão secantes. Naquelas edições da prova, poucos poderiam ser aqueles que faziam frente à maior fraude da história do desporto, mas, por outro lado, aquelas etapas raramente terminavam sem ataques.

Os condimentos para a confecção de uma etapa explosiva de ataque e contra-ataque estavam prontos nos containers. As diferenças registadas na geral entre Froome e os seus dois perseguidores mais directos prometiam, no mínimo, espectacularidade. Ou deviam, pelo menos, prometer. Os 27 segundos de diferença da dupla que segue na 2ª posição, deveriam funcionar para Romain Bardet e Rigoberto Uran como uma bela oportunidade para “descarregar” tudo o que tinham para dar. Uma verdadeira descarga de consciência, um verdadeiro “Tour ou nada”- se ganhassem tempo a Froome, seria óptimo. Ainda gostaríamos de tentar compreender se Bardet ou Uran seriam capazes de agarrar com unhas e dentes a amarela no contra-relógio de Marselha. Tal cenário poderia constituir-se como um profundo e completo estudo de caso sobre a supremacia do estado mental sobre os handicaps aerodinâmicos e posicionais que os dois ciclistas possuem naquele departamento. Mas Não. Bardet ainda ameaçou pretender fazer alguma coisa da etapa quando colocou a sua equipa na frente do grupo principal no Col du Vars. O ataque realizado no Izoard foi tímido e Froome foi pronto a dar a sua contra-resposta: quem o desafiar seriamente não só recebe o devido troco como terá que lidar com as consequências de um eventual ataque. O pequeno ataque de Landa bem como a resposta de Froome à movimentação de Bardet foi a confirmação pela qual há muito aguardávamos: para o ano há mais! Froome irá subir pela 4ª vez com a amarela vestida nos Champs Elysées.

O que é que teria sido a prova se Warren Barguil tivesse entrado neste Tour com o objectivo de lutar pela geral? Olhando para as pernas do gaulês, percebemos que Barguil tem estado claramente ao nível dos melhores. O francês deu uma enorme lição de vontade, competência, explosividade e acima de tudo, de resistência. Durante a presente edição do Tour, raros foram os dias em que não vimos o trepador da Sunweb em alta rotação. As exibições do francês deixam um claro repto para o futuro: com uma boa estrutura poderá ser um dos candidatos à vitória na geral do Tour? Como já afirmei em vários posts, eu creio que sim. Os franceses tem que estar contentes com o desempenho de 2 dos seus ciclistas: o futuro do seu ciclismo reafirma-se cada vez mais como risonho.

Não irei dar muito crédito ao novelo protagonizado pela extensa e numerosa fuga do dia porque o foco da etapa residia na luta pela amarela. Da fuga composta por 3 dezenas de ciclistas irei realçar apenas a combatividade demonstrada por dois homens: o cazaque Alexey Lutsenko e o colombiano John Darwin Atapuma.

O baroudeur da Astana foi um verdadeiro guerreiro na etapa 18. Quem seguiu com atenção o decurso da prova, relembrar-se-à das imagens que correram mundo há uma semana atrás quando vimos o corpo do atleta marcado por vários hematomas e escoriações resultantes do enorme trambolhão que este deu na 9ª etapa. Lutsenko conseguiu resistir às dores e ainda teve forças para lançar vários ataques durante a etapa de hoje. Já “Puma” Atapuma fez uma corrida muito sólida.. O colombiano foi uma excelente aposta para a etapa por parte da UAE. Apesar de não ter arriscado quando viu Lutsenko (em conjunto com Nicolas Edet da Cofidis) sair do grupo que se formou na frente nos quilómetros de aproximação ao Izoard, o colombiano soube gerir bem os seus esforços. Quando teve que se libertar de Tony Gallopin, libertou-se, e foi serra acima à procura de Lutsenko. O casaque foi dobrado pelo colombiano com muita classe (geriu muito bem o seu esforço durante a subida com a adopção de um ritmo certinho) e os 30 segundos de vantagem para Barguil até pareciam suficientes para este dar uma alegria à cada vez mais “tristonha” UAE. O sonho do ciclista colombiano haveria de terminar a 1500 metros da meta quando o obstinado francês decidiu avançar para o seu segundo triunfo na prova.

Alguém percebe a estratégia da AG2R? 

Ninguém. Ninguém que se interesse minimamente por esta modalidade consegue compreender o que levou a equipa de Bardet para a frente no Col du Vars sem acelerar o ritmo da corrida. O desiderato da formação de Bardet seria, porventura, tentar excluir o máximo de ciclistas da Sky para a subida final de forma a deixar Froome sem qualquer ajuda. O baixo ritmo imposto durante vários quilómetros pela equipa francesa não deu sequer para fazer uma selecção alargada no grupo principal. Quando a formação francesa se finou, a Sky ainda tinha 3 corredores junto de Froome. Foi aí precisamente que vimos Aru a dizer novamente adeus à prova.

Uma nulidade. 

Martin, Meintjes, Landa. Quando vi o espanhol a atacar com o objectivo expresso de ainda tentar lutar pela vitória na etapa e de arrematar um lugar no pódio de Paris, percebi imediatamente que a Sky tinha a corrida completamente controlada. Landa só poderia atacar se Froome autorizasse, junto de Nicholas Portal, a dispensa do seu principal gregário.

O que é que podermos esperar da prova até domingo? Pouco.

Se nada de extraordinário se passar com Christopher Froome, o britânico vencerá o seu 4º Tour. A possibilidade de Bardet ou Uran recuperar tempo até domingo só será total se o britânico tiver um enorme galo. E mesmo assim… No contra-relógio, o britânico irá despachar toda a concorrência por mais de 1 minuto e meio. Arrisco-me até a dizer que Froome irá vencer o contra-relógio de sábado.

Bardet e Uran lutarão pelo 2º posto da geral. Nessa contenda particular, creio que Bardet levará ligeira vantagem. Uran é efectivamente um horrível contra-relogista. Não creio também, pela mesma razão, que Mikel Landa possa anular os 67 segundos de desvantagem para o colombiano. Assim como também não estou a ver Fábio Aru a ganhar 22 segundos a Landa e 1:29m a Uran nos 21 km do crono de Marselha. Todos farão tempos muito próximos. Do 7º ao 10º lugar, as posições na classificação também me parecem mais ou menos fechadas.

Matthews e Barguil já garantiram, respectivamente, a vitória na camisola verde e na camisola da montanha. Matthews ainda tem 2 objectivos pendentes: vencer amanhã e vencer em Paris. Terá obviamente a concorrência de Degenkolb, Kristoff, Groenewegen, Colbrelli, Greipel e Boasson Hagen. Qualquer um destes ciclistas poderá esquecer em Paris a míngua a que foi sujeito no decurso da prova.

Simon Yates também já assegurou praticamente o Prémio da Juventude.

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