Don Rigo – O jovem vendedor de cautelas que conquistou a sorte


Ao longo dos 22\23 anos em que acompanho regularmente a modalidade, aprendi que um ciclista para ser bem sucedido precisa de ter uma fórmula composta por 70% de trabalho (na melhoria das suas características), 20% de competência (individual e da equipa que o acompanha) e 10% de sorte.

Ao ler estas primeiras linhas, alguns de vós deverão estar a interrogar-se sobre o porquê da sorte ser uma componente da fórmula de sucesso para alguém que tem de pedalar mais rápido que 180 adversários em distâncias tão longas. Como em tudo na vida, a sorte faz parte da fórmula para se atingir o sucesso. Os ciclistas não são excepção. Por mais esforços que um ciclista desenvolva para ser um bom corredor por etapas, um bom trepador, um bom puncheur, um bom sprinter, um bom contra-relogista ou um bom baroudeurs, a sorte por vezes distingue os vencedores dos vencidos. O ciclista poderá ter, ao longo de uma corrida, aquele posicionamento perfeito que à partida o livra de quedas, mas, nem sempre o posicionamento é garantia da sorte. Existem uma data de variáveis que os ciclistas não controlam. A primeira é o comportamento de outros ciclistas. Por mais que um ciclista se tente posicionar bem, não pode controlar os comportamentos de outros ciclistas. Um momento de distracção ou de cansaço daquele que vai à nossa frente é por vezes a ignição necessária para estragar o trabalho desenvolvido durante meses ou até anos, e a competência que se foi adquirido na gestão de corridas e\ou na gestão daquela corrida em particular. 

A história de Don Rigoberto Uran é uma autêntica lição de vida. Uma lição de vida que o coloca automaticamente na lista dos grandes Hall of Famers do ciclismo sem atentar primariamente aos resultados alcançados. O palmarés do colombiano fala por ele. Não coloco sequer o palmarés em discussão para atestar o que escrevo. Estamos a falar de um ciclista que leva 11 vitórias nos últimos 10 anos e uma data de lugares no pódio em grandes provas como o Giro, o Tour, a Volta à Catalunha, o Giro da Lombardia, o GP do Quebec, os Jogos Olímpicos de 2012 (medalha de prata na prova de estrada), o Giro Dell Emília, o Giro del Piemonte, o Tirreno-Adriático, a Milão – Turim. O colombiano só não tem mais vitórias porque tem uma grande pecha no contra-relógio, o tendão de aquiles dos montanhosos colombianos. De todos os grandes ciclistas colombianos, só conheci um que foi absolutamente fenomenal neste departamento: o mítico Santiago Botero. E mesmo Botero era na sua génese, um trepador que ao longo dos anos foi aperfeiçoando a vertente de contra-relógio até se tornar um dos melhores especialistas da sua geração.

Um homem que passa por semelhantes adversidades na sua vida pessoal e profissional, só pode ser um homem com uma força de vontade superior à força de vontade de todos os comuns mortais. E nós, amantes desta modalidade, por vezes, nem desconfiamos o caminho de sofrimento que estes homens ter de percorrer para nos dar o espectáculo que por vezes tanto suplicamos. São verdadeiros heróis.

O colombiano sofreu muito para alcançar o invejável pecúlio pessoal que aos 30 anos exibe com muito orgulho e suor. De vendedor de cautelas da lotaria colombiana (para sustentar, aos 14 anos, a família após a dramática morte do pai, apanhado numa troca de tiros entre o exército colombiano e um grupo de paramilitares das FARC enquanto andava de bicicleta com um amigo na montanhosa região de Urrao) a 2º classificado no Tour, pouco ou nada mudou na cabeça de um dos grandes ícones dos escarabajos. Uran continua a ver no ciclismo, o sustento da sua infortunada família. Uran não luta por si, luta por todos os que tem a seu cargo e luta pela memória do pai, um grande amante de ciclismo.

A sorte que lhe foi negada foi sempre conquistada a pulso com muito trabalho na estrada e com muito trabalho na recuperação das lesões que o atormentaram em virtude das quedas sofridas. A cada queda, um novo contrato com uma nova equipa, com um estatuto superior na hierarquia das suas equipas. O trabalho, a competência. A inexistência de quedas superlativas nos últimos anos: a sorte.

 

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