Tour de France – 20ª e 21ª etapa – O inevitável epílogo


A 50 metros de fechar a 4ª vitória no Tour, Chris Froome mostrou um raro sorriso. Sem manifestar muito entusiasmo, aquele natural entusiasmo de quem acabara de escrever mais uma página de História na sua vida, na vida da prova que acabara de vencer, e até na modalidade em que é indiscutivelmente um dos Grandes, o britânico esticou o braço, ergueu o punho e tratou de dar uma pancada nas costas ao seu fiel escudeiro Michal Kwiatkowski. “Missão cumprida” – deverá ter pensado momentaneamente o britânico quando decidiu ter aquele gesto de carinho para com um ciclista que teria, em condições naturais, com uma equipa minimamente interessante às costas, capacidade para lutar por um lugar no top10 da geral individual. No fundo, quem é que desta equipa não teria capacidades para lutar pelo top10? Landa. Nieve. Henao. Kwiat. Thomas. Até o próprio Nieve se lhe fossem concedidas possibilidades para trabalhar no sentido de se apresentar na forma francesa em forma e com objectivos em mente.

Esta vitória foi efectivamente mais dura que as anteriores. O conjunto de situações que retiraram 2 dos principais rivais da prova foram só duas condicionantes que atenuaram o caminho ao britânico. Bardet, Uran e Aru foram, em momentos distintos da corrida, ossos duros de roer para o super ciclista. O inglês passou no exame. Desta vez o ciclista inglês nascido no Quénia, não foi obrigado (e em muitas etapas os adversários não o permitiram) a pintar a corrida com a sua indelével marca de água. Não vimos um Froome expansivo. Não vimos um Froome aventureiro. Vimos um Froome calculista e bem secundado por uma equipa escolhida a dedo que não cometeu grandes falhas nos momentos cruciais da prova. O colombiano, 2º classificado da geral, o francês da AG2R, o italiano da Astana e outros ciclistas como Daniel Martin, Barguil, Simon Yates, deram mostras sólidas daquilo que podem vir a realizar no futuro. Para o ano podemos ter Mikel Landa a correr por outra equipa porque nota-se a milhas que o espanhol não está contente com o seu papel dentro da equipa Sky. Tom Dumoulin, será, ao que tudo indica, a aposta da Sunweb para o Tour do próximo ano. O holandês poderá ser, em virtude da sua combatividade na alta montanha, do seu calculismo apurado, e da versatilidade provida pela sua altíssima especialidade no contra-relógio, a autêntica sombra de Froome nas próximas edições da prova francesa. Richie Porte também aparecerá em 2018 mais forte. O australiano deverá querer decerto fintar o azar que o vitimou na edição deste ano de forma tão precoce quando a corrida estava definitivamente a abrir. O australiano é louco o suficiente para tentar, tentar, tentar até aos 45 anos e só irá ficar satisfeito quando puder vencer o Tour. Alejandro Valverde poderá efectivamente não voltar à prova francesa mas Nairo Quintana não será o modesto NairoMan que vimos, fruto do cansaço acumulado devido à participação no Giro, na prova deste ano. Thibaut Pinot também deverá apostar à séria na edição de 2018, para vingar o mau desempenho geral da equipa FDJ na sua “prova rainha” da temporada. A estes nomes irão naturalmente acrescentar-se outros da nova geração. Manny Buchmann, Julien Alaphillippe (faltou à chamada por lesão), Adam Yates, Jan Hirt, Pierre Roger Latour, terão o seu espaço para crescer e para brilhar no futuro. O nível vai subir daqui em diante. Froome sabe. Toda a gente que segue esta modalidade, sabe. Vencer uma grande volta será cada vez mais difícil para um ciclista, indiferentemente do seu estatuto e da sua qualidade. O que não falta na hodiernidade da modalidade é talento, competência e vontade no pelotão internacional.

21 dias. Um enorme prazer. Umas vezes com mais cansaço, outra vez com menos. Nem sempre é fácil ter energia para chegar a casa depois de 8 ou mais horas de trabalho, ver as etapas com olhos de lince, abrir o portátil e mandar umas penadas no teclado sobre as ilacções que tomei durante o dia. Cumpri a tarefa com gosto. O Tour é o Tour, caramba. Sigo a prova desde 1994. Sigo a temporada completa de World Tour há 5 anos. Durante a presente temporada realizei seguramente mais de 50 posts sobre a modalidade. São raros os dias em que não veja uma prova de ciclismo ou pelo menos um resumo. Gosto do que faço. Quem corre por gosto não cansa. Nesta hora em que vos escrevo, abate-se sobre mim uma enorme tristeza. Quando o “circo” chega aos Champs Elysées, fico melancólico. A temporada ainda vai a meio. Ainda existe muito km para ser batido por essas estradas fora. A Volta a Portugal vai começar e eu até irei realizar uma etapa dentro da caravana. Irei decerto aos Mundiais de ciclismo em Setembro. O Tour é o Tour. Só volta daqui a um ano. Durante a próxima semana apoderar-se-à de mim aquele vazio que é deixado por uma prova que nos gera o máximo entusiasmo e a máxima alegria durante 3 semanas. Resta-nos a esperança de podermos vir a estar vivos para assistir à edição do próximo ano e o contentamento de que para o ano há mais emoção.

Maciej Bodnar ergue os braços no Velodrome de Marselha

Como afirmei no último post escrito sobre a prova, o polaco da Bora era, a meu ver, um dos candidatos à vitória no árduo crono que teve o seu início e o seu fim no “fantasmagórico” (algo vazio nas suas bancadas; esperava um Velodrome cheio até porque o ciclista da casa, Romain Bardet, ainda se apresentava a jogo na Córsega, com possibilidades, algo diminutas é certo, de dar a alegria pela qual os franceseses esperam, pacientemente, há 31 anos) estádio do Olympique de Marselha.

A etapa não oferecia inicialmente grandes pontos de interesse. Em teoria, o único ponto de interesse oferecido, apesar das curtas diferenças que se verificavam entre os primeiros da geral, residia essencialmente na luta pelo 2º lugar da geral. Quem é que levaria a melhor no curto mas exigente crono de Marselha: Uran ou Bardet?

O percurso desenhado pela organização acabou por ditar uma conjunto de equações e resultados que eu não previa. Na route de etape, eu previa a possibilidade da prova ser decidida essencialmente por quem conseguisse manter a melhor postura na bicicleta na passagem de vários quilómetros junto ao mar porque efectivamente pensei que os ventos laterais daquela zona pudessem manifestar o seu efeito sobre os corredores. Menosprezando por completo a subida de 1,2 km para os 115 metros de altitude do santuário de Notre Dame de la Garde, seria o “pequeno muro” instalado a meio do crono o obstáculo que permitiu a concretização de algumas surpresas. A mais importante foi o 6º lugar de Alberto Contador na etapa com um resultado que permitiu a El Pistolero tomar o 9º lugar de Warren Barguil na geral. No 2º ponto intermédio, Contador acabaria até por dar a sensação que poderia vencer a etapa quando passou com mais 1 segundo do que o então líder virtual Michal Kwiatkowski. Bodnar, por sua vez, tinha passado ali com 9 segundos de desvantagem para o seu compatriota e amigo, facto que acentuou a recuperação que o ciclista da Bora fez nos kms de plano até à meta.

Nos 2 minutos que mediaram a saída de Rigoberto Uran e a saída de Romain Bardet, o pouco público francês presente no Velodrome decidiu dar uma força adicional ao seu ciclista com o entoar de alguns cânticos, com o bater de algumas palmas e com o içar de uma camisola da AG2R La Mondiale nas bancadas.

Com este gesto de carinho pretendia o público marselhês que o seu menino pudesse agarrar pela 2ª vez consecutiva o 2º lugar na geral. Extenuado mas algo imperfeito na postura corporal, o francês deu tudo o que tinha para tentar ser melhor que o colombiano. O fantástico crono realizado por Landa quase lhe roubou um justo lugar no pódio. Bardet só conseguiu agarrar-se à vida nos últimos metros, defendendo o 3º lugar por 1 mísero seguro de diferença para o espanhol.

O puro aspecto de cansaço demonstrado pelo francês no final do seu contra-relógio. Bardet deu tudo o que tinha na estrada para atingir o seu exequível objectivo, a 2ª posição. A sensacional prova do francês dá-lhe imensas esperanças para o futuro. Se se preparar melhor para a edição de 2018, principalmente na vertente de contra-relógio, o francês poderá seriamente arriscar-se a ser o tão desejado D. Sebastião do ciclismo francês. Equipa não falta embora ainda deva ser adicionado mais ou dois ciclistas de proa para as etapas de alta montanha. Com Sebastian Reichenbach (escudeiro de Pinot na FDJ), o francês teria outra ajuda na alta montanha porque o suíço é um excelente marcador de ritmos difíceis de suportar para os adversários e um director desportivo capaz de movimentar melhor as unidades que dispõe nos momentos correctos (Frank, Latour, Vuillermoz, Naesen) o francês poderá chegar onde quiser.

O 4º lugar de Tony Martin foi uma enorme decepção. O campeão do mundo de contra-relógio sai da prova sem ter conquistado os seus principais objectivos (a vitória nos contra-relógios) e sem ter dado o enorme espectáculo que costuma dar nas fugas e nos lançamentos do sprint. O campeão do mundo de contra-relógio sai da prova um pouco à imagem da sua equipa, a Katusha: uma volta esforçada em que a equipa batalhou muito mas concretizou pouco.

Os bons resultados de Nils Pollitt (Bora), Jasha Sutterlin (Movistar) e Niklas Arndt (Sunweb) confirmam uma nova geração alemã de roladores de imensa qualidade. Nestes 3 corredores encontraremos decerto um dos futuros campeões do mundo ou da europa da especialidade. O Campeonato da Europa está aí à porta!

O mesmo se pode dizer de Stefan Kung (BMC). Nos últimos meses, o suíço parece estar disposto a tomar o lugar no trono do ciclismo suíço que foi deixado em vazio por Cancellara. Não me espantarei absolutamente nada se o suíço possa começar a desenvolver uma enorme capacidade e uma enorme apetência para atacar clássicas.

Dylan Groenwegen atinge o seu ponto mais alto da carreira

Foi com um valente sprint (em pura apeneia; os últimos 300 metros foram indiscutivelmente dele) que o holandês da Lotto-Jumbo-NL, deu a 2ª vitória à sua formação na prova (já tinha vencido com Primoz Roglic) e conquistou a mais valiosa vitória da sua ainda jovem carreira. O ciclista nascido em Amesterdão há 24 anos andou toda a prova a cheirar as primeiras posições, intrometendo-se de vez em quando na acirrada luta que foi desenvolvida durante a prova pela nata dos sprinters. Na chegada a Paris, um bom posicionamento foi o suficiente para o novato dar mais uma ratada em André Greipel. Já não bastava portanto o vexame ao qual o alemão foi exposto por Fernando Gavíria. No Tour, o homem forte da estratégia da Lotto, cheirou, cheirou, mas não tocou no que mais pretendia.

Com um bestial posicionamento na curva final à recta da meta, o holandês aproveitou o comboio de lançamento da Katusha para Kristoff para tirar uma enorme vantagem para todos os rivais. O norueguês da formação russa ficou nas covas, Edvald Boasson Hagen (Dimension Data) e Sonny Colbrelli (Bahrain-Mérida) deram o melhor que tinham a dar e Greipel acordou tarde para o piso. Quando o alemão se lançou com vigor, já lhe faltava terreno para executar a diferença.

Os primeiros 30 quilómetros da etapa de consagração ofereceram o habitual palco para as fotos da praxe, para momentos de confraternização entre amigos na vida real que são ao mesmo tempo rivais na sua profissão, para algumas paragens para cumprimentar a família e para os também habituais momentos de irreverência de alguns ciclistas.

Enquanto Yoann Offredo da Wanty parou na sua terra natal (Savigny-Sur-Orge) para cumprimentar as dezenas de conhecidos da comuna que se juntaram para celebrar a sua passagem pela região com um belo tintinho ao qual o ciclista não negou um gole, Cyril Gautier (na imagem; AG2R) decidiu, em plena prova, pedir a sua namorada em casamento.

Nas voltas finais ao tradicional circuito de Paris, houve até quem se tenha desligado da corrida para desfrutar dos últimos 5 km da corrida

Esse corredor foi Thomas Voeckler, um mítico que terá obviamente o seu lugar na história do ciclismo como um dos melhores baroudeurs (e também um dos maiores malucos e combativos ciclistas) da História do Ciclismo. O avô do pelotão internacional cumpriu hoje o seu último voo. Para trás ficam 15 edições nas quais, Voeckler terminou em todas, venceu 3 etapas, ganhou o Prémio da Montanha na edição de 2012, fechou em 4º na edição de 2011, participou em mais de 5 dezenas de fugas, vestiu a amarela por 18 dias em 2 edições, vestiu a camisola branca da Juventude por 13 dias na edição de 2004, e foi considerado o combativo da jornada em 8 etapas. Um pecúlio deveras incrível de um ciclista cujas memórias são infinitas. Ainda me lembro de ver João Pedro Mendonça anunciar a sua primeira fuga em 2004. O tempo passa. A idade não perdoa. O francês da Direct Energie, ciclista que venceu provas por etapas como a Volta ao Luxemburgo, a Route Du Sud (duas vezes) o Circuit de La Sarthe, o Tour Du Haut Var, a Etoile de Bessèges, os Four Days of Dunkirk e o Tour of Yorkshire, que se tornou campeão nacional francês de estrada em 2 ocasiões, despede-se do ciclismo com um registo total de 37 vitórias em etapas.

Os pais de Warren Barguil também não evitaram as lágrimas quando viram o filho a subir ao palco para receber a camisola da montanha. O incrível gaulês e o australiano Michael Matthews deram 6 fantásticos à Sunweb: 4 etapas e a vitória nas respectivas categorias da montanha e dos pontos.

Christopher Froome pode subir ao degrau mais alto do pódio pela 4ªa vez.

Glória aos vencedores, honra aos vencidos. Todos puderam em conjunto oferecer-nos novamente os melhores 21 dias da nossa vida. O Tour não encerra o pano. Durante a semana ainda irei escrever mais um ou dois posts de rescaldo sobre a prova e irei oferecer-vos alguns dos melhores vídeos de bastidores que foram filmados durante a prova.

4 opiniões sobre “Tour de France – 20ª e 21ª etapa – O inevitável epílogo”

  1. Enquanto a Sky tiver este exército, será difícil perder um Tour. Como muito bem disse, a equipa inglesa escolhe a dedo os seus ciclistas. Não vai aos saldos! E isso faz toda a diferença. Froome já provou não ser imbatível. O ano passado com uma equipa de segundas figuras na Vuelta 2016, ficou-se das pernas.

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    1. É natural. O principal objectivo da Sky é o Tour. Todo o planeamento da temporada é feito em função do Tour. É certo que na primeira metade da temporada vimos excelentes prestações de geraint Thomas e/ou ian stannard nas clássicas e nas provas por etapas de 1 semana, mas o objectivo de temporada da equipa é o Tour.
      Froome deverá ir novamente à vuelta. Não creio porém que o ciclista entre em forma na prova espanhola porque o desgaste acumulado nestes 21 dias é enorme e o tempo de recuperação para a prova espanhola é menor do que no ano passado (em ano de jogos olímpicos, a vuelta começa mais tarde).
      Acredito que a vuelta seja para tom Dumoulin. O holandês descansou durante o verão para se apresentar fresquinho na prova espanhola.
      Grande abraço Rui

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