Bernard Tomic: um exemplo a não seguir no desporto profissional


A honesta e sincera entrevista concedida pelo tenista australiano à jornalista Melissa Doyle, apresentadora do carismático Sunday Night do canal de televisão australiano Channel 7 deixou-me por um lado completamente perplexo (como é que um atleta profissional com o potencial do tenista australiano chega a este profundo estado de depressão e de manifesta falta de prazer naquilo que faz?) mas, por outro lado,  respondeu a várias interrogações que bailavam na minha cabeça há uns anos sobre os efeitos negativos que o comportamento dos pais podem suscitar na “vida desportiva” dos filhos. O caso de Tomic apresenta algumas semelhanças com o caso vivido aqui bem perto de nós de Vanessa Fernandes. O quadro de factores que levaram a triatleta a desistir da alta competição em 2009 são muito semelhantes aos que estão a conduzir Bernard Tomic para um abismo mental que poderá ser irreversível.

Vários são os factores que explicam a completa perda de prazer do atleta pela modalidade para qual se formou afincadamente ao longo de anos, de maneira a poder lutar pelos altos objectivos e metas a que propôs, publicamente, aos 12 anos, quando ainda era, se assim posso dizer, um projecto de atleta promissor.

O clima de exigência que lhe foi desde sempre incutido pelo seu progenitor (treinador), o facto de não ter ultrapassado de forma natural as mais básicas etapas de desenvolvimento humano (o tenista não perdeu a imaturidade que costuma habitualmente desaparecer na passagem da adolescência para a vida adulta; nem tão pouco foi capaz de iniciar, na vida adulta, um processo exploratório “do mundo” tendo em vista a realização de uma escolha vocacional planeada com rigor, sinceridade e convicção. A personalidade do atleta não assentou num molde único e coerente, pese embora a possibilidade dos traços de carácter e personalidade poderem vir a modificar-se por influência de determinadas relações com os outros ou de determinadas experiências, positivas ou negativas, enriquecedoras social e culturalmente ou traumáticas. Em suma, estamos perante um ser humano adulto que não cresceu e que tende a expressar em idade adulta tudo aquilo que não viveu na adolescência), o clima de pressão inerente ao estatuto de atleta de alto rendimento (nem todos os homens são capazes de lidar correctamente com as expectativas que por vezes “auto” depositam no seu rendimento, ou com as pesadas expectativas que terceiros lhes vão colocando em determinadas fases da sua evolução; nem todos os homens conseguem lidar com a naturalidade com o preço da fama, baqueando sempre que são expostos a um cru processo de exposição ou crítica pública; nem todos os homens conseguem lidar correctamente com as situações em que não podem ou não devem errar), o facto de ter “enriquecido” bastante cedo, sem ter para o devido efeito, uma pessoa capaz de lhe colocar algum travão nos caprichos infantis que demonstrou ou nas escolhas patéticas que tomou e, o facto de não ter tido, ao longo destes 6 anos, o acompanhamento de bons profissionais ao nível da psiquiatria e da psicologia desportiva, são os factores que, no meu entendimento, conduziram o jovem Tomic para profundo e dramático abismo que actualmente vive. 

Quando ouvimos um tenista a dizer “não, eu não tenho qualquer prazer no que faço e só jogo por dinheiro porque a minha família chegou a este país sem nada nos bolsos” percebemos que este tipo de casos poderão culminar em duas opções a médio prazo: a constituição de ser humano eternamente frustrado com a sua condição e acima de tudo com o seu passado, limitação que o impedirá de viver correctamente um novo presente ou um novo futuro ou em último caso, um possível suicida.

Ao longo do dia várias foram as críticas que ouvi a Tomic. Centenas de australianos lembraram ao tenista que os 5 milhões de dólares até agora conquistados pelo tenista em patrocínios, prizes e prémios de participação nos torneios começaram a ganhar forma nas centenas de milhares de dólares australianos que foram investidos pelos contribuintes daquele país nos vários anos em que o atleta fez parte dos programas de desenvolvimento de altetas de alto rendimento do Australian Institute of Sport. Outros fizeram questão de criticar (com alguma justiça) a falta de respeito do atleta para com aqueles que, idolatrando-o, pagam altas quantias para o ver jogar. Um dos argumentos mais utilizados por vários cidadãos australianos na página do atleta foi este: “eu também não gosto do trabalho que faço, mas foi nesse trabalho que pude ganhar o dinheiro que me permitiu ir apoiar-te à Rod Laver Arena” – compreendo por inteiro a falta de motivação do atleta (com um pai daqueles, nenhum jovem poderá gostar realmente do que faz porque o grau de exigência, de dureza, e de pressão incutida ultrapassa a fronteira do salutar para o nocivo campo de pressão indesejada que por norma redunda em frustração e saturação) mas também consigo compreender o grau de irritação, de ira e de raiva dos seus fãs. Nos últimos meses, num conjunto de afirmações proferidas (a gota de água foi efectivamente o que passou em Wimbledon quando o tenista afirmou que tinha perdido o jogo porque este estava a ser “aborrecido”) o tenista tem brincado com os sentimentos mais profundos daqueles que durante meses privaram-se de muito para poderem amealhar dinheiro para o ir ver jogar ao torneio londrino. Um atleta de alto rendimento jamais deverá ousar brincar com a paixão daqueles que o idolatram. Por outro lado, cabe aos atletas profissionais serem os primeiros a oferecer, aos jovens que os idolatram, um modelo a seguir.

A relação pouco saudável que se tem vindo a perpetuar ao longo de anos entre o atleta e o seu pai, remete-me para uma das questões que mais me tem feito reflectir desde que me tornei treinador: o grau de participação dos pais na vida desportiva dos filhos. No ténis, não faltam exemplos de tenistas que tiveram, em determinadas fases da sua carreira, de cortar o cordão umbilicar (leia-se a influência) dos pais\pais-treinadores. Novak Djokovic é o primeiro exemplo que me salta à cabeça. Em determinado ponto da sua autêntica “estagnação” enquanto atleta, o tenista teve simplesmente de anular por completo a influência que os seus pais exerciam na vida desportiva. O surreal comportamento anti-desportivo que Srdan e Dijana Djokovic perpetravam (jogo após jogo) nas bancadas durante os jogos do filho bem como os comentários insultosos tecidos sobre os rivais de Novak, levaram o sérvio a ter que colocar um verdadeiro travão na influência dos pais sobre a sua vida profissional porque a sua conduta envergonhava-o, limitava o seu rendimento durante as partidas e até a sua evolução enquanto atleta. Quando o sérvio conseguiu finalmente “afastar” os seus pais, os seus resultados dispararam.

A participação dos pais na vida desportiva é, até manifesta prova em contrário, sempre positiva, constituindo-se portanto como uma mais-valia para a vida desportiva do jovem praticante. A presença do pai num treino ou numa competição traz efectivamente serenidade e confiança à criança\adolescente. Para além de promover hábitos de vida saudáveis que se desejam perenes para a vida daquele “ser querido”, a correcta atitude de um pai nos recintos desportivos é mais pragmática transmissão de valores correctos para um ser que está a passar por um completo processo formativo. Quando por outro lado assistimos a pais que vão para os recintos desportivos armar confusão (ameaçar árbitros; criticar publica e abertamente treinadores; ameaçar treinadores adversários, condicionar as prestações de atletas com todo o tipo de formas de pressão ou coacção), esses pais por vezes não sabem que não só estão a causar embaraço e vergonha aos filhos, como estão a transmitir-lhes valores completamente antagónicos aos mais salutares valores que norteiam a conduta de um atleta nas competições desportivas.

Os pais que pertencem aquela conhecida e clássica tipologia de treinadores de bancada são aqueles que por norma criticam abertamente os treinadores, desautorizando-os por completo à frente dos atletas. Grande parte desses pais projecta nos seus filhos o tipo de atleta que nunca foram na sua adolescência. Esses pais por vezes não tem noção do ridículo exposto pela sua ignorância quando a informação que estão a prestar em pleno acto competitivo é filtrada por quem está a ouvir. Para além da falta de noção, nenhum grupo de trabalho poderá efectivamente realizar um altíssimo rendimento se durante a semana trabalha determinadas vertentes\processos de jogo com o treinador e ao fim-de-semana, durante o jogo, sente-se coagido por um terceiro a praticar determinados processos que vão contra os moldes inseridos ou treinados pelos treinadores nos momentos de aprendizagem ou aperfeiçoamento. Esses pais costumam ser autênticos inspectores da vida dos filhos. Mal os jogos terminam, na viagem para casa, massacram os miúdos com perguntas e críticas à sua prestação e exigem-lhes que no próximo jogo façam assim, patatá e assado, porque assim (é aqui onde entra a chantagem emocional) “não vais chegar nem ao Sporting, nem ao Benfica, nem ao Porto nem vais tirar a titularidade a determinado miúdo, filho daquele gajo que me goza no trabalho” – no actual estádio da vida desportiva, chegar a qualquer desses clubes acaba por ser algo banal dada a quantidade absurda de observadores que esses clubes possuem em todo o país e a quantidade absurda de miúdos que observam anualmente nos vários escalões de competição. Pior que inculcar um sonho (inatingível) na cabeça dos miúdos é tentar lavar-lhe o cérebro para obrigá-lo a ser melhor do que o filho de uma pessoa com quem não se tem uma boa relação. O pai de Bernard Tomic encaixa-se claramente nesta tipologia de pais.

A exigência e a inflexibilidade que é demonstrada pelos pais no comportamento desportivo dos filhos é o primeiro passo para que os filhos desistam de praticar a modalidade. É o que está a acontecer com Tomic. O australiano só a pratica porque gosta do dinheiro, porque lhe paga os actos de rebeldia que não teve aos 16 anos. Se o australiano conseguir cortar o cordão umbilical com o pai, creio que terá grandes probabilidades de voltar a apaixonar-se pela modalidade e de recomeçar a sua carreira. Caso contrário, não lhe darei meio ano até desistir.

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