O primeiro de muitos, esperemos


Portugal descobriu o futebol feminino há cerca de um ano. Até eu, fui apanhado na rede daqueles que não seguiam com o mínimo de atenção o percurso de evolução da modalidade em Portugal e até no mundo.

Até à entrada do meu clube, o grande Sporting Clube de Portugal (creio que esta revelação in loco já não é uma novidade para ninguém que segue atentamente este blog!) no principal escalão do futebol feminino português, de futebol feminino conhecia pouco ou até mesmo muito pouco. O pouco conhecimento que detinha resumia-se a uma passagem de olhos pelos resultados das selecções nos torneios internacionais ou nos jogos de qualificação para as grandes competições internacionais (jogos em que selecções como a Escócia, a Inglaterra ou a Espanha goleavam as nossas jogadores sem piedade),  uma passagem de olhos pelos resultados e pelas raras notícias que eram fabricadas pelos correspondentes das várias equipas existentes no distrito de Aveiro e uma ou outra notícia sobre a transferência de uma jogadora da região para o estrangeiro. Os feitos de Diana Silva quando jogou no Clube de Albergaria eram portanto “feitos” meramente de jornal. A modalidade não me suscitava interesse, se bem que por vezes, o meu habitual zapping apanhava a transmissão de um ou outro jogo da Liga dos Campeões Feminina na Eurosport.

A entrada de várias equipas da 1ª liga masculina por decisão federativa, decisão cujos propósitos iniciais não me parecem ter sido cumpridos na íntegra (na apresentação do convite que foi lançado aos clubes elegíveis, Mónica Jorge e Fernando Gomes afirmaram que iriam criar um mecanismo de protecção aos clubes pequenos; a verdade é que a visibilidade granjeada pela entrada de Sporting, Sporting de Braga, Estoril e Belenenses na competição não trouxe os encaixes significativos que os dirigentes esperavam, e estes clubes vieram de certa forma engolir os pequenos clubes de bairro\vila existentes com os seus mega orçamentos e com a tão desejada promessa de passagem para a profissionalização das atletas que aceitassem os seus convites) trouxe maior visibilidade à modalidade porque um dos grandes decidiu aceitar o projecto. Se o Sporting não tivesse aceitado o projecto inicialmente traçado (aumento da visibilidade, aumento das receitas, aumento do número de atletas inscritas, subida no ranking mundial) creio, com toda a certeza, que o dito cairia em saco roto. Ainda bem que o Sporting e o Sporting de Braga decidiram aceitar o projecto. A visibilidade da modalidade disparou no nosso país. Pela primeira vez tivemos a transmissão regular de jogos do Campeonato e da Taça de Portugal. Pela primeira vez em vários anos pudemos ver, em sinal aberto, a transmissão de jogos de futebol feminino. No cabo, uma cadeia de televisão também apostou na compra dos direitos dos jogos do playoff de apuramento para o Campeonato da Europa. Contudo, a entrada dos “grandes” na modalidade criou um enorme e assimétrico fosso entre clubes do mesmo campeonato, fosso que poderá demorar vários anos a ser aterrado pelos clubes mais pequenos. O Sporting, por exemplo, irá apostar fortemente na formação de atletas nos próximos anos. O trabalho rigoroso que se vai fazer na Academia de Alcochete irá naturalmente trazer mais-valias para o futebol feminino português. O Sporting trabalhará em conjunto com os outros clubes em prol do bem comum: a nossa selecção. No entanto, por outro lado, o poderio financeiro dos grandes continuará a pisar as pretensões dos clubes pequenos. Assim que determinada atleta destes começar a dar nas vistas, os grandes vão lá e contratam-na. A realidade financeira destes clubes não lhe permite dar as mesmas condições que os grandes dão às suas atletas.

Ao contrário do que muitos tem dito nos últimos dias a propósito deste tema, o apuramento para o Campeonato Europeu não foi obra e graça dos clubes que recentemente entraram para a modalidade. O trabalho de base já estava feito pelos pequenos. Os grandes só tiveram que ir buscar a dedo uma “boa parte do produto de excelência” da carolice de milhares de homens e mulheres que diariamente trabalham (de borla, maior parte) nas instituições em prol do bem estar e da felicidade destas jovens atletas. Uma grossa fatia da população que agora despertou para a realidade do futebol feminino em Portugal, não imagina um terço das dificuldades pelas quais passam algumas das Instituições do futebol feminino em Portugal. As dificuldades em recrutar atletas. As dificuldades sentidas ao nível do financiamento. As necessidades estruturais. Não sabem por exemplo que uma pequena aldeia da freguesia da Moita (Ferreiros – Anadia) tem uma equipa na 1ª divisão. Sim. Uma aldeia com 300 ou 400 habitantes (a freguesia tem 2400 habitantes) tem uma equipa na 1ª divisão! Imaginem portanto os esforços de recrutamento que os dirigentes daquele clube tem que realizar constantemente para conseguirem ter as suas equipas no activo. Muito fácil é pensar que um Sporting ou um Belenenses tem um número de envolvidos de largas dezenas de pessoas e vários “clubes pequenos” em seu redor. Difícil é conseguir construir uma realidade numa zona de baixa densidade populacional, com meia dúzia de pessoas envolvidas, e ter que ombrear constantemente a sua diminuta (enorme, do ponto de vista social) oferta com a restante oferta desportiva da região. Bem próximo do exemplo do Ferreirense está o Rugby Clube da Bairrada, clube que pertence à mesma freguesia e que oferece a prática de rugby no sector feminino.

Este golo foi, no mínimo, suado. Foi suado por todos aqueles que o conseguiram com a sua simpatia, com a sua bonomia e com o abnegado esforço que ofereceram (gratuitamente; com um grau de ingratidão bárbaro em muitos casos) em prol da evolução desta modalidade em Portugal. Esperemos que este seja o primeiro de muitos. Esperemos que esta seja a primeira de um futuro cravejado de vitórias. Esperemos que possam estar a médio prazo a lutar por mais. Esperemos que a Federação Portuguesa de Futebol trabalhe no sentido de diminuir as assimetrias que se estão a formar no Campeonato Nacional. O aumento de competitividade na prova trará no futuro os seus frutos.

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2 thoughts on “O primeiro de muitos, esperemos”

  1. Boa análise como habitualmente.
    Tenho seguido quase diariamente os seus artigos e está de parabéns pela forma clarificadora e simples que escreve.
    Bom trabalho!

    Gostar

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