A alegria do Rugby


Todos os dias, mais ou menos por esta hora, abro o Youtube para poder procurar a informação que me interessa para a escrita dos posts que diariamente vos ofereço. Tendo subscrito nos últimos meses uma centena de canais na dita plataforma de distribuição digital de vídeos (a falta de tempo leva-nos a ser criteriosos e metodológicos na procura de informação) para poder ter à mão de semear toda a informação que necessito, o Youtube, ou melhor, alguns utilizadores do Youtube tem o dom de me surpreender de vez em quando. Quando pude abrir este vídeo para tentar constatar fundamentalmente a dimensão e o actual patamar de evolução do rugby africano, fiquei surpreso com o ambiente que é vivido nos campos africanos.

Uganda e Quénia são neste momento duas selecções inseridas em patamares distintos de evolução. Enquanto os ugandeses estão ainda a viver o final da sua “primeira fase de desenvolvimento” (nos últimos anos já conseguiram fazer penetrar alguns jogadores no competitivo campeonato queniano), os quenianos já são uma certeza do futuro da modalidade.

Para o leitor ter uma noção, os quenianos ocupam neste momento o 25º lugar do ranking mundial (1 lugar à frente de Portugal; nos últimos 7 anos, os quenianos subiram 14 posições no ranking e estãoi à beira de ser considerados como um país de Perfomance 1 para a World Rugby), já bateram com estrondo a selecção portuguesa por 41-15 no inglório test match realizado a 30 de Maio de 2015 em Nairobi, jogo em que Vasco Uva pode cumprir a sua histórica 100ª selecção naquele que supostamente seria o seu último jogo com os Lobos (o asa viria a regressar no Championship 1 ano mais tarde para tentar ajudar a salvar a honra do convento), já bateram outras selecções com a Namíbia ou a Espanha nos últimos, estiveram muito próximos de bater a Alemanha no test match realizado durante a Janela de Verão, já conseguiram colocar o seu primeiro jogador numa equipa de topo do rugby britânico (Joshua Chisanga, nº8 dos Newcastle Falcons de Inglaterra) e são, na variante de Sevens, a enorme potência que podemos ver a olho nu, todos os anos, nas Sevens World Series e nos Jogos Olímpicos do Rio. Na cidade maravilhosa, os quenianos puderam participar em ambos os sexos.

A curto\médio prazo, a formação queniana irá tentar quebrar a hegemonia da Namíbia nas competições africanas (a África do Sul não participa nas competições regionais) e irá tentar roubar o habitual lugar que é conquistado pela selecção namibiana nas fases finais dos mundiais. Este não é de todo um palpite lançado para o ar: é uma certeza para o futuro. Os quenianos aperceberam-se no início do século XXI que a morfologia, a fisionomia, a capacidade de resistência à dor, e vontade que caracteriza os seus atletas oferece uma data de potencialidades à modalidade. Nos anos 90, a federação Queniana apostou numa série de iniciativas para aumentar a visibilidade do jogo no país. A saber:

  • A contratação de técnicos qualificados, principalmente de nacionalidade inglesa, quer para a sua selecção quer para planteis seniores das equipas locais.
  • Uma forte aposta na prática da modalidade nas escolas. Tanto a variante de XV como a variante de Sevens são desde 2004 “modalidades” de prática obrigatória em todas as escolas e em todos os ciclos de ensino. Actualmente, o país tem 50 clubes activos em todo o país e sensivelmente 42 mil atletas federados. Desses 42 mil, 30 mil são jovens até aos 20 anos e 3 mil são mulheres.
  • A melhoria das condições infraestruturais existentes no país para a prática da modalidade. O Estado queniano pretende construir até 2023 um centro de alto rendimento em todas as províncias do país.
  • A aposta primordial nos Sevens como instrumento de aquisição por parte do jogador nacional de valências técnicas e tácticas apuradas por via da competição contra as nações desenvolvidas. Ao lançar uma data de jogadores nas Series contra as selecções de mais prestígio, a federação queniana pretende que os seus jogadores possam aproveitar a competição contra as selecções das nações ditas desenvolvidas para evoluir em todas as vertentes do jogo.

O modelo queniano foi um verdadeiro modelo de sucesso. A modalidade ganhou uma visibilidade de primeira água no país (só superada pelo atletismo e pelo futebol), o número de praticantes triplicou nos últimos 10 anos, e a Federação pode colher os louros da aposta realizada. Como nas últimas semanas, dezenas de pessoas tem, em função do passado recente e do presente do nosso rugby, apresentado o mais variado leque de soluções para os nossos males, aproveito para lançar uma pequena achega para a discussão: as formulas mais eficazes para o sucesso são, em determinados casos, constituídas pela modificação de pequenos aspectos que fazem toda a diferença. O desporto escolar poderá ser a nossa tábua de salvação para o futuro. Bastará usar todas as suas potencialidades.

Como referi no início do post, o ambiente nos jogos entre equipas africanas é deveras sensacional. Os pequenos estádios onde se disputam as partidas estão cheias, o público é por demais entusiasta da modalidade e o ar que se respira é de alegria. Diferenças em relação ao ambiente que se vive nos campos portugueses? Algumas. No continente africano poucos são aqueles que reclamam com as decisões de arbitragem, os adeptos não passam o jogo a insultar os adeptos dos adversários, ninguém perde as estribeiras e ninguém responde à boca que é lançada “à má fila” pelo pai de um dos adversários. Toda a gente torce para que a sua equipa marque um belo e poderoso ensaio. Até neste aspecto, os agentes e adeptos que gravitam pelos campos de Rugby em Portugal deverão colocar a mão na consciência e reflectir seriamente sobre os maus exemplos que dão aos seus atletas\filhos\netos\sobrinhos.

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