A veterania faz a diferença


Em Brugge, a noite até aparentava estar predestinada para ser uma espécie de apresentação (oficial, na Champions) dos belgas aos sócios, não obstante o precioso valor da veterania que se encontrava do outro lado da barricada.

Com a obtenção de 2 golos nos primeiros 16 minutos (o nigeriano Denis Bonaventura aproveitou um interessante arrastamento promovido pela entrada no meio das linhas contrárias da “pérola israelita” Lior Rafaelov e uma entrada a falso bem engendrada pelo avançado francês Jeremy Perbet para ficar no 1×1 contra o central Joseph Attamah; Junior Caiçara ainda tentou fornecer a sua ajuda mas o jovem nigeriano de 19 anos, jogador que irá dar muito que falar no futuro, já tinha feito a diferença; Stefano Denswill fez a bola “voar baixinho” na magistral cobrança de um livre para o 2-0) os belgas, clube que nos últimos anos ficou completamente “viciado na Champions”, pesem embora os resultados obtidos (que no fundo nem contam para grande coisa para um clube que utiliza a Champions para tentar ganhar umas massas extraordinárias e para promover os produtos de Denominação de Origem Protegida que caça nos mais diversos pontos do planeta), parecia embalado para um triunfo interessante sobre o conjunto de veteranos de alto traquejo que apadrinhou a estreia do Instambul Basaksehir na principal prova do futebol europeu.

A formação turca tem vindo a subir o seu estatuto anos após ano. Presidida pelo excêntrico Göksel Gümüsdag, a formação que actua na maior homenagem feita em vida a qualquer agente desportivo daquele país, o Fatih Terim Stadium (custo de 178 milhões de dólares), agremiação constituída em 1990 por 4 clubes da mítica cidade do Grand Bazar, tem vindo a construir lentamente um projecto muito sólido que pode vir a por em causa o domínio que é realizado, à vez, do caos para o topo e do topo para o caos, pelos clubes grandes da Turquia. A excepção a esta regra nos últimos 40 anos? O Trabzonspor Kulubu. Em 6 ocasiões. Com dois 4ºs lugares na Liga nas temporadas de 2014\2015 e 2015\2016 e um 2º lugar na temporada passada, a formação de Instambul realizou um ataque forte ao mercado para trazer fruta (bem madura) que lhe permita em simultâneo, um xeque à liga e a preciosa entrada na Liga dos Campeões.

A grande estrela da equipa na temporada passada, Cengiz Under, rumou por 13,4 milhões para a Roma. A um leque de jogadores como Volkan Babacan, Márcio Mossoró Emre Belozoglu (parece que a idade o estica ainda mais! continua fino como o aço a distribuir jogo como ninguém e a correr que nem um desalmado à procura de a caçar aos adversários) e Emmanuel Adebayor, foi adicionado outro lote de veteranos constituído por Eljero Elia, Aurelien Chedjou, Gael Clichy, Gokhan Inler, Mevlut Erdinç e Manuel da Costa. Kerim Frei e Tunay Torun, ainda são opções de futuro. O ataque ao título é possível.

Os belgas quiseram enganar os velhotes. O Mossoró “diz-te das boas.”

Quem não se lembra do magistral médio que passou em Portugal ao serviço do Marítimo e do Braga? Márcio Mossoró foi provavelmente um dos melhores 10 da história recente do futebol português. O médio ofensivo sabia tudo sobre futebol. Sabia como acelerar um contra-ataque como poucos. Sabia o timing perfeito para fazer aquele passe de ruptura que escangalhava por completo uma defesa. Sabia colocar aquele pormenor técnico que fazia toda a diferença numa jogada. Resumidamente: Mossoró foi de longe e com muita sobriedade, um dos finos jogadores que alguma vez vi jogar neste rectângulo à beira-mar plantado. Em 2013, farto de não ter espaço num dos 3 grandes (quando estava ao alcance de meia dúzia de tostões) decidiu ir fazer os seus “contratos de uma vida”, primeiro para a Arábia Saudita e posteriormente para a Turquia.

Mossoró deu o grito da revolta dos turcos. Os três golos obtidos pela formação orientada por Abdullah Avci foram de uma simplicidade extrema. O futebol reduzido a um positivo e eficaz. No primeiro, Mossoró aproveitou a frincha que a defesa dos belgas lhe concedeu à entrada da área para puxar do gatilho.

No 2º, um alívio aparentemente inofensivo de Attamah colocou Eljero Elia isolado na cara de Ethan Horvat. O trintão holandês não foi suficiente lesto a estabelecer uma linha de corrida até à finalização (o normal; Elia nunca foi propriamente conhecido pela sua velocidade de execução mas antes pela sua aprimorada técnica individual e pela sua espantosa capacidade de drible) mas remendou a falha inicial no lance (apesar de ter feito uma extraordinária recepção orientada com o calcanhar) com um vistoso passo de capoeira no drible sobre os centrais belgas. Vejamos ao pormenor:

Mossoró completou o trabalho (um promissor 3-3 que abrirá decerto as portas do apuramento na Turquia) num excelente lance de pensamento de jogo e movimentação colectiva:

Gokhan Inler faz um bestial ataque à profundidade (ao passe de ruptura) por detrás das costas do central Bjorn Engels. Nota-se a posição de Mossoró. O jogador já vai a correr para a frente para dar apoio imediato a Inler caso o jogador não consiga rodar de forma a virar-se para a baliza. De fininho, o brasileiro passa pelo meio de dois jogadores. A defesa do Brugge é nitidamente apanhada em contra pé.

Conforme o previsto na sua movimentação inicial, Inler não consegue ficar isolado e é obrigado a ter que recepcionar e dar dois passos atrás com a bola para esperar a entrada de Mossoró no espaço em vazio que será deixado pelo ala Ahmed Touba. 

Com uma suave rotação para se virar de frente para o jogo depois de ter dado dois passos atrás, Inler não só não permite a Mechele uma rápida abordagem para tentar o desarme (o espaçamento existente não permite o tackle imediato) como já tem uma nova linha de passe (de ruptura) criada para Mossoró porque deixou o seu colega subir. Bastará colocar a bola pelo espaço existente entre os centrais do Brugge para a entrada do brasileiro pelas costas de Mechele.

Feito. Mechele quase consegue um corte inextremis mas a bola já tem destinatário. Se o brasileiro assim quisesse, poderia ter abrilhantado a jogada com uma assistência para Adebayor porque a defesa belga, como podemos ver em todos os frames, ficou completamente vidrada na acção de Inler, deixando Mossoró e Adebayor entrar nas suas costas sem a devida marcação.

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