“Por favor, vendam-me”


Os mais recentes episódios protagonizados por Neymar enquadram-se nos moldes clássicos do birrento e insatisfeito jogador que pretende sair do clube. O dinheiro e a vontade de ser protagonista num cantinho só seu (admitamos: em Barcelona, o brasileiro só sairá da sombra de Lionel Messi quando o argentino mudar de ares; facto que jamais irá acontecer ou que acontecer, numa hipótese muito remota, se o argentino tiver, lá para os 35 ou 36 anos uma enorme e tentadora proposta da China, de um clube do Médio Oriente ou da MLS) sobrepõem-se claramente à lealdade para com a entidade que lhe paga o salário e por conseguinte para com todos aqueles que ajudam essa mesma entidade a arranjar fundos para lhe pagar o salário, e à honestidade que cada jogador deveria ter quando assina um contrato.

A falta de carácter é hodiernamente transversal a muitos agentes que gravitam nesta modalidade. Poucos são neste momento os jogadores que assinam um contrato com determinado clube na disposição de o cumprir até ao fim sem um único aumento salarial ou sem a hipótese de poderem rumar rapidamente a outro que lhes ofereça uma proposta financeiramente mais vantajosa. Outros ficam insatisfeitos quando não atingem o estatuto que lhes é prometido no momento das negociações do contrato. Outros são movidos a “ritmo de toque de caixa” dos interesses (gulosos ou gananciosos) dos empresários. O caso de Neymar é uma mistura destes dois factores de insatisfação, mas, o brasileiro tem que compreender que ao assinar um contrato com um determinado clube, esse clube reserva-se ao direito de o fazer cumprir até à última gota de suor.

A muitos costumo dizer nas discussões acaloradas que temos no café: os clubes, per se, não pagam o ordenado a ninguém. Sem os adeptos, os clubes não tem possibilidades de ir buscar dinheiro a lado algum! Imaginemos um futebol sem adeptos, com estádios vazios, sem transmissões televisivas, sem vendas de merchandizing, sem a indispensável receita promovida pela quotização que é cobrada aos associados e sem qualquer espécie de visibilidade – estaria algum investidor disposto a investir nesta modalidade? Obviamente que não. Teria algum clube a mínima possibilidade de pagar os ordenados chorudos que paga? Poderia Neymar ou qualquer outro jogador viver “a vida faustosa” que actualmente vive? Não. O futebol nunca teria saído do seu estado mais cristalino: um passatempo utilizado pela elites e pelos operários de determinadas fábricas nos seus momentos de pausa ou de lazer!

Não pretendo de modo algum com este argumento afirmar que todos os jogadores deveriam ser sujeitos a cumprir até ao fim o seu contrato embora, 95% das pessoas “normais” sejam obrigadas a fazê-lo por imperiosos motivos relacionados com a sua própria sobrevivência. A ambição a uma vida melhor é legítima para qualquer pessoa. O mundo vive, infelizmente, em constante competição. A oportunidade que não é aproveitada por um é imediatamente oferecida a outro. Aquele que não é capaz de apanhar o comboio à saída, jamais o irá apanhar em movimento. Neymar quer “mudar para melhor” – o Parc des Princips aparece-lhe claramente como uma oportunidade clara para ser líder, para ganhar muito dinheiro e para construir o legado que jamais será capaz de construir na sombra de Messi. De Messi, de Iniesta, de Xavi, de Busquets, de Suárez – o brasileiro aparecerá, face ao futebol que tem praticado no último ano e meio – lá para 6º na nomenklatura actual dos catalães. No entanto, considero que existe apenas uma forma de persuasão possível neste caso: o diálogo. Findo o diálogo, finda-se a legitimidade: o jogador tem que cumprir o contrato que assinou de boa-fé com o clube. O que o brasileiro está a fazer é a típica chantagem que todos os jogadores fazem quando querem sair de determinado clube, com os custos adicionais (de instabilidade) que tais comportamentos causam a colegas de equipa, treinadores e dirigentes.

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