Michal Kwiat “Supersonic” Kowski vence a explosiva Clássica de San Sebastian


Explosiva. Táctica. Demasiado táctica. Incisiva. A edição deste ano da mítica Clássica de San Sebastian voltou a oferecer-nos ciclismo no seu seu estado puro: explosivo, emotivo, pensado ao pormenor e ofensivo. Na chegada a San Sebastian, o polaco Michal Kwiatkowski, ciclista que se tornou campeão do mundo em 2014 em solo espanhol (mais concretamente na lindíssima região de Ponferrada) juntou a vitória na clássica mais emblemática que é disputada aqui no país vizinho ao seu extenso currículo neste departamento de provas. A Sky mereceu mereceu por inteiro a vitória conquistada ao sprint pelo all-arounder polaco. Com uma abordagem extremamente ofensiva (e causadora de imenso desgaste nos rivais) nos últimos 30 km, a formação britânica foi aquela que mais esforços realizou para poder festejar a vitória no final dos inclinados e expressivos 230 km de corrida. Num final disputado ao sprint em grupo reduzido, Kwiat fez prevalecer a sua superioridade ao nível da finalização de etapas para bater a gigante concorrência que se formou nos últimos 10 km da prova.

As clássicas são por defeito corridas por eliminação. Sendo provas de um dia no qual o vencedor tem que ser forçosamente encontrado sobre a linha de meta, nas quais, todos os cenários de corrida devem ser exaustivamente analisadas (quase ao segundo) pelos directores desportivos das equipas e pelos seus ciclistas em função dos objectivos de corrida traçados pela equipa e da gestão do seu esforço, as corridas de 1 dia são normalmente corridas muito tácticas. Todas as equipas querem levar a água ao seu moinho.

O perfil da prova tem obviamente muita influência no planeamento prévio que é realizado pelos directores bem como nas opções que são tomadas ao longo da corrida. Dentro de uma prova existe uma multiplicidade de variáveis que tem forçosamente de ser atendidas, embora seja naturalmente difícil enquadrá-las por motivos óbvios: há quem queira levar a discussão para um sprint em grupo reduzido, por exemplo, porque possui corredores com características mais vocacionadas para esse desfecho. A existência de sprinters, por norma, leva as suas equipas a tentar controlar a corrida. As equipas que possuem sprinters nas suas fileiras estão demasiado confortáveis para encarar uma possível discussão ao sprint. Esse estado de conforto leva-as a tentar trabalhar de forma a anular qualquer investida que possa anular a realização desse cenário. Outros directores desportivos, possuidores de ciclistas que conseguem fazer a diferença em curtos segmentos de terreno inclinados, tentam anular a possibilidade de levar a corrida para as situações que lhe são mais desfavoráveis por falta de unidades que possam fazer a diferença num sprint massivo ou em grupo seleccionado. Há também quem tenha corredores para fazer a diferença em longas fugas. A existência de uma longa multiplicidade de variáveis dentro de uma prova com determinado perfil leva as equipas a adoptar duas tipologias ao nível de abordagem: uma postura de controlo – deixam sair atletas de outras equipas do pelotão\grupo mas não os deixam ganhar muito tempo para serem facilmente alcançáveis – ou uma postura ofensiva – lançam vários ciclistas ao ataque ao longo da prova para desgastar as formações e “o homem forte” das equipas que estão a controlar na dianteira do pelotão. Por vezes, as equipas que controlam também sentem necessidade de colocar um corredor num grupo em fuga para terem a certeza que estarão na discussão da prova se o controlo que é feito cá atrás pelas restantes unidades, em prol de um “homem forte”, falhar. Noutras ocasiões, as equipas ditas ofensivas, vão colocando na frente uma série de corredores que tem como função desgastar as equipas que abordam a corrida com o intuito de a controlar, para preparar o ataque do seu “homem forte” no ponto devidamente assinalado pelo seu director desportivo.

A leitura dos cenários de corrida que são oferecidos durante o decurso de uma prova, não são, de todo lineares. Para além dos objectivos de corrida pré-estabelecidos no planeamento que é realizado previamente pelos directores de corrida, existem uma multiplicidade de condicionantes que emergem no decurso da mesma. A saber: a condição física geral dos atletas, a condição física do atleta no momento de uma movimentação, a gestão do seu esforço para que este possa ter energias para ser movimentado se as condições de corrida entretanto se alterarem, o número de ciclistas envolvidos num ataque, a sua dinâmica ao nível de colaboração, a definição existente na perseguição ao ataque, o número de unidades colocadas no esforço de perseguição, o tempo amealhado por determinado ataque, os furos, as quedas, entre outros factores. Nem todas as situações de corrida são controláveis.

A estratégia de corrida ofensiva utilizada por 3 formações (primeiro a Quickstep; depois a Sky e a Lotto-Soudal) nos últimos 30 km visou essencialmente desgastar as equipas que tomaram a dianteira do pelotão para controlar a corrida: a Orica de Simon Yates e a Sunweb de Tom Dumoulin.

A formação belga foi a primeira a mexer com a corrida quando colocou corredores na fuga inicial. Na penúltima das 8 subidas categorizadas do dia, Enric Mas trabalhou afincadamente para possibilitar a extensão da fuga a David de La Cruz. O principal beneficiário desse trabalho de extensão dos intentos e eliminação (de alguns ciclistas perigosos neste tipo de terreno que seguiam no grupo; ciclistas como Alessandro DeMarchi da BMC ou Laurens Ten Dam da Sunweb) acabou por ser o jovem “tractor” da Sky Gianni Moscon. Moscon atacou e obrigou a Orica a desgastar-se mais um bocadinho na sua perseguição. O jovem e enérgico corredor de 23 anos, ciclista que será seguramente dentro de alguns anos, um dos principais especialistas nas designadas “clássicas de colinas” viria a ser apanhado bem perto do início para a última dificuldade do dia: a subida ao pequeno alto de Tontorra, dura ascensão de 2,5 km (9% de inclinação média com 500 metros finais demoníacos na ordem dos 20%) que cumpriu, na presente edição, a sua “estreia na prova”.

Foi na subida para o Tontorra que a Sky e a Lotto arrumaram com as pretensões da Orica de Simon Yates. A equipa australiana tinha vindo até então a trabalhar com afinco com várias unidades na frente do pelotão (Roman Kreuziger, Jens Keukeleire) para oferecer ao seu pequeno mas explosivo ciclista a possibilidade de lançar um ataque letal na Tontorra. Os ataques em escadinha de Jelle Vanendert num primeiro momento, e de Mikel Nieve num segundo momento rebentaram por completo com os australianos e obrigaram a Sunweb a pegar na perseguição na frente do grupo principal, entretanto reduzido a cerca de 40 unidades, por intermédio do inesgotável Warren Barguil. A movimentação da dupla deu azo à movimentação de outros ciclistas: Tony Gallopin (Lotto-Soudal) e Mikel Landa saíram, sobretudo para desgastar Barguil, Bauke Mollema não demorou muito a juntar-se à investida e Tom Dumoulin foi obrigado a ir ao choque uns metros depois na companhia de Kwiatkowski. Enquanto Kwiat saía (o director desportivo da Sky apercebeu-se que Mikel Landa teria poucas probabilidades de vir a bater Gallopin ao sprint se ambos chegassem isolados na frente da corrida) lá na frente, Gallopin tentava surpreender o ciclista local (nascido nos arredores de Eibar) com um cadenciado ataque.

Seguiu-se a descida. A Bauke Mollema, ciclista que entretanto entrou na frente, não lhe interessava a presença dos dois homens perseguidores. Ao duo de perseguidores, não interessa por exemplo a entrada de dois dos ciclistas que seguiam na frente do 3º grupo: Greg Van Avermaet (BMC) e Rigoberto Uran (Cannondale). Com um enorme esforço no segmento de plano que antecedeu a entrada no centro de San Sebastian, Michal Kwiatkowski conduziu Tom Dumoulin até ao trio que seguia na frente. No último km, Landa conduziu o grupo até a recta da meta, Tony Gallopin lançou o sprint com alguma agressividade mas os esforços realizados pelo francês não lhe permitiram superar o supersónico Michal Kwiatkowski.

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