Os golos do dia


Comecemos pelo primeiro golo do Benfica frente ao Arsenal na copiosa derrota sofrida pelos encarnados frente aos Gunners por 5-2. Não preciso de medir bem as palavras. A derrota foi copiosa. Não pelo que o Benfica fez nos momentos ofensivos, porque os encarnados fizeram um jogo muito aceitável no plano ofensivo, não pelas falhas defensivas (falhas que de resto têm vindo a ser o principal problema para Rui Vitória nesta pré-temporada) mas pelo banho de futebol que os encarnados encaixaram dos londrinos na 2ª parte. Se me dessem hoje, face ao futebol que os Gunners tem vindo a praticar nesta pré-temporada, um contrato no qual se estipulasse que os gunners venceriam a Premier League se continuarem a praticar este futebol, tenho a certeza que o assinava sem reservas e sem ver as abusadoras regras estipuladas nas letras miúdinhas a rodapé. No entanto, sei, por experiência que a equipa de Arsène Wenger é uma equipa que costuma encantar imenso nos jogos teoricamente mais fáceis para posteriormente, penar naqueles onde tem a obrigação de fazer a diferença, ou seja, nos jogos contra os outros grandes do campeonato, ou no terrível e assumidamente nefasto trânsito natalício. 

O primeiro golo dos encarnados no Emirates foi um verdadeiro golaço. Não pela finalização em si (normal; até algo feliz; pese embora o verdadeiro golpe de rins que o argentino ofereceu ao adversário quando deixou a bola pingar no chão) mas pela fantástica sincronização de movimentos e acções. O toque de Sálvio para dentro escancara o corredor central para Pizzi colocar o que quiser no jogo. A incursão de Jonas para a área é realizada no tempo perfeito e a assistência do striker brasileiro para Cervi é um acto de leitura do panorama fantástico de Pistolas.

P.S: Do que vi da sua participação no jogo, confesso que gostei da actuação do meu antigo pupilo Aurélio Buta. A sua transformação num lateral direito de qualidade está consumada. Rui Vitória tem aqui um enorme talento que deve ser trabalhado, principalmente nos aspectos defensivos. Ofensivamente, Buta está mais que preparado para assumir o lugar. A sua formação como extremo permite-lhe colocar muita velocidade nas transições pelos corredores às quais é chamado a participar, é um jogador com uma capacidade de passe (principalmente em profundidade) acima da média e quando puder “passar” uma boa parte do tempo de jogo no último terço adversários veremos o miúdo a sorrir para os adversários com os seus espantosos dribles. Neste momento, creio que Buta é o jogador mais parecido com as características de Nélson Semedo. Resta melhorá-lo defensivamente (quer ao nível posicional, quer ao nível da abordagem no 1×1 adversário) para o tornar num lateral de futuro.

O pior estava porém para vir

Wenger está de regresso, noutros moldes, ao seu futebol-arte. A estética do caudal ofensivo deste Arsenal não engana. Os Gunners praticam uma circulação de bola cuidada, variada (vários processos de circulação tanto pelos corredores como pelo interior; Granit Xhaka é finalmente o comandante supremo do barco; é ele que coloca todos os ritmos de jogo, quer através de acelerações quer através do passe) com o uso e abuso constante da projecção de toda a sua equipa no terreno, sobreposições nos corredores com utilização recorrente de situações 1×2 para ultrapassar a pressão adversária, jogo entre linhas, apoios frontais cedidos pelos 3 homens da frente, tabelas e triangulações à entrada da área e muita gente em zona de finalização. No jogo de ontem, existiram momentos em que os londrinos apresentavam 4 jogadores em zona de finalização. Noutros, só os centrais é que não subiram até ao último terço adversário. Até mesmo quando o médio defensivo egípcio Mohammed El Neny entrou, Wenger pediu ao egípcio para se aproximar o mais possível da grande área da formação de Rui Vitória.

No lance do 2º golo, para além do facilitismo concedido por vários jogadores na tabela realizada por Alex Iwobi e Francis Coquelin para entrar na área encarnada, estão 5 jogadores dentro da área. Dos 5 jogadores, o portador tem 4 soluções passíveis para realizar a assistência. A linha defensiva não é devidamente coordenada por Luisão para tentar cavar o fora-de-jogo. Uma das falhas que reparei em 3 dos 5 jogos do Arsenal residiu precisamente na dificuldade evidente demonstrada pela defensiva encarnada no capítulo da coordenação – em 2, Luisão dá sinal para subir mas a “sua equipa acaba” por não coordenar essa subida. Jardel dá a frente ao adversário porque é apanhado em contra pé. Repare-se também no posicionamento de Eliseu e Franco Cervi. Seria praticamente impossível este lance não dar golo.

Lance do 4-2. Nova falha defensiva. Defesa altamente concentrada num curto espaço de terreno em virtude da acção de Walcott. Nelson aparece à vontade para cruzar. Muitos jogadores encarnados (6) acorrem aquele ponto do terreno para tentar o desarme, mas, depois falta gente nas costas de Luisão. O capitão ainda tentou subir mas já era tarde. A posição de Giroud e do jogador que está nas suas costas é regular. Mais uma vez, estão 3 homens do Arsenal em zona de finalização. 

Viajamos juntos?

Minuto 9:43

O 5º golo dos Gunners é uma verdadeira comidela cerebral. Ainda dizem que o velho Wenger está desactualizado! Desactualizado uma ova! A mecânica apresentada é de altíssima qualidade.

O apoio frontal que foi oferecido em duas situações por Olivier Giroud (no segundo apoio frontal do avançado na jogada, foi a defesa encarnada que lhe ofereceu o pote de mel quando recuou e deixou o avançado fazer o que queria à vontadex), a inversão do sentido de jogo, visão de jogo, e inteligência de Mohammed El Neny (pau para toda a obra que Wenger tem vindo a utilizar várias posições no corredor central durante os amigáveis desta pré-temporada; é nesta função de 2º médio, mais avançado no terreno em relação à sua posição original, que o médio egípcio se sente mais confortável) na variação do centro de jogo para a esquerda (ao fingir que vai realizar uma abertura para o flanco direito, o corredor mais utilizado pelos Gunners na partida, o egípcio compreende que pode imediatamente promover um arrastamento defensivo; se o fizesse não seria de espantar visto que Nelson estava sozinho, como de resto esteve quase sempre ao longo da partida; É nesse preciso momento que a incursão até à área de Kolasinac faz todo o sentido porque Buta esquece-se temporariamente do espaço que tem de fechar para se encostar aos centrais. A defesa encarnada fica completamente baralhada com a inversão realizada pelo egípcio num espaço de milésimos de segundo e o lateral pode, por sua vez, receber no espaço livre, sem grande oposição, para adoçar o esférico, fingir que vai ganhar a linha de fundo e assistir a movimentação, sem marcação de Giroud)

Vejamos o que acabei de dizer nas famosas frames:

É tudo nosso caralho!

Primeiro apoio frontal oferecido por Giroud. Uma constante desde que o egípcio entrou em jogo: o seu posicionamento entre as linhas adversárias. A acção mais plausível para El Neny seria a abertura para Nelson. O quarteto defensivo encarnado está altamente concentrado (mais uma vez) num pedaço curto de terreno. As alas (a azul) estão completamente abertas. 

Momento da inversão de El Neny. Buta já deu a frente a um adversário. Kolasinac entra pelas suas costas sem que ninguém o acompanhe. Todo o meio-campo e ataque encarnado fica nas covas. Ninguém espera que El Neny faça a inversão do centro de jogo para o flanco esquerdo. 

Quando o passe do internacional egípcio sai, Kolasinac já tem o dia ganho. Bastar-lhe-à ser rápido a entrar na área. 

O antigo lateral do Schalke 04, ainda faz uma maldade ao jovem internacional sub-19 quando finge ter a intenção de tomar a linha de fundo. A entrada de Giroud no espaço livre permitido pelo recuo dos centrais permite o regaboff de futebol que se seguiu. 

Continuo no Emirates. No jogo entre gunners e sevillanos, a formação agora orientada por Eduardo Berizzo (ex-Celta) realizou uma jogada fantástica no lance do primeiro golo do jogo. Destaque óbvio para a simulação de Joaquin Correa no lance do primeiro golo.

Ao deixar passar o passe do veterano Krohn-Deli para o ponta-de-lança Ben Yedder, Joaquin Correa não só fixa El Neny (o egípcio tenta imediatamente fechar a porta de entrada) como o passa pelas costas. A simulação do jovem avançado sevilhano apanhou, com alguma inocência, Nacho Monreal a dormir na forma no que concerne à marcação ao avançado internacional sub-21 pela França.

O movimento técnico de Correa na finalização também é muito bom. O avançado põe o pé de lado para dar efeito à bola de forma a desviá-la do guarda-redes.

Na gaveta

Com classe, com naturalidade. Como quem parece estar a fazer uma abertura para o flanco. Steven Nzonzi.

Sadió Mane, o facilitador

De todas as equipas que podem calhar em sorte ao Sporting se a formação leonina não for cabeça-de-série no sorteio, as únicas que me assustam realmente são o Liverpool e o Napoli. Por estilos de futebol muito distintos mas ambos eficazes. Os Napolitanos tem aquele futebol apoiado maravilhoso enquanto os Reds tem vindo a apresentar durante esta pré-temporada uma face mais objectiva do que a que nos acostumamos no último ano e meio com Jurgen Klopp. A entrada de Salah tornou o contragolpe (em profundidade) desta equipa um verdadeiro veneno (se os leões tiverem que jogar contra os reds, creio que o avançado egipcío terá na langona dupla de centrais do Sporting o verdadeiro paraíso na terra) e Sadio Mane é um jogador capaz de fazer, com muita simplicidade, abundantes estragos numa defesa. Acrescem a estes pequenos aspectos, a voracidade com que esta equipa pressiona a toda a largura e comprimento do campo, a começar obviamente pelos pontas-de-lança na saída de jogo adversária. Com Salah em campo, a equipa baixa mais as linhas, espera pelo erro do adversário na circulação e tenta imediatamente lançar o avançado africano nas costas da defesa.

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