Volta à Polónia – 2ª e 3ª etapa –


Sacha Modolo conquista a sua 6ª vitória da temporada no frenético sprint disputado na chegada a Katowice.

A 20 km da meta ninguém previa o que viria a acontecer na chegada a Katowice. A 2ª etapa da Volta à Polónia parecia estar envolta na verdadeira paz do senhor. O bando de fugitivos que passou “meio-dia” na estrada não teve recursos para fazer aquecer sequer os homens da Bora e da Trek. Na verdade, o seu intuito também não era, de facto, esse mas sim a possibilidade de mostrar os símbolos dos patrocinadores estampados nas suas camisolas. O ritmo de corrida que se verificava até esse preciso momento era baixo e tudo apontava para que a etapa pudesse caminhar com muita tranquilidade para os últimos km. 

Um ataque de um ciclista da selecção polaca despertou com a sonolência que era colocada na frente pela Trek. Foi aí que uma série de ataques de ciclistas com muita qualidade abalou por completo o pelotão e obrigou as equipas dos sprinters (Bora, Orica, Quickstep) a terem que trabalhar mais para cumprir os seus propósitos na etapa.

O primeiro a atacar foi um ciclista que considero de excepcional qualidade, embora o seu currículo, à primeira vista, não mostre grandes feitos. Daniel Oss (BMC) é um daqueles roladores explosivos saídos em série da escola italiana a fazer lembrar, em vivos traços, corredores do passado como Salvatore Commesso, Alessandro Ballan ou Andrea Tafi – à semelhança dos 3 que acabei de citar, Oss é um ciclista bastante ofensivo que gosta de fazer a diferença através da realização de ataques em espaços curtos, ou seja, bem perto da meta. Embora não tenha vencido qualquer prova ou etapa enquanto profissional, o atleta da BMC é um ciclista que costuma ser muito interventivo nas clássicas italianas e nas clássicas das ardenas. Assim que Oss foi apanhado (a custo, após ter rodado alguns quilómetros na frente com uma vantagem de 150\200 metros) saíram dois ciclistas ainda mais perigosos: primeiro Bob Jungels (Quickstep) e logo a seguir Nathan Haas (Dimension Data). Se Jungels foi anulado rapidamente porque ninguém queria correr riscos (o belga poderia utilizar os últimos 10 km para fazer um mini contra-relógio que decerto traria problemas a todos os interessados numa discussão ao sprint) Haas ainda pode conquistar uma vantagem apreciável, não obstante o risco que também apresentava.

A Quickstep não quis confiar no trabalho do seu sprinter Davide Martinelli. Num momento da corrida, já dentro dos 5km finais, em que a liderança na dianteira do pelotão rodava entre equipas (a mais de 55 km\h), a formação belga lançou o explosivo Petr Vakoc ao ataque. O ciclista checo, atleta que tem um fantástico potencial, conseguiu colocar vários corações ao alto. A Orica de Caleb Ewan teve que se esforçar imenso para lhe anular a investida. Na roda de um companheiro, o sprinter perdeu mais energia do que decerto contava em perder. A energia dispendida afastou-o por completo da possibilidade de triunfar na etapa.

O quilómetro final haveria de ser disputado num clima de muita explosividade. Sem equipa para o apoiar (a Bora não tem vindo a revelar proactividade na formação de blocos de lançamento, pese embora a sua disponibilidade para perseguir fugas e anulá-las com substantiva eficácia) Peter Sagan não teve grandes hipóteses para se lançar ao sprint. Colocado na 15ª posição à entrada para o km final, o eslovaco não conseguiria chegar-se à frente em virtude do desterro no qual foi acomodado junto às barreiras.

Num sprint altamente incaracterístico com dois blocos de lançamento (um formado pela Sunweb e outro pela Sky de Danny Van Poppel e pela Katusha) o experiente sprinter da UAE foi quem mais lucrou. Com uma peugada fenomenal nos últimos 100 metros, Sacha Modolo pode conquistar o seu triunfo da temporada, alguns meses depois de ter vencido etapas na Volta à Croácia e na Volta à Turquia e no GP do Cantão de Aarau (Suiça). O sprinter italiano pode acabar com a longa seca de triunfos em provas World Tour visto já não conquistava qualquer vitória numa prova da categoria máxima da UCI desde Junho de 2014 quando venceu uma etapa na Volta à Suíça.

Danny Van Poppel (Sky) assumiu a liderança da geral da prova.

Dylan Teuns foi o mais forte no muro de Szczyrk

O sprinter da Sky veio a tornar-se, com muita naturalidade, um isco fácil na 3ª etapa. A 3ª tirada da Volta à Polónia marcou a transição entre as etapas de plano e as etapas de montanha. Com um percurso bastante exigente na sua parte final (4 inclinações de exigência considerável) e um quilómetro final apenas comparável ao muro de Huy (17% de inclinação), a tirada entre Jaworzno e Szczyrk tinha todos os condimentos para ser disputada pelos melhores puncheurs em prova, com trepadores à mistura. 

A etapa foi animada nas primeiras horas por um conjunto de corredores muito interessado formado por homens como o nosso José Gonçalves (Katusha), o enérgico veterano Maxime Monfort (Lotto-Soudal), o gregário de Thibaut Pinot (chefe-de-fila da FDJ na prova polaca) Sebastien Reichenbach ou Matej Patersky da CCC. A Sky e a Cannondale foram as equipas que mais trabalharam para anular a fuga.

Com o seu bloco de 6 corredores na frente, a formação norte-americana decidiu lançar muito cedo a sua cartada para a tirada: o italiano Davide Villella. O ataque de Villela a 38 km da meta puxou consigo uma data de corredores de outras equipas, com destaque para um corredor da Bahrein-Mérida. Num par de metros, Villela alcançou os homens que corriam há 2 horas na frente e passou-os literalmente sem lhes passar cavaco. O italiano ainda correu 1 km na frente mas rapidamente seria alcançado pelo grupo de fugitivos, grupo que por sua vez, viria a ser anulado mais à frente quando faltavam 35km.

Enquanto na cauda do pelotão, muitos ciclistas faziam a sua despedida do grupo principal, na frente, bem atentos, Bob Jungels e Vincenzo Nibali esperavam o momento certo para poder, quicá, lançar-se ao ataque.

A Sky tomou a dianteira da corrida por breves quilómetros. Nos últimos 20 km a Katusha assumiu as despesas da corrida. Simon Spilak e Ilnur Zakarin demonstravam as suas pretensões à etapa. Nesse momento, pudemos ver José Gonçalves novamente na frente do pelotão a trabalhar para os seus líderes.

A formação russa, equipa que tem no presente, a sua sede (para efeitos fiscais na Suíça) pode, num espaço de 5 km acelerar a corrida para preparar o lançamento do ataque de Ilnur Zakarin. Com uma enorme pujança, o trepador de 27 anos nascido na região montanhosa do Tartaristão adiantou-se no terreno com muita facilidade. A ideia da formação russa passava sobretudo por lançar Zakarin na frente para perceber se haveria alguma reacção por parte das outras equipas\corredores com ambição à geral, de forma a desgastá-las para eventualmente lançar, no meio do caos provocado pelo primeiro, um segundo ataque de Simon Spilak. Ninguém reagiu à primeira. A Bahrain ainda tentou pegar na corrida por alguns segundos mas logo a entregou a Axel Dumont da AG2R e a Rohann Dennis da BMC. Bem colocado na frente do pelotão, o nosso Rui Costa seguia o decurso das operações com alguma atenção\curiosidade. Se surgisse o ataque perfeito, o português estaria pronto a apanhar a roda.

Zakarin seria apanhado a 13 km da meta. Rohann Dennis (BMC) acalmou o ritmo na parte mais dura da subida em questão, facto que veio a permitir o convicto ataque de Jack Haig da Orica-Scott. Determinado a vencer a etapa, o talentoso ciclista australiano de 23 anos que é apontado como o verdadeiro sucessor do antigo vencedor do Tour Cadel Evans conseguiu, no km remanescente até ao alto, ganhar uma diferença interessante na casa dos 17\18 segundos, diferença que conseguiu manter na descida, não obstante os esforços realizados pela Sky e pela BMC para anular a desvantagem. Haig só viria a caçado dentro dentro dos últimos 1000 metros na aproximação ao verdadeiro muro que se seguiria.

No quilómetro final, Valério Conti (UAE) foi o primeiro a mexer. Na frente, bem posicionados seguiam Diego Rosa (Sky), Rui Costa (UAE) e Peter Sagan (Bora). Apesar da subida não convidar a um ataque do português (o ciclista já confessou que não gosta de subidas muito explosivas no final de etapa; dai advém o facto de não apostar tanto na Flèche Wallone como aposta por exemplo na Liège-Bastogne-Liège) o Rui manteve-se sempre convicto que poderia vencer a etapa e quem sabe, até ascender à liderança da prova.
Seguiu-se Adam Yates acompanhado de Dylan Teuns da BMC e Wilco Keldermann da Sunweb. Moralizado pelas duas vitórias obtidas há uma semana atrás no Tour da Valónia, o ciclista belga de 25 anos, ciclista que está a passar por um enorme momento de força física e de força mental, abriu a passada com largueza (e muita espectacularidade) nos 200 metros finais para passart Yates e não ganhou para o susto quando viu a galope, pelo retrovisor, os dois chefes-de-fila da Bora, Peter Sagan e Rafal Majka. Num primeiro momento, a 400 metros do fim, Sagan parecia estar a perder fulgor. Assim que a estrada começou a perder inclinação, o eslovaco teve forças para passar por mais de 10 ciclistas e ameaçar a vitória de Teuns.

Rui Costa terminou a etapa numa honrosa 14ª posição a 14 segundos de Teuns. Peter Sagan recuperou a camisola amarela.

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