Desmistificar os novos imputs tácticos de Klopp em Liverpool


Há uns dias atrás já tinha escrito, a propósito das minhas observações do “novo” Liverpool de Klopp no jogo de preparação frente ao Hoffenheim, as ligeiras nuances que Mohammed Salah oferece em alguns aspectos ao modelo de Jurgen Klopp.

Com a utilização de linhas altas (avançados atrás da linha da bola), quer em 4-2-3-1 ou 4-4-1-1 (os sistemas tácticos mais utilizados no Mainz e no Dortmund) quer em 4x3x3 ou 4x3x2x1 (os sistemas tácticos mais utilizados em Liverpool) o treinador alemão pretende que a sua equipa seja uma equipa muito pressionante (com intensidade; sem momentos para respirar ou para deixar a outra equipa respirar) e muito bem organizada defensivamente.

Dentro dos sistemas tácticos operacionalizados pelo treinador alemão em Liverpool, os jogadores mais avançados no terreno devem constituir a primeira barreira de pressão (média\alta, dentro do meio-campo adversário) a sério para os adversários. A 2ª linha de pressão, composta por médios (Lucas Leiva, Emre Can) tem alguma liberdade, para poderem, por exemplo, cair em cima dos seus adversários nas faixas se os adversários quiserem iniciar a transição para o meio-campo adversário pelos corredores. Como uma boa parte das equipas “pequenas” do campeonato inglês assenta as suas matrizes ao nível de processos no contra-ataque e não gostam (algumas não se sentem mesmo confortáveis) de ter a bola na sua posse durante períodos de tempo prolongados, o alemão viu nesta chave, a chave do sucesso para tentar anular o contra-ataque adversário e dominar as partidas. A pressão média\alta quando bem executada tem a capacidade de deixar as equipas algo vulneráveis quando a bola é recuperada. A recuperação por defeito é um momento que faz subir as linhas imediatamente. Recuperando por exemplo a bola num erro de um central, numa situação em que estejam 4 jogadores muito próximos, rapidamente se pode criar uma situação de superioridade numérica que pode ser causadora de perigo junto da baliza adversária.

Os médios do Liverpool assumem duas funções especiais: tanto podem movimentar-se numa espécie de pêndulo (em momentos defensivos) entre o espaço que vai desde a entrada da área ao limiar da entrada no último terço como podem cair rapidamente na pressão às alas nas situações em que os laterais não sejam rápidos a descer. Como os laterais do Liverpool passam uma parte significativa dos jogos no último terço adversário, os médios terão que fornecer essa cobertura defensiva nos momentos em que o momento preciso da perda de bola e do primeiro passe (para os corredores) os apanhe em recuperação defensiva.

Assim que a equipa perde a bola, todos os jogadores tem a obrigação de se reposicionar rapidamente para atacar o adversário de forma a recuperar a posse de bola. Enquanto a primeira linha ataca imediatamente o portador, a 2ª tenta, portanto, cortar profundidade (se o adversário jogar em profundidade) ou lateralidade (se o adversário tentar sair pelas faixas). Este sistema de pressão tem na esmagadora maioria das vezes operacionalização no meio-campo contrário.

Nesta pré-temporada, o alemão tem vindo a surpreender toda a gente com a adopção de um bloco ligeiramente mais recuado, dentro do seu meio-campo, sem, todavia, se perderem as ideias mestras ao nível de posicionamento e pressão.  Tal mudança de paradigma deveu-se essencialmente às necessidades sentidas nos jogos contra as equipas (grandes) que gostam de ter a posse de bola (em ataque posicional organizado) durante longos períodos de tempo dentro do seu meio-campo. A nova estratégia de jogo reforçou a necessidade de contratar um jogador específico para a frente de ataque. Klopp precisava portanto de um jogador capaz de trazer capacidade de pressão imediata, cinismo, profundidade, e pragmatismo às acções de contra-ataque. Esse jogador é o egípcio Mohammed Salah.

Frente ao Bayern para a Audi Cup, ao jogador egípcio, um homem que tanto gosta de ser lançado em profundidade nos espaços vazios nas costas da defesa como gosta de receber a bola (também em profundidade, mas no pé) numa ala para poder desequilibrar através do seu rapidíssimo e pragmático drible, Klopp juntou, na frente de ataque, o facilitador Sadio Mane, jogador que provoca inimagináveis estragos nas defesas adversárias. O jogador senegalês tem características peculiares que o tornam um jogador único. O médio ofensivo tanto pode fazer com naturalidade as funções que se são requeridas a um extremo puro como pode rapidamente funcionar um avançado interior porque consegue realizar inflexões (cortes para dentro com bola) em drible com um elevadíssimo grau de eficácia, um pouco à semelhança das acções (agora utilizado em posições mais interiores) ofereceu durante vários meses à equipa.

A ideia de Klopp é tornar a equipa mais cínica e mais pragmática frente às equipas que gostam de ter bola e assumir o jogo. E isso diz muito sobre as ambições do alemão para a presente temporada: Klopp quer finalmente atacar o título da Premier League. Assim que a equipa recupera a bola ainda dentro do meio-campo, assumem-se duas possibilidades: a saída rápida dos homens da frente para oferecer imediatamente linhas de passe em profundidade ou a aceleração da transição em velocidade para que a equipa contrária não possa recuperar rapidamente posição na transição defensiva. Em qualquer uma das assumpções, Klopp quer que a equipa saia com poucas unidades para nunca comprometer a estabilidade defensiva.

A azul: o ponto exacto do terreno onde Salah recupera a bola. A aceleração na transição em velocidade e a fixação de jogadores.

A vermelho: Mané corre para oferecer imediatamente profundidade e progressão à acção do egípcio. Este só terá portanto que soltar a bola no timing correcto, ou seja, quando o senegalês tiver a posição ganha nas costas da defesa contrária. 

Não pude também deixar de reparar ao longo do jogo os motivos que levaram Klopp a avançar para a contratação do lateral esquerdo Andrew Robertson. Isto está efectivamente tudo ligado e tudo pensado pelo alemão! Se compararmos o que fez Alberto Moreno num lance de contra-ataque (assim que a equipa recuperou a bola, o lateral disparou imediatamente pelo corredor para acelerar a acção de contra-ataque), o escocês também pode vir a realizar as mesmas acções com eficácia porque é um jogador capaz de subir rapidamente no terreno para apoiar as transições.

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