Os segredos de Daniel Alves


O momento do passado fim-de-semana. Não poderia deixar este momento de antologia (mais um do jogador em causa) em branco. Se deixasse passar este momento creio que seria totalmente desonesto para com o melhor lateral direito da história do futebol. Para com um dos verdadeiros átomos que substância a matéria que é a magia desta modalidade.

Aos 34 anos, este “cara” raçudo, guerreiro, trabalhador, diligente, eficiente, resistente e resiliente, ser humano de uma grandiosidade ímpar que nunca vira a cara à luta por mais difícil que seja o objectivo ou a meta a atingir, e que sabe e sempre soube, ao longo da sua vida, ultrapassar todas as dificuldades que teve de enfrentar ou que está actualmente a enfrentar porque foi, acima de tudo, um ser humano e um atleta formado na maior escola da vida (a escola do trabalho), continua a ousar querer ser melhor jogador do que o enorme jogador que (já) era há 10 anos atrás. 

Daniel Alves é nome de guerreiro. Quando tinha 10 anos, o jovem dormia numa cama composta literalmente por cimento na modesta casa dos seus pais em Juazeiro. Nesse tempo, a família não tinha sequer possibilidades de lhe comprar uma cama composta por duas tábuas de madeira. Às 5 da manhã, ainda o sol não tinha nascido, já o pequeno Daniel pegava na enxada para ajudar a família a ganhar alguns tostões para a sua mais básica e indispensável sobrevivência. Aquela hora, o pai, homem de muitos ofícios, homem que utilizou todas as armas que possuía para alimentar a sua família, já se encontrava a sulfatar as plantas de café. Quando o sol raiava em Juazeiro, não era altura para voltar a casa e tomar um nutritivo pequeno almoço. Sem delongas, estava na hora de fazer 20 km a pé até à escola! Quantos dos nossos jovens atletas levantam-se às 5 da manhã para realizar uma tarefa agrícola? No actual estado de desenvolvimento das sociedades ocidentais, quantos são os adolescentes que vão a pé para a escola? Quantos é que tem de caminhar mais de 2000 metros por dia? Poucos.

Aos 13 anos, os pais do jovem Daniel decidiram apostar todas as suas economias no talento do filho. O pai, caracterizado pelo próprio, como um bom jogador de futebol na sua adolescência, tentou dar ao filho a oportunidade que não lhe foi dada no seu tempo de meninice: a possibilidade de ser observado pelos olheiros dos melhores clubes do Brasil.

Seguiu-se a passagem por uma academia de talentos na qual 100 crianças passavam fome porque a academia não tinha possibilidade de prover comida suficiente para todos. No meio de 100, numa potência futebolística como é o futebol brasileiro, talentos precoces não faltam. Há a cada esquina. Existe 1 Ronaldinho Gaúcho em cada cauchu que é pontapeado pelas favelas. Pelas favelas em que o cheiro abundante a merda e a morte, ceifa actualmente 13  crianças a cada 1000 até ao primeiro ano e 10,5  a cada 1000 até ao 5º ano de vida. A cada 1 milhão, 1 chega à selecção nacional. A cada 100 mil, 1 chega às selecções jovens. A cada 10 mil, 1 chega à Série B do Campeonato Brasileiro. A cada 1000, 1 chega a profissional numa das 4 divisões profissionais do futebol brasileiro. A cada 100, há um mundo de ilusão e de sonho. À semelhança de tantas outras (milhões) de crianças naquele país, Daniel queria ser Pelé. Ser Pelé exigia imenso trabalho. O índice de trabalho de Daniel revelou-se desde tenra idade. Com um exemplo tão grandioso como o do pai (um homem que trabalhava 20 horas diárias entre a plantação de café e o bar que geria à noite) Daniel não poderia degenerar. Durante toda a sua vida, o pai foi sempre o principal exemplo a seguir e a sua maior fonte de inspiração nas horas em que a apatia ou a depressão se apoderavam do seu espírito.

Nada lhe foi oferecido de mão beijada. Nesta vida não existem almoços grátis.

Um dia apareceu na Bahia um tal de Monchi Rodriguez, o homem que construiu uma carreira sólida a contratar autênticos tesouros a preços de pirata. Monchi tinha contactado os dirigentes do Bahia para aferir a possibilidade de levar o jovem lateral direito para essa Sevilla, essa terra de danças electrizantes sobre a qual o jovem de 19 anos nada conhecia. “Sevilla… sim Sevilla. Espera aí, mas eu não conheço nada sobre Sevilla” – disse então o jovem lateral aos dirigentes do Bahia.

Este caso poderia ter sido mais um caso de tráfico humano. Há 20 anos atrás, um bom milhar de atletas de países de 3º mundo eram aliciados (por empresários de futebol) com promessas vãs de virem para a europa jogar para o Sporting. O conto maravilhoso de Hans Christian Andersen transformava-se rapidamente no verdadeiro conto do vigário. Uns terminaram no Sporting da Covilhã, outros rapidamente tiveram que ir para as obras para poderem sobreviver neste mundo cão.

Chegado a Sevilla, as oportunidades para jogar foram poucas. Daniel não possui o físico, não fala a língua, não se sente confiante – quer voltar para o Brasil. Monchi acredita no jogador. Joaquin Caparrós afirma que o jogador é banal e que não terá muito sucesso no futebol porque não é rígido tacticamente. Caparrós queria laterais ultra defensivos – estava ali diante de um dos laterais mais ofensivos da história do futebol. O brasileiro resolve a contenda pelo seu futuro com uma fantástica série de 10 jogos nos quais quebrou todas as instruções tácticas que lhe foram dadas pelo treinador. Num ápice, o lateral tornou-se peça fulcral nos processos de jogo ofensivos da equipa. Monchi ganhou a Caparrós e avançou para a sua contratação por uma modesta, mas ao mesmo tempo impressionante soma de 1,05 milhões se contarmos com os 500 mil pagos pelo Sevilla pelo empréstimo de 1 temporada. Quando a equipa mais precisava do seu motor, o lateral carrega a bola para a frente. Quando a equipa mais precisava de criatividade, o lateral fintava, cruzava e rematava na perfeição. Quando a equipa precisava de alma, o lateral ia com tudo. Ao fim de 2 taças uefas na raçuda equipa de Juande Ramos, o lateral era vendido por uma soma 35 vezes superior aquela que os andaluzes tinham pago ao Bahia.

O resto da história já a conhecem. No sábado, Daniel Alves chegou ao topo do futebol mundial na sua estreia oficial (carimbada com um golaço do outro mundo) pelo Paris Saint Germain. Pelo meio, demonstrou ser o jogador que o Barcelona jamais deveria ter deixado sair. Pela sua influência na equipa. Pela perda irreparável que Andrés Iniesta teve no seu jogo. Quando abre a bola para o flanco direito, em muitas situações, o médio ainda acredita que o brasileiro lá está para a receber. Já não está. Sergi Roberto não é nem de longe nem de perto o mesmo jogador. A saída do lateral para a Juventus teve o condão de fazer descer o nível exibicional de um dos melhores médios ofensivos da história do futebol. Essa é que essa!

Essa é que essa! Parece surreal tudo aquilo que já conquistou no futebol. Não teve que marcar tantos golos como o Messi ou como o Cristiano Ronaldo. Não teve que driblar tantas vezes para dentro como Robben nem de fazer tantas paradas quantas fez o Buffon. Teve que trabalhar. Sim, teve que trabalhar. Ele veio da puta que pariu para trabalhar. Ele veio da puta que pariu para ganhar tudo. Ele é Daniel Alves: o melhor lateral direito da história do futebol.

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