O último sprint de Usain Bolt


Só os grandes campeões conseguem reconhecer ao longe a hora exacta para se retirarem. Usain Bolt já a farejava há muito tempo: o futuro está aí à porta e já começou a dar cartas. Não tivesse Justin Gatlin feito 30 metros de sonho e a medalha de ouro teria ido para o rookie Christian Coleman na sua primeira presença nos campeonatos do mundo de atletismo. Não deixa de ser curiosa esta passagem de testemunho: Coleman admitiu recentemente que começou a praticar atletismo muito tarde, aos 17 anos, por influência das conquistas e dos recordes do jamaicano. Até então, o jovem sprinter praticava Futebol Americano. No ano passado, o velocista chegou a ser inserido no NFL Draft Scouting Combine, um certame de pré-selecção de atletas (passíveis de ser inseridos nas listas de jogadores a draftear) que é realizado todos os anos em Fevereiro pela Liga profissional de Futebol Americano. Os impressionantes 4:22s realizados num segmento de 40 metros permitiriam a Coleman superar o impressionante registo de 9 segundos e 58 centésimos aos 100 metros se o atleta conseguisse manter a mesma velocidade ao longo dos restantes 60. 

O jamaicano já reconheceu o talento da nova geração de velocistas (De Grasse, Coleman, Simbine) e já interiorizou a ideia que no futuro será muito difícil batê-los. A idade pesa. A desenvoltura física de Bolt já ultrapassou o seu prazo de validade. A fadiga é superior entre provas. A preparação para as grandes provas já não pode ser cumprida nos mesmos trilhos de exigência em que era realizada quando o atleta tinha 25 anos. O atleta pode continuar, no seu íntimo, a ambicionar mais mas as pernas que tinha no passado já não estão lá, os adversários preparam-se cada vez melhor para os grandes eventos e a própria vontade do atleta modificou-se ao longo dos anos. Os estímulos oferecidos pela modalidade podem não satisfazer na plenitude as ambições e expectativas que o atleta vai construindo mentalmente.

gatlin

Nota final para a excepcional, digna e humana atitude de Justin Gatlin no final da prova. 12 anos decorridos sobre a sua última vitória na prova de 100 metros do campeonato do mundo, o velocista norte-americano conseguiu finalmente sair da sombra do jamaicano. Em 2003, ano em que Gatlin pode conquistar a sua primeira grande conquista da carreira (a medalha de Ouro nos Campeonatos do Mundo de Pista Coberta em Birmingham) toda a imprensa especializada afirmou em uníssono a possibilidade de se ter encontrado ali o atleta que poderia dominar toda uma década. Entretanto apareceu Bolt. De 2006 a 2012, ano em que Gatlin reapareceu ao mais alto nível (bronze nos Jogos Olímpicos de Londres e Ouro nos Campeonatos do Mundo de Pista Coberta em Instambul) o atleta norte-americano percorreu um caminho sombrio marcado pelos vários controlos positivos a substâncias dopantes. Em 2008, o atleta chegou inclusive a ser condenado a 4 anos de suspensão, depois de anteriormente já ter sido obrigado a colaborar com a justiça norte-americana e com a agência nacional anti dopagem Norte-Americana (USADA).

O fracasso da carreira de Gatlin está portanto intimamente ligado com os sucessos da carreira de Usain Bolt. Ontem, no final da prova, o norte-americano viria a ser apupado pelo público presente no Estádio Olímpico de Londres. A reacção do atleta ao feedback do público londrino foi simplesmente magnífica: com um enorme gesto de humildade para com o seu maior rival da última década, o veterano de 35 anos prostrou-se no chão e pode agradecer tudo o que Bolt ofereceu a esta modalidade.

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