Real Madrid 2-1 Manchester United – Isco e mais 10


madrid 1

Ainda não foi desta que José Mourinho pode levantar uma das duas taças que lhe faltam no seu extenso palmarés. Na primeira “final europeia” disputada em Skopje (Macedónia), a primeira presença do português (nas outras 2 conquistas europeias, o português não permaneceu nos clubes em questão para poder participar no acto solene de inauguração da época de caça no futebol europeu) no jogo de disputa do troféu ficou marcada, na minha opinião, por um conjunto de fases em que o Real de Zidane subjugou a sua formação a seu belo prazer. Os homens de Manchester ameaçaram ter capacidade para poder forçar um prolongamento que seria deveras injusto por exemplo, para o que fez Isco ao longo dos 74 minutos em que esteve em campo e para o futebol miserável que os Red Devils praticaram até aos 65 minutos. O médio internacional espanhol foi, sem sombra para dúvidas, o homem do jogo de um partida bastante intensa que poderia ter sido disputada para as meias de uma Champions.

Não podendo afirmar de todo a ideia de que os 15 minutos iniciais foram dominados pela formação orientada pelo técnico português, porque na verdade não foram (a formação britânica não teve predomínio sobre a posse de bola, não teve domínio territorial sobre o adversário nem conseguiu criar nenhum lance de perigo junto à baliza do costa-riquenho Navas), a entrada do United na partida até foi, muito sinceramente, muito aceitável. Com um plano de jogo bem apreendido pelos jogadores no qual Mourinho quis complicar ao máximo a construção de jogo dos merengues (primeiro com um disposição de pressão dentro do meio-campo adversário, posteriormente com um dispositivo de pressão à entrada do seu meio-campo) a meio-campo e a circulação da bola às pontas (bem como às constantes incursões de Benzema aos corredores) com recurso ao seu antiquado sistema alargado de marcação homem-a-homem, o treinador português visava sobretudo aproveitar o erro adversário na circulação a meio-campo para poder encetar uma série de saídas em contra-ataque, nas quais Paul Pogba, os “falsos extremos” (sempre que era preciso tanto Lingaard como Mkhytarian tentaram explorar o interior, aproximando-se de Romelu Lukaku) e o seu ponta-de-lança assumiriam a responsabilidade de conduzir a bola em velocidade até à área adversária Nos primeiros minutos, com duas vistosas tabelas, tanto Lingaard como o internacional armeno tiveram a possibilidade de entrar com a bola controlada (e sem oposição) na área. Se na primeira oportunidade, Lingaard atirou ao lado da baliza de Keylor Navas, na segunda, Mkhytarian pareceu-me ter sido travado por Sérgio Ramos depois de lhe ter feito uma enorme maldade, na sequência de uma tabela com Lukaku.

O constante roaming posicional praticado pelos merengues foi a chave do sucesso.

madrid 2

Entre os 15 e os 25 minutos, o Real de Zidane pode dar um banhinho de bola ao Real, com direito a jacuzzi, massagem tailandesa, shampoo, amaciador, gel de banho, pedra pomes para os pés, sabonete dérmico e escova para coçar as costas. Foi precisamente na antecâmara do jacuzzi que apareceu Isco. Isco está um craque dos diabos. Assim que o médio se chegou aos centrais para se assenhorar do leme da construção, escavacar a pressão exercida pelos médios de Manchester através do seu drible curtinho, carregar a bola para a frente a abrir uma data de furos no meio-campo da formação britânica (assim que ultrapassado o primeiro jogador, o médio criava imediatamente superioridade numérica 3×2 a meio-campo), os Red Devils não tiveram outra hipótese que não a de recuar linhas. A magistratura de influência do médio ofensivo não esgotou porém na forma em como pode construir com excelência. Com liberdade total dada ao médio por Zidane para movimentar-se em qualquer zona do meio-campo do adversário, Isco tanto apareceu a orientar a primeira fase de construção como de um momento para o outro, já aparecia a criar jogo nas alas. Essa liberdade posicional começou neste período a estender-se a toda a equipa. Assim que Isco entrava numa ala, Modric aparecia no corredor central, com Kroos bem perto. A Casemiro era dada ordem para avançar para terrenos bem próximos à área de forma a poder ceder o seu apoio frontal quando necessário e a aparecer em zona de finalização ou quando Benzema se deslocava a uma ala para criar os famosos triângulos que garantem superioridade numérica nos corredores. Com os laterais sempre bem projectados, a equipa madrilena começou por explorar as alas. Em dois ou três lançamentos para as costas de Valência, Gareth Bale obrigou Lindelof (exibição algo negativa; não ganhou um único lance aéreo; perdeu divididas atrás de divididas) a ter que fazer a dobra ao seu lateral. Com dois ou três cruzamentos para a área, cruzamentos nos quais Matic era obrigado a colar-se aos centrais para criar superioridade numérica na área, os madrilenos não conseguiram criar qualquer jogada de perigo (a única que viriam a criar sairia de um pontapé de canto quando Casimiro mandou a bola à trave da baliza de David De Gea) , mas retiraram o sérvio das segundas bolas, facto que lhes permitia continuar a mandar no meio-campo adversário.

A constante troca de posicionamento entre jogadores baralhou por completo o sistema de marcação homem-a-homem da formação inglesa. De um momento para o outro, tanto Pogba como Herrera ficaram completamente presos na marcação, sem saber quem marcar, onde e quem pressionar. Para além dos estragos cometidos na organização defensiva do United, sempre que recuperavam a posse do esférico, a equipa perdeu nestes dois jogadores as suas referências essenciais para sair na transição para o contra-ataque. Sem acertar o primeiro passe após a recuperação, a bola cairia novamente nos pés “da reorganização ofensiva” madrilena.

O sufoco iria redundar no expectável (face ao domínio exercido pelos merengues naquele parcial de 10 minutos) primeiro golo da partida, lance onde Carvajal, lateral que tem um pulmão incrível, realçou o que acabei de explicar quando foi ao meio buscar a segunda bola promovida pelo corte de Smalling e cruzou para a (cada vez mais habitual) entrada de Casimiro (em posição irregular) na área nas costas da linha defensiva (a 5) formada pela formação de José Mourinho. A finalização do brasileiro já faz parte da sua lista de novos truques. Sem abdicar de entrar junto da defesa quando sentiu necessário (ou seja, quando o trio de médios que o secundou entrava no corredor central) o brasileiro nunca comprometeu seriamente o equilíbrio defensivo que Zidane lhe pede. Sempre que os ingleses saiam para contra-ataque, o médio era rápido a baixar até à zona dos centrais para tentar ajudar a travar as investidas.

Quiséssemos todos, para melhoria significativa da nossa qualidade de vida, ter os pés de Isco, a sua velocidade, a sua capacidade de resolução em espaços curtos e a sua visão de jogo.

A pausa para descanso concedida pelo árbitro italiano Gianluca Rocchi à meia-hora de jogo (o jogo disputou-se a uma temperatura elevada de 36º) acabou por travar o ímpeto que a formação de Zidane vinha a colocar nos últimos 15 minutos e permitiu a Mourinho reformatar a atitude e a estratégia da sua equipa. Assim que Rocchi apitou para os 15 minutos finais da primeira parte, os ingleses voltaram à forma inicial com um sistema de pressão (algo efectivo) dentro do meio-campo da turma espanhola. Lingaard aproximou-se de Lukaku através de um posicionamento entre as linhas adversárias no corredor central e Paul Pogba encostou ao flanco esquerdo para tentar condicionar as subidas de Carvajal e desequilibrar através do drible.

Foi neste período que Lukaku mostrou que não é de todo abastado de inteligência. Numa situação de pressão alta na qual um companheiro (estou em dúvida entre Mkhytarian ou Herrera) conseguiu roubar a bola ao adversário no preciso momento em que o avançado belga se encontrava em posição offside, ao avançar para a bola, o avançado estragou por completo uma provável situação de 2×1 frente a Keylor Navas que poderia ter remendado os estragos provocados por Isco.

Isco volta a resolver

No regresso das cabines, José Mourinho lançou Rashford na partida na ânsia de ver o seu flanco esquerdo mais dinamizado. Se na direita, nos últimos minutos do primeiro tempo, Valência já estava a dar luzes de presença no ataque (na defesa continua miserável como sempre) com a colocação de dois cruzamentos direitinhos para o capacete de Sérgio Ramos, na esquerda, Jesse Lingard, desapareceu por completo do jogo. Das alas nem bom vento nem bom casamento para este United.

A verdade é que o avançado conseguiu desenrolar todo o seu virtuosismo quando foi chamado a colocar em campo o seu jogo peculiar de dribles em velocidade. Para realizar cruzamentos para a área, não contem com ele. Esta é uma das arestas que Mourinho terá que limar com o portentoso talento de 19 anos para que este possa ser ainda mais eficaz quando é obrigado a jogar num corredor. Contudo, não nos podemos esquecer que Rashford serve na maior parte dos jogos um propósito muito específico do modelo de jogo do treinador português: o ataque à profundidade, frente a 1, 2 ou 3 defesas sem qualquer apoio por perto

O segundo tempo começa com uma perdida incrível de Lukaku à boca da baliza e com uma obra prima de Isco.

Estava na cara que o médio iria furar pelo meio dos 3 defensores que fixou com a sua técnica acção. Este lance quase que dava para se escrever o guião de uma nova temporada de Prison Break. Se não o tivesse feito, Gareth Bale também poderia ter rompido pela cratera de espaço oferecida pela defesa do United. Mais uma vez, o médio fez estragos no espaço de uma cabine telefónica.

O bailarico da aldeia continuou, não obstante os esforços que eram promovidos por Rashford na ala esquerda para desequilibrar nos seus slaloms e os efeitos da alteração promovida por Mourinho ao fazer entrar Marouane Fellaini…

Ao longo desta pré-temporada tenho vindo a aperceber-me que a estética do futebol praticado pelos merengues melhora significativamente com a ausência de Ronaldo no terreno de jogo. No entanto, se a estética aumenta quando o português não está em campo, a objectividade diminui. 

Profícuo movimento de antecipação ao defensor de Benzema para tabelar com Casemiro. Eis o problema da marcação homem-a-homem. Assim que a tabela saiu o defensor não foi capaz de acompanhar o passador, Casimiro entrou dentro do bloco adversário, obrigou Darmian a ter que sair na pressão e com esse movimento obteve a linha de passe que desejava para isolar Bale. O galês teve todo o tempo do mundo para preparar o remate com o pé direito. O resto foi um autêntico ai jesus. Repare-se na voracidade com Dani Carvajal entra no espaço para tirar o cruzamento para a entrada em zona de finalização de Benzema.

Entretanto Mourinho já tinha reformulado todo o sistema quando fez entrar Marouane Fellaini. Funcionando como referência ofensiva, pretendia o português que a equipa fosse capaz de praticar um futebol mais directo, dada a sua incapacidade de sair rapidamente na transição pelo chão ou de prolongar, pacientemente, a construção de ataques no meio-campo adversário. Enfiando Pogba mais encostado ao corredor direito, o musculado meio-campo do United deu os seus frutos quando Lukaku não falhou novamente o mais difícil: a recarga ao remate de meia distância de Matic.

Fellaini começou a ganhar bolas de cabeça a Sérgio Ramos e Varane. Numa delas, foi o belga quem resgatou uma bola que permitiu a construção de um lance no qual Rashford apareceu em velocidade na cara de Navas. O avançado desperdiçou a ocasião com um remate em arco ao lado.

Zidane respondeu com a entrada de Asenjo e Lucas Vazquez para controlar um meio-campo que estava, nitidamente a dar as últimas. Aos 82″ seria a vez do veraneante Ronaldo saltar de Ibiza e Fuengirola para desgastar a defensiva inglesa com as suas constantes movimentações sem bola. O respeitinho é bonitinho. Com a entrada do português quis Zidane aplicar aos minutos finais a verdadeira lei da ronha, ou seja, levar a bola para o meio-campo adversário, fazer o adversário cheirar, conquistar uma ou outra faltita que permitisse o passar do tempo e a oportunidade de almejar gratuitamente a baliza adversária, ganhar uns cantos (onde Sérgio Ramos apareceu sempre com o à-vontade do costume) e refrear o possível ímpeto que o adversário ainda pudesse ter para forçar o prolongamento. Inteligente, Ronaldo cumpriu os desideratos do seu treinador.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s