Pierre Ambroise Bosse, o quebra enguiços


 

Não é só o nosso atletismo que está a passar por uma fase de decadência. É todo o atletismo europeu. Os africanos, atletas-heróis (de toda uma nação) em quem os seus países apostam sem olhar a meios (porque deles depende em muitos casos, a projecção internacional do orgulho de um país) e os africanos naturalizados à pressão pelas nações do Médio Oriente, países que, ao longo da última década, tem oferecido a atletas africanos excepcionais condições de treino, a possibilidade de contornar os numerus clausus impostos pela IAAF para cada país e\ou autênticos passaportes para a riqueza em troca da atribuição da cidadania e da sua participação nas grandes provas internacionais, não tem dado qualquer hipótese aos atletas europeus. Desde há 20 anos que assistimos, quer no meio-fundo, quer no fundo, a uma clivagem cada vez mais difícil de aproximar entre os atletas africanos e os atletas dos outros continentes.

Bastará olhar com olhos de ver para a lista de vencedores e medalhados das provas de meio-fundo e fundo das 2 maiores competições da modalidade (Jogos Olímpicos e Campeonatos do Mundo) para o perceber. Desde 2001, nas 99 provas até ao dia de hoje realizadas a contar para Campeonatos do Mundo (femininos e masculinos) só existiram 29 vitórias não-africanas (para esta estatística decidi considerar como atletas não-africanos, todos os atletas formados localmente, ou seja, que nunca alteraram a sua nacionalidade ao longo da carreira) nas distâncias iguais ou superiores a 800 metros. Na mesma bitola, desde o ano 2000, o cenário é mais ou menos idêntico. Nas 52 provas realizadas, apenas 16 foram obtidas por atletas não-africanos contra um total de 36 vitórias de atletas africanos.

O feito do francês Pierre Ambrose Bosse ganha maior dimensão se considerarmos que num universo de 150 provas e de 450 medalhas atribuídas, apenas 28 foram conquistadas por atletas europeus (das 45 não europeias) num total de 98 medalhas atribuídas. Ou seja, os europeus conquistaram um número inferior a 1\4 das medalhas atribuídas nas grandes provas internacionais desde o ano 2000. No panorama dos 800 metros, Bosse quebrou um enguiço que durava há 16 anos (7 edições dos Campeonatos do Mundo de Atletismo). O último europeu a vencer a prova tinha sido o suíço André Bucher no ano de 2001.

Apesar de ter sido campeão europeu de juniores e esperanças na distância, Bosse nunca conseguiu ser campeão mundial nesses escalões etários. Enquanto atleta sénior, o francês, nunca conquistou qualquer título Europeu. Dois quintos lugares nos Mundiais de 2015 e nos Europeus de 2016 tinham sido, a par com um quarto lugar nos Jogos Olímpicos do Rio, os melhores resultados em grandes provas do atleta gaulês de 25 anos. Na temporada de 2017 da Diamond League, o atleta não conseguiu figurar no pódio do único evento em que participou.

O gaulês não era o principal candidato à medalha de ouro. Nas melhores das hipóteses, todos os críticos consideravam que poderia lutar pela medalha de bronze se conseguisse ter uma ponta final superior à do polaco Adam Kszczot ou à do canadiano Brian McBride, atleta que entrou na frente na segunda e última volta à pista. Em abono da verdade, o facto da corrida não ter sido esticada pelos atletas africanos na primeira volta ajudou-o a poupar energias para aqueles vibrantes 200 metros finais onde pode dar uma autêntica ratada na armada africana presente, a começar por Nijel Amos, o botsuanês que era considerado por toda a imprensa especializada como o principal candidato à medalha de ouro.

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