A grande área da irracionalidade


1, 2, 3, 9! 9 foram os lances de área que o Sporting construiu ao longo dos 90 minutos.

Em todos, faltou isto e aquilo. Não tirando qualquer mérito aos centrais adversários (porque os centrais do Setúbal fizeram a melhor exibição possível em Alvalade; não estiveram perfeitos mas fizeram uma boa exibição ao nível da marcação; cortaram, aliviaram, estorvaram acções) faltou imensa racionalidade aos avançados (e extremos leoninos) na hora de finalizar. Sabemos que naquele tipo de lances, o curtíssimo espaço de tempo que é dado aos jogadores (pelos adversários; uma espécie de “ou matas, ou a acção morre”) para tomar decisões, influencia a decisão que o jogador toma. Na área, qualquer jogador também precisa de um pico de técnica (no acto de recepção), de agilidade (na capacidade de transformar rapidamente a recepção no remate)e de destreza atlética naquela bola que se vai buscar literalmente ao arco da velha. Contudo, o factor mais importante para uma finalização continua a ser o cognitivo. Não é portanto à toa que a área é o verdadeiro complexo da irracionalidade. Ao factor tempo (todas as acções estão à partida limitadas na vertente temporal) junta-se a explosiva mas natural ânsia que é sentida no momento em que o jogo tem a bola disponível para tocar fogo. Enquanto alguns jogadores são capazes de tomar a melhor decisão possível no curto espaço de tempo que lhe é dado para pensar e executar em qualquer parte do terreno porque são jogadores inteligentes em todas as decisões que tomam, outros ficam a desejar. Nesse aspecto, Doumbia é um jogador que fica a meu ver algo a desejar, apesar do seu inegável poder de fogo. E essa é por exemplo a diferença em relação a Bas Dost. O costa-marfinense vai com tudo mesmo quando não tem a melhor oportunidade nos pés. O holandês assiste quando sente que não pode finalizar.

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dois a uma bola. Se não tivessem concorrido dois a esta bola, Bas Dost poderia ter finalizado com algum à vontade. Manifesta falta de inteligência numa acção onde o Sporting tinha 5 jogadores inseridos em zona de finalização.

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A diagonal de Gelson para ganhar a frente do lance ao adversário é de mestre. O cruzamento sai bem por coloca a bola à mercê do pé do extremo. A finalização é desastrosa porque me parece que Gelson tem todo o espaço e todo o tempo para tentar parar a bola e finalizar. Falha na decisão do lance. Pura precipitação. A ânsia de marcar sobrepôs-se à racionalidade que era pretendida.

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O costa-marfinense tinha todo o tempo para parar a bola e atirar. Pura precipitação provocada pela ansiedade. Ansiedade provocada pelo facto de ter falhado 3 finalizadores nos 3 lances anteriores que o jogador dispôs na área.

O futebol praticado pelos leões foi, na minha opinião, algo incompleto para furar o posicionamento defensivo que o Setúbal colocou em campo. O Sporting apareceu em Alvalade bem mecanizado ao nível de circulação de bola, fez chegar a bola aos flancos com rapidez e pragmatismo, os laterais apareceram muito bem em determinados momentos a fazer sobreposições (Piccini até fez algumas entradas sobre o defensor com o intuito de o baralhar de forma a Gelson ganhar a linha), colocaram-se bastantes cruzamentos para a área à procura da desejada finalização (acções que não garantem nada, é certo!) mas faltou muito jogo interior. Não só para chamar a equipa de José Couceiro ao meio para abrir para os inevitáveis espaços livres que poderiam surgir nos corredores (onde a equipa setubalense raramente concedeu superioridade numérica; o que obrigou Gelson a ter que puxar da sua velocidade) como para conseguir romper pelo meio. Assim que a formação setubalense se apercebeu que os processos versados pela formação leonina estavam a ser previsíveis, deu “literalmente a conquista dos espaços interiores como garantida” e preocupou-se apenas em ser eficaz na colocação de números nos corredores, e no jogo de área.

Adrien fez um excelente jogo ao nível do capítulo da pressão adversária (foi sempre ávido a procurar a investida adversária, a estancar a saída e a procurar recuperar a bola) mas foi algo banal nos momentos de construção.

Podence continua muito preocupado com a realização de triângulações nas alas, esquecendo por vezes o jogo interior no corredor central. Se aparecesse mais vezes enfiado entre as linhas adversárias, o avançado poderia dar outro contributo à equipa porque a sua velocidade, a sua verticalidade, o seu poder de finta e o seu poder de decisão poderiam ter feito estragos na defesa setubalense.

Por sua vez, Marcos Acuña é um jogador que sabe ler todos os momentos de jogo. Apesar de não ter feito uma boa exibição, sempre que o argentino não tem jogo na esquerda, preocupa-se em vir ao meio posicionar-se entre as linhas do adversário.

Válido, muito válido, foi, por exemplo, a verticalidade que Bruno Fernandes ofereceu à equipa em dois lances quando tentou entrar nas costas do adversário. O adversário nem sempre deu hipóteses aos jogadores leoninos de o fazer. A linha defensiva setubalense passou grande parte do jogo entre o interior da área e a saída da área. Por outro lado, com Battaglia o Sporting perde a profundidade que William dá ao jogo quando coloca aqueles passes de morte sobre a defesa para a entrada de um jogador nas costas. O argentino fez uma boa exibição defensiva, tem uma entrega fenomenal ao jogo, arriscou num ou noutro lance (tem aquela monumental jogada individual na qual conseguiu aparecer muito bem no espaço vazio que foi concedido na área entre o lateral direito e o central; conseguindo até criar a sua própria oportunidade de finalização) mas falta-lhe claramente muita capacidade de passe para ser um “jacaré a chegar a William”.

Para finalizar, destaco a fantástica exibição de Mathieu. O francês não só resolveu com aparente facilidade o pouco expediente que a equipa sadina lhe ofereceu (embora eu tenha temido num ou noutro lance o advento daquele golo fortuito que estas equipas costumam obter de vez em quando em Alvalade) e ainda puxou a equipa para a frente. O francês é de facto um craque a todos os níveis. É duro para caraças e efectivo na abordagem ao adversário e acrescenta, ofensivamente, qualidade na saída de jogo. Em diversos momentos do jogo foi ele quem catapultou a equipa para a frente e quem deu ordem a Battaglia para se projectar no terreno.

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