As imagens do dia


“Honestamente, a sensação é indescritível. Sofri muito para aqui chegar e festejar tão efusivamente esta que foi uma vitória tão importante para mim. Senti no povo e nas pessoas que andam aqui na Volta a Portugal que esta vitória não foi só minha, foi de tanta gente porque, independentemente de tudo, são 20 anos de profissionalismo, são 20 anos de dedicação, de luta, de garra, de trabalhar afincadamente para chegar à Volta a Portugal e fazer a melhor prestação possível.” – Rui Sousa, 10-08-2017

Na nossa Strade Bianche, o icónico Salto da Pedra Sentada, depois de mais de uma centena de quilómetros em fuga, o veterano ciclista de Viana do Castelo ainda teve gasolina no depósito para atacar rumo à vitória de etapa em Fafe.

Dentro do pelotão nacional, não existe um único ciclista que não adore Rui Sousa. Prova disso foi mesmo foi a forma entusiasta em como o atleta foi cumprimentado à chegada pelos seus colegas de profissão. É tão bonito ver a vitória na etapa de um ciclista transformada rapidamente na vitória e na felicidade de todos. Até dos seus rivais, atletas que têm no ciclista de Viana do Castelo um amigo para a vida.

Não há como não gostar do ciclista de Viana do Castelo. A sua humildade, acima de qualquer outra qualidade, o seu espírito generoso, a sua garra, a sua veia lutadora, o seu talento, a sua resiliência, a sua solidariedade e a forma corajosa em como, aos 41 anos, não só continua a realizar um verdadeiro finca pé ao natural envelhecimento do corpo como ainda continua a ter vontade e espírito de sofrimento para planear a sua preparação para a Volta com o objectivo fixado na vitória na geral, vitória que lhe escapou pelos dedos como se de areia se tratasse em 5 ocasiões (essencialmente devido ao facto de não ser um bom contra-relogista; porque na montanha, bem, na montanha, o corredor de Viana do Castelo sempre foi o verdadeiro diabo a sete) são qualidades que me levam a respeitá-lo e a venerá-lo.

Uma das grandes pechas da carreira do ciclista natural de Barroselas, linda freguesia do concelho de Viana do Castelo na qual o ciclista é desde 2013 Presidente da Junta, foi o facto de nunca ter tido uma oportunidade para correr ao mais altíssimo nível no estrangeiro. Apesar de possuir a sua grande lacuna no capítulo do contra-relógio, o veterano ciclista sempre teve talento de sobra na alta montanha. Muitos desconhecem por exemplo o fantástico 16º lugar conquistado pelo ciclista na Vuelta de 2002, feito que ficou marcado por uma incrível subida ao Anglirú. Até onde poderia ter chegado este ciclista se tivesse sido contratado aos 22 ou 23 anos por uma das grandes equipas do pelotão internacional?

Os tempos eram outros. O nosso ciclismo não estava, há 10\15 anos atrás, tão bem cotado no cenário internacional como actualmente está. As melhores equipas do pelotão internacional olhavam com algum soslaio para os nossos ciclistas. O facto não era de todo admirável se atentarmos à situação embaraçosa que apresentávamos naquela época. Entre 1996 e 2010, apenas conseguimos conquistar a nossa volta por 2 ocasiões por intermédio de Vítor Gamito e Nuno Ribeiro. Para sair para uma formação estrangeira, os ciclistas portugueses tinham que aproveitar as parcas oportunidades que eram concedidas pelas suas formações (e até pelas entidades organizadoras das provas em questão) para correr (e dar nas vistas) no estrangeiro. Até à saída de Rui Costa do Benfica para a Movistar, marco que foi na minha opinião o verdadeiro de momento de viragem na relação entre o ciclismo português e o ciclismo internacional contaram-se pelos dedos de duas mãos os ciclistas que puderam saltar do ciclismo estrangeiro. Antes de Rui Costa, Cândido Barbosa, Orlando Rodrigues e Sérgio Paulinho (medalhado de prata nos Jogos Olímpicos) saíram de posições de topo da estrutura para carregar águas nas grandes equipas. Já José Azevedo, ciclista de enorme talento que falhava sempre como as notas de mil na Volta, pode ascender na nomenklatura das equipas por onde andou porque foi visto como um ciclista de uma mais-valia inegável (na alta montanha) para os grandes líderes dessas formações. As únicas excepções a esta regra foram no fundo os excepcionais Marco Chagas e Joaquim Agostinho. Como as coisas andam actualmente no ciclismo português (o número de equipas tem vindo a diminuir drasticamente década após década em virtude da falta de apoios e patrocínios; grande parte do pelotão nacional não é profissional e pior que isso, tem uma profissão precária; alguns são mesmo pagos a recibos verdes; a formação de atletas anda a reboque da carolice de meia dúzia de pessoas) muito dificilmente conseguiremos formar dois talentos da estirpe dos dois consagrados vencedores da Volta a Portugal.

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