Binckbank Tour – 5ª etapa – Lars Boom vence uma corrida com uma multiplicidade de equações em jogo


Nota prévia: Em primeiro lugar, cumpre-me saudar e elogiar o desenho escolhido pela organização da prova para a etapa corrida à volta da cidade de Sittard. O traçado desenhado para a etapa bem como aquele quilómetro dourado (3 sprints intermédios bonificados colocados no reduzido espaço de um quilómetro) que foi “inventado” pela organização a seguir à passagem dos ciclistas pela subida ao Schatzberg (800 metros com uma pendente média de 5%) era prometedor, à partida, de espectacularidade. Nesse quilómetro dourado, se um ciclista conseguisse passar na frente dos 3 sprints bonificados, conquistaria a preciosa vantagem de 18 segundos. A colocação dos 3 sprints intermédios à saída da ascensão para a última dificuldade do dia não foram colocados à toa pela organização. Se a corrida decorresse de acordo com os moldes previstos pela organização, os ciclistas com interesse à geral sentir-se-iam aliciados a atacar na subida final para ir buscar os segundos de bonificação.

A 5ª etapa da Binckbank Tour (antigo ENECO Tour) foi uma tirada de 1000 contornos estratégicos. Nos 163,7 km de corrida, os ciclistas teriam de enfrentar um complexo conjunto de 20 colinas até chegarem à recta da meta no Autódromo da Cidade de Sittard. À primeira vista, o traçado oferecia muitas oportunidades para puncheurs e afigurava-se como algo penoso para alguns roladores, pese embora o facto de terem chegado alguns no grupo que desde cedo tomou a dianteira da corrida.

lars boom

Na chegada ao Autódromo de Sittard, “Supersonic Boom”, icónico puncheur holandês que já soma no seu palmarés vitórias de etapa no Tour, na Vuelta, no Eneco Tour, na Volta à Bélgica, nos campeonatos do mundo de ciclocrosse e no campeonato nacional holandês de estrada, festejou a sua saborosa vitória (já não vencia qualquer etapa ou prova desde 2015) com um estranho e bizarro manguito para as objectivas presentes. O ciclista viria a retratar-se à posteriori quando foi multado em 2500 francos suíços pela UCI.

A corrida viria a ser um pesadelo para o líder da prova Stefan Kung. Não sendo (por ora; pode vir a ser no futuro) um ciclista com propensão para a corrida de “clássicas nas colinas”, o suíço viu-se a desejar para acompanhar o duro ritmo que imposto desde cedo pelas equipas dos ciclistas com maior pretensão à geral: a Sunweb de Tom Dumoulin (3º a 5 segundos do suíço da BMC) e a Lotto-Soudal de Tim Wellens. A eliminação do “camisola amarela” do grupo principal (já de si reduzido) acabou por abrir uma série de equações para a parte final da etapa.

Com uma fuga na frente, escapada onde se puderam mostrar ciclistas como o checo Petr Vakoc (produto em série da fábrica Quickstep) e Michael Hepburn (Orica), entre uma série de ciclistas locais, um grupo (principal) composto por todos os candidatos à geral e um segundo grupo logo atrás, a cerca de 25 segundos, no qual Kung era apoiado essencialmente por 2 gregários da sua formação e 3 homens da Katusha (a única equipa que não possuía corredores na frente), os homens da Lotto e da Sunweb não descansaram enquanto não receberam dos seus carros a informação pela qual tanto tinham lutado: Quinziato e Schar tinham queimado a rosca. Kung estava sozinho e não teria, em teoria, meios para reentrar no grupo principal.

Realizada uma investida na frente por parte dos dois fugitivos supracitados e uma investida no grupo de principal por parte de Alexis Gougeard da AG25, tanto a Lotto como a Sunweb não se preocuparam muito com o quilómetro dourado. Para ambas as formações não pareciam interessar os segundos que estariam disponíveis nos sprints intermédios posteriores à passagem pela subida ao Schatzberg porque no grupo ainda estavam presentes vários sprinters como Sagan, Van Poppel ou Greg Van Avermaet. Tanto à formação belga como à formação alemã não interessava a possibilidade de virem a apanhar os homens da frente antes do tal quilómetro dourado como até interessaria a passagem destes 3 homens nos sprints intermédios. Se por um lado, os 3 homens que rodavam na frente anulariam por exemplo a hipótese de Peter Sagan vir a conquistar preciosos segundos para a geral, por outro lado, a hipótese de Dumoulin ter que se fazer aos sprints (por exemplo) poderia retirar-lhe alguma energia para a chegada. O holandês já detinha naquele preciso momento, a 20 km da meta, a liderança virtual da prova.

Tanto a Lotto-Soudal como a Sunweb cumpriram os seus desideratos. Ao retirar-se da frente do grupo principal, as duas equipas tentaram perceber quem é que poderia pegar nas despesas da corrida. A Cannondale de Sep Vanmarcke ainda assumiu as despesas com 3 homens durante um par de metros. A corrida viria a ser “arrepiada” pela Bora de Peter Sagan, a equipa mais interessada naquele quilómetro dourado.

Um novo cenário de corrida viria a ser colocado pelo ataque do formidável Michael Valgren. Assim que o loiro, talentoso e exuberante ciclista da Astana pôs a sua pata na questão, o assunto tomou outras proporções. Valgren tinha qualidade para poder vencer a etapa e fazer uma diferença considerável na geral se lhe dessem condições para o efeito. Estando o dinamarquês, corredor de uma enorme finesse que já se tornou campeão dinamarquês de estrada em tenra idade (aos 22 anos) a 57 segundos de Dumoulin, todos os cuidados seriam poucos. Se juntarmos ao seu ataque, a resposta imediata de Tim Wellens, ninguém poderia continuar na verdadeira apatia que se tinha instalado.

Quando os dois homens chegaram na companhia de Gougeard a Vakoc e Hepburn, o quinteto que se formou na frente (à vista do grupo) nos metros que antecederam à penúltima contagem categorizada do dia, vários foram os ciclistas que sentiram necessidade de voltar a mexer com a corrida. Jan Bakelants puxou consigo Lars Boom, Sep Vanmarcke (Cannondale) e Tom Dumoulin. Num segundo grupo, Sagan tentava colar ao grupo da frente com a sua nova sombra Van Poppel na roda. Jasper Stuyven seguia na cauda do grupo. A corrida ficou por breves momentos fragmentada. Quando os ânimos voltaram a refrear, pode ser constituído na frente um numeroso grupo. Tanto Stuyven como Greg Van Avermaet (BMC) estavam presentes no grupo.

À reunião, Sagan tentou responder com uma sapatada. O eslovaco não seria capaz de conquistar uma vantagem. Em momentos distintos, Dumoulin e Bakelants também tentaram acelerar a corrida. Sem efeito. A 5 km da meta foi a vez de Jasper Stuyven tentar a sua sorte na companhia do alemão Jasha Sutterlin da Movistar. O impiedoso pelotão haveria de responder por intermédio de Greg Van Avermaet. O monstro das bolachas da BMC pretendia levar a coisa para o sprint. Respondeu Sep Vanmarcke. O Cannondale também não teve espaço para seguir.

Aos s, o desconfiado grupo (assistiu-se ao bailado de “aberturas para o lado” de vários ciclistas, movimentos que significam por norma a existência de um enorme clima de desconfiança) seguiu até ao momento em que Lars Boom se cansou das jogadas tácticas dos seus rivais.

boom

Peter Sagan (à direita) olha para trás mas Danny Van Poppel (na roda)  “manda” o seu novo rival às favas. Van Poppel começa a ser uma verdadeira espinha atravessada na garganta do ciclista eslovaco da Bora. 

A menos de 1500 metros para a meta, o voador holandês decidiu sair do estado de desconfiança instituído para nunca mais ser apanhado. Como Sagan ficou a olhar para trás para tentar perceber quem seria capaz de responder ou pegar na corrida, o holandês pode seguir com luz verde. Com a obtenção de uma situação de corrida a fazer jus ao seu apelido (Boom), ao ciclista holandês pode fazer a diferença que lhe permitiria a vitória na etapa. A vitória de Boom tornou-se na 24ª vitória (19ª em etapas) da formação holandesa na temporada.

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