Faraó (tiveste mais sorte)


Continuamos em jeito de despedida, a carpir as mágoas de termos visto sair de cena os nossos grandes ídolos. Continuo a achar que com um bocadinho mais de esforço e de sacrifício, ainda ias a Tóquio sacar o ouro ou uma medalha de prata ou bronze na Maratona. Com a tua resistência, podes ganhar o que quiseres. Compreendo o teu cansaço e compreendo que é hora de passares o tempo que não pudeste passar durante todos estes anos com os teus putos. Esta vida exigiu muito de ti durante muito tempo. Passaste anos meses a comer o que nunca quiseste comer, a horas certas. A descansar às horas certas. A privar-te das coisas mais simples do mundo, como, dar uma volta com os teus filhos no parque. Viveste debaixo de uma enorme pressão. É hora de descansares e de possivelmente cumprires os sonhos que adiaste em prol da tua longa e vitoriosa carreira.

Os filhos da mãe dos etíopes viram o vídeo da Eurosport. Os gajos vieram com a táctica correcta para te derrotar. Quando te viram a passar para a frente da corrida, os gajos sabiam perfeitamente que a ias esticar até ao limite do suportável. Acabaram por ser mais espertos. Como sabiam que não te iam derrotar num mano-a-mano, decidiram executar o mais cobarde dos ataques: em grupo. Toda a gente percebeu que a utilização de uma lebre (até tinham outra disponível) cumpriu dois propósitos muito específicos: desgastar-te ao máximo na última volta e poupar energia ao seu candidato. O ritmo imposto pela lebre foi treinado ao pormenor. Aguentaste estoicamente mas não serias capaz de resistir a uma nova mudança de velocidade nos 200 metros finais. Mesmo assim foste um herói. Os etíopes precisaram de 3 homens para te vencer.

Faraó do Atletismo: tu és as prova viva de algo maravilhoso – o dom da vida. Fugiste da guerra na Somália. Passaste vários anos no Djibouti em vários campos de refugiados antes de procurares uma vida melhor no Reino Unido. Quando ninguém dava nada por ti e pelos teus, e quando toda a gente te olhava de lado e te condenava a uma vida de escravidão moderna a lavar sanitas e polibans em estações de metro, houve um professor que olhou para ti e te deu uma oportunidade para seres alguém no mundo. Ao longo destes anos deste-nos uma enorme lição: fugiste às balas, fugiste ao esgoto insalubre dos campos de miséria, fugiste à vida banal à qual te queriam condenar por preconceito, e mostraste-nos que o talento esconde-se por vezes em quem menos esperamos. Ensinaste-nos a nunca menosprezar o ser humano que está ao nosso lado porque nunca sabemos do que ele é verdadeiramente capaz. Quem sabe se numa banal criança africana não está um futuro medalhado olímpico ou se numa criança de etnia cigana não está um futuro campeão nacional. É no teu exemplo que temos de nos inspirar para tornar este mundo um mundo melhor.

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