Binckbank Tour – Etapa 6 – Tim Wellens atinge o estado de graça nas ardenas


Nos metros finais, o belga da Lotto-Soudal puxou e o holandês nem se importou muito de perder a etapa (e os inerentes segundos de bonificação reservados para o primeiro a cruzar a linha de meta) porque tinha a plena consciência que acabara de dar um passo importante para a vitória na geral. Este é o mais breve resumo da parte menos importante de uma corrida (nas ardenas; na região de Bastogne; em certos, a corrida cruzou-se com alguns dos trilhos da mítica clássica disputada durante a primavera) que espremeu um apetecível e saboroso sumo de clássica da primavera em pleno verão.

Dois grandes obstáculos marcavam os últimos 35 km de corrida na fantástica região da Valónia. Se o conhecido Côte de Saint-Roch (800 metros a uma pendente média de 12%), muro eternizado na mítica clássica integrante dos 5 monumentos que tem o seu término no icónico bairro de Ans, seria o ponto de partida para a discussão pela etapa, o Cote Boins des Moines acabou por fazer toda a diferença. Nos Boins des Moines, Oliver Naesen (AG2R) entrou na frente com alguma vantagem sobre um reduzido grupo de ciclistas, Peter Sagan arriscou tudo para poder vencer a prova, Tim Wellens foi inteligente na forma em como soube responder a Sagan mas Tom Dumoulin acabou por fazer toda a diferença em virtude do azar ocorrido ao eslovaco da Bora.

A impor respeito na frente, uma fuga onde militavam ciclistas como o inglês Teo Gheoghan Hart (Sky; que fantástica corrida), Pieter Weening (Roompot), Rory Sutterland (Movistar), Tony Martin (Katusha) ou Alexis Gougeard (AG2R) obrigou a Lotto-Soudal e a BMC a mover um esforço de perseguição no pelotão. Com homens como Tony Martin na frente, nunca fiando. Em qualquer circunstância, com ou sem o seu joelho afectado pelas terríveis lesões que lhe tem diminuído o ímpeto nos últimos anos, o alemão é sempre um ciclista a ter em conta. Não foi portanto à toa que a meio da etapa, quando o alemão enganou-se numa trajectória, todos os seus colegas de fuga decidiram esperar pelo seu regresso. O sucesso da fuga poderia depender do trabalho empregue pelo alemão na dianteira.

A formação sediada nos Estados Unidos da América mas patrocinada pelo fabricante de bicicletas suíço (o patrocínio deveria valer-me o acesso gratuito a um presentinho!) tinha em mente a possibilidade de conduzir o seu sombra, perdão, o seu grande ciclista Greg Van Avermaet à vitória. Deixemos de brincadeiras. O assunto foi sério. A observação e análise da corrida deu-me um gozo do caraças.

sagan 10

Os fugitivos ainda puderam passar na frente na aproximação à Côte de Saint-Roch. Logo atrás, a poucos segundos (a 60 km da meta, a fuga atingiu vantagem máxima de 3 minutos e 15 segundos) a Sunweb tratou de colocar um homem “a abrir” na frente no início da rampa para tentar apanhar algum candidato à geral na sua rede. Bem colocados, tanto Peter Sagan como Van Avermaet puderam precaver-se. O mesmo não veio a acontecer porém com o Rei das Ardenas Phillippe Gilbert (Quickstep), 6º à geral individual. Afastado Gilbert, Dumoulin afastava um dos mais temíveis adversários. Um daqueles que poderia fazer estragos no Bois des Moines.

Retalhado em pequenos grupos no final da emblemática subida, viria a formar-se na frente um pequeno grupo constituído pelos amigos da geral. Nesse grupo estavam incluídos ciclistas como Petr Vakoc, Tom Dumoulin, Greg Van Avermaet, Peter Sagan, Jasper Stuyven, Tim Wellens, o líder Lars Boom, Jelle Vanendert, Tiesj Benoot, Michael Valgren, Teo Gheoghan, Pieter Weening, Jasha Sutterlin, Sep Vanmarcke e mais uns pós.

Foi aí que Oliver Naesen tentou promover o primeiro esticão da corrida. O campeão belga, ciclista de uma fibra do catano, tentou capitalizar sobre toda a concorrência na aproximação ao último grande obstáculo do dia, o Côte des Bois des Moines

bois des moines

Sagan não estava pelos ajustes. No final do terrível Côte, o bicampeão mundial esticou-se para a frente, viu a concorrência e decidiu avançar rumo à vitória. Inteligente, Tim Wellens “leu” imediatamente o estado físico do ciclista da Bora e tratou de responder. A corrida ficara novamente retalhada em pequenos grupetos. Com alguns segundos de avanço para um 2º grupo composto por Tom Dumoulin, Oliver Naesen, Michael Valgren, Tiesj Benoot, Jasper Stuyven e Greg Van Avermaet (Lars Boom tinha ficado ainda mais para trás num 3º grupo) Sagan não pretendia apenas vencer a etapa: ainda haviam pelo caminho 9 segundinhos de bónus para disputar no quilómetro dourado colocado pela organização a 22 km da meta.

Eis que o azar “valão” de Sagan decide aparecer

O eslovaco e a região Valónia tem uma relação espectacular. Sempre que o ciclista da Bora vai a esta região do Sul da Bélgica, podem acontecer dois cenários: ou vence ou então é traído pela sua bicicleta nos momentos decisivos da corrida e\ou ataques. Se por um lado, o bicampeão mundial de estrada já soma no seu currículo importantes vitórias no Tour de Flandres (2016), nos 3 dias de Panne, na Brabants-Pijl e na extinta ENECO Tour (nome pelo qual responde actualmente esta prova), por outro lado, várias foram as vezes em que foi impedido de vencer devido a problemas mecânicos. No Tour de Flandres de 2017, por exemplo, Sagan teve um contratempo no preciso momento em que lançava o ataque decisivo.

Assim que lançou o ataque seguido por Wellens, o eslovaco furou e foi obrigado a “arrastar-se” pela estrada até chegar o seu carro de apoio. Os estragos provocados pelo furo provocaram-lhe um irreparável dano de 1 minuto e 15 segundos para a frente da corrida. O eslovaco ainda conseguiu ter a força anímica para tentar contra as adversidades. Num ápice, com a força mental que o caracteriza, Sagan conseguiu reduzir cerca de 30 segundos. Esgotado e sem apoio nos grupos que ia ultrapassando, o ciclista da Bora acabaria por deitar a toalha ao chão a 15 km da meta.

Lá na frente, Wellens e Dumoulin revelaram uma boa coordenação no exigente terreno que tiveram que enfrentar. O homem da Lotto-Soudal pretendia essencialmente dignificar o enorme trabalho que tem sido feito pelos seus gregários (em especial, o trepador Tiesj Benoot) durante a presente semana. Já Dumoulin entrou na coisa com o objectivo fixado na conquista da liderança. Como Lars Boom estava no 3º grupo, ou seja, no grupo de Sagan, o holandês só precisava de terminar a etapa na frente. 1º e 2º da geral estavam portanto arrematados e arredados da discussão pela etapa e pela geral.

A persegui-los, um grupo formado por Michael Valgren, Tiesj Benoot, Greg Van Avermaet e Oliver Naesen era essencialmente puxado pelo campeão belga, ciclista que representa a francesa AG2R. Greg Van Avermaet presumiu que Naesen seria capaz de anular a diferença registada na casa dos 15 segundos. Como o duo da frente se encontrava à vista, o veterano corredor da BMC presumiu que mais tarde ou mais cedo chegaria à frente da corrida “no melhor de dois mundos”: sem queimar uma única caloria e a queimar todas as que pudesse no seu explosivo compatriota. Stuyven também não se mostrou muito interessado em puxar nas estreitas estradas pelas quais passaram os ciclistas na ponta final da etapa. A trabalhar, que trabalhassem os ciclistas mais explosivos. Já Michael Valgren sentiu necessidade de dar ajuda quando percebeu que os esforços de Naesen não seriam suficientes. A Tiesj Benoot não lhe interessava puxar porque tinha o seu chefe-de-fila na frente.

Assim que Dumoulin começou a imprimir um ritmo sério na frente e Oliver Naesen esgotou-se, tanto Stuyven como Avermaet chegaram-se à frente. Já era a tarde. A distância de 7 segundos verificada no auge do trabalho desenvolvido pelo AG2R oscilava entre os 22 e os 28 segundos. Dumoulin estava nas suas sete quintas. O holandês chegava finalmente à liderança da prova, na partida para a última etapa da prova.

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