5 breves notas relativas à vitória do Benfica em Chaves


Nem o Chaves mereceu perder, nem o Benfica mereceu o sabor agridoce do  empate. O golo de Haris Seferovic (o esferovite; é um senhor jogador) aos 90+2″ deu um toque de justiça ao esforço empregue pelos encarnados no derrube de um muro defensivo que se formou, com maior ascendente na segunda parte, em virtude dos problemas físicos que se abateram sobre algumas das unidades mais preponderantes da formação flaviense mas não conseguiu apagar a excelente exibição que o Chaves realizou no capítulo da transição nem as dificuldades sentidas pelos encarnados nos momentos de transição defensiva.

A tal “ideia integradora” já se pode vislumbrar a olho nu no futebol do Chaves de Luís Castro – Voltamos mais uma vez à entrevista concedida no passado mês de Julho pelo treinador ao Expresso para situar os nossos leitores em relação a esta afirmação. Qual é a ideia de jogo do treinador “flaviense”?

“Gosto que a minha equipa jogue com o bloco bem junto, a sair em construção por trás, com um pivô, um farol da equipa, que seja o coordenador todo do jogo, a formar triângulos à direita, à esquerda, com ligações entre os corredores feitas por vários jogadores, chegando juntos à frente. Gostamos que a nossa linha defensiva dê conforto à equipa quando estamos no momento ofensivo e que provoque os equilíbrios necessários para que quando perdemos a bola possamos, em vez de darmos passos para trás, dar passos para a frente — e isso só com uma boa colocação. Quando não temos capacidade para ganhar logo a bola, gostamos de montar linhas de cinco ou de quatro ou de três jogadores, em função da distância para a nossa baliza, e gostamos que o jogo seja interpretado por todos, sem excepção, quer no momento ofensivo quer defensivo, participando não 10 mas 11, com o nosso guarda-redes também a fazer parte desse colectivo. Gostamos de aparecer com muita gente na zona de finalização e servir quem lá está, não gostamos de cruzar para a área por cruzar, gostamos de jogar no último terço como jogamos no primeiro ou no segundo… É esta a ideia que transportamos. Umas vezes deu bem, também depende do adversário. Também damos muita importância aos pormenores, como a orientação do corpo, se está aberto, se está fechado, se tem os apoios bem colocados… Os jogadores sentiram-se muito bem com esta forma de treinar e de jogar.” – Luís Castro.

Vamos lá desmistificar isto.

“”Gosto que a minha equipa jogue com o bloco bem junto, a sair em construção por trás, com um pivô, um farol da equipa, que seja o coordenador todo do jogo, a formar triângulos à direita, à esquerda, com ligações entre os corredores feitas por vários jogadores, chegando juntos à frente. ” –

Proximidade entre unidades no momento de construção. O farol da equipa nas acções de contragolpe é o avançado William. Sempre que a equipa flaviense recupera a bola no seu meio-campo, procura imediatamente a sua referência na saída para a transição. O avançado, jogador que consegue receber muito bem o jogo de costas, trata portanto, distribuir a bola para os corredores (ou em último caso para o primeiro apoio pelo eixo central: Pedro Tiba, jogador que faz a “tal ligação com os flancos”) sector do terreno onde já estão por norma formados os tais triângulos com a presença dos dois médios de pendente mais ofensiva (Pedro Tiba mais descaído para a interior direita, Galvão mais para a esquerda) laterais e extremos (se bem que no jogo desta noite, o lateral esquerdo brasileiro Furlan não se sentiu à vontade para subir no terreno devido à influência de Salvio no jogo do Benfica, às presenças esporádicas de Pizzi, Seferovic ou Jonas e às constantes subidas de André Almeida; Jorginho não foi em diversos momentos do jogo um bom apoio defensivo para o ala adaptado a lateral). 

Em ataque organizado, o farol de construção da equipa é Pedro Tiba. Como o Chaves não teve muitas possibilidades para construir em ataque posicional, vamos esquecer este assunto por hoje. Quando Castro tirou o jogador de campo para colocar o seu substituto natural (Renan Bressan), o treinador flaviense pretendia que o brasileiro pudesse aproveitar o espaço que era concedido pelos médios encarnados (nas situações de transição para o contra-ataque) para poder criar, ou seja, para executar mais (e mais precisos) lançamentos para as entradas dos extremos nas costas dos laterais encarnados. O brasileiro não é um jogador com características idênticas às de Tiba. Enquanto o aguerrido médio que já passou por Braga compensa as suas indisfarçáveis lacunas técnicas com a sua agressividade e entrega ao jogo, o médio brasileiro naturalizado bielorusso é um jogador muito eficiente no capítulo da condução de bola e do passe (principalmente em acções de contra-ataque) que fica a dever muito ao médio português no capítulos da agressividade, comportamento defensivo, intensidade da pressão e recuperação de bola. Quando Luís Castro decidiu tirar o médio português da partida aos 63″, anulou qualquer possibilidade de vencer a partida. A estabilidade defensiva ficou assegurada com a colocação de outro trinco ao lado de Jefferson (Fábio Melo) mas a saída para a transição, foi ferida de morte. O brasileiro foi um corpo estranho no meio-campo flaviense face à altíssima rotação exibida por Tiba quer no capítulo defensivo, quer no capítulo da transição para o contra-ataque.

“Gostamos que a nossa linha defensiva dê conforto à equipa quando estamos no momento ofensivo e que provoque os equilíbrios necessários para que quando perdemos a bola possamos, em vez de darmos passos para trás, dar passos para a frente — e isso só com uma boa colocação.”

Este Chaves não é uma equipa muito intensa na pressão ao adversário mas é uma equipa muito bem orientada ao nível da colocação, principalmente a meio-campo. A colocação de jogadores possibilita aos médios flavienses recuperar muitas bolas (em especial ao trinco Jefferson, o homem que mais recuperou na partida desta noite) e permite pressionar bem sem ter aquela intensidade clássica das equipas que são intensas na pressão. A proximidade em relação ao adversário leva os médios do Chaves a cair rapidamente sobre o portador de forma a limitar-lhe o tempo de pensamento e execução. Quando assim acontece, o quarteto defensivo da formação de Luís Castro tende a subir (“dar passos à frente para não dar passos atrás”) no terreno para tentar criar a armadilha do fora-de-jogo. Na primeira parte, os flavienses tiveram alguma dificuldade para conseguir executar as ideias do seu treinador porque não conseguiram a tal proximidade junto do principal construtor encarnado, Pizzi.. A defesa flaviense subiu mas foi apanhada várias vezes em contra pé sempre que Pizzi ou Fejsa (foi Fejsa quem colocou aquele passe vertical para a desmarcação de Sálvio para as costas da defensiva dos homens da casa) lançaram para as suas costas.

“Gostamos de aparecer com muita gente na zona de finalização e servir quem lá está, não gostamos de cruzar para a área por cruzar, gostamos de jogar no último terço como jogamos no primeiro ou no segundo…”

Matheus e Jorginho tem ordem para criar no 1×1. O brasileiro emprestado pelo Sporting tem a facilidade de possuir na sua ala um lateral que sobe muito bem no terreno e toma conta do exterior. Ao longo da partida, Matheus procurou quase sempre desequilibrar através das inflexões com bola para terrenos interiores, sem contudo descurar o apoio que lhe era dado por fora, junto à linha, pelo seu lateral. Intima é um extremo puro que adora desequilibrar no 1×1 contra os laterais adversários. O extremo, jogador que foi formado no Manchester City, não teve porém, o apoio desejável da parte de Furlan. Ambos os extremos causaram muitas dificuldades aos laterais do Benfica. Eliseu foi obrigado recorrer à falta em 7 ocasiões para travar as investidas de Matheus ou Jorge Intima. Em diversos lances, o jogador emprestado pelo Sporting chegou a humilhar o internacional português com os seus sensacionais skills técnicos. Na 2ª parte, o jovem brasileiro não conseguiu ser o jogador objectivo que tinha sido no primeiro tempo. Pese o facto de ter lançado um bom contra-ataque na única oportunidade de golo construída pelos flavienses ao longo da partida (entrada na área e finalização de Jorge Íntima; a recepção do extremo emprestado pelo Saint-Etienne nesse lance matou qualquer possibilidade de fazer golo), nos segundos 45 minutos, o extremo perdeu-se em demasiadas caixinhas estéreis sobre os adversários.

Eliseu –  Fraco, Fraquíssimo. Nos primeiros 45 minutos, sempre que embalava em velocidade, Matheus fez o que quis do internacional português. Pode valer-se novamente da compenetração e assertividade dos seus centrais sempre que o extremo (ou Paulinho) colocaram bolas para a área através do seu corredor.

Ao nível de processos ofensivos, a equipa de Rui Vitória voltou a explorar os seus processos clássicos: o jogo em profundidade para as costas da defensiva, as aberturas através de passe longo para as movimentações de Toto Salvio na direita (o extremo dividiu-se a sua exibição entre os dois processos mais utilizados; ora recebendo o esférico na direita, em muitas situações, nas costas do lateral adversário, ora na faixa central, quando realiza incursões à linha defensiva adversária para tentar “entrar” no jogo em profundidade praticado pela dupla de médios), a entrada entre linhas dos seus avançados (na 2ª parte, Jonas foi-se movimentando entre a entrada da área e a meia-esquerda; Cervi cresce imenso quando Jonas cai para a meia-esquerda; quando o brasileiro vai à meia-esquerda interligar jogo entre os médios e os corredores, acaba por conseguir fazer com que os laterais adversários tenham de o pressionar, facto que lhe possibilita a colocação de passes de ruptura nas suas costas para as constantes entradas de Cervi) e a entrada de um dos avançados numa das faixas (a entrada de Seferovic retira presença na área à equipa).

Em em 90 minutos, todas as investidas perigosas dos encarnados foram anuladas pelas formidáveis intervenções dos centrais flavienses (tanto Domingos Duarte como Nuno André Coelho fizeram uma espantosa exibição ao nível da recuperação de posição e do desarme, mesmo nos lances em que foram, num primeiro momento, batidos) do seu guarda-redes (nos cabeceamentos dos centrais encarnados na sequência de lances de bola parada) ou do poste da sua baliza, aos 90+2″, a formação flaviense não conseguiu suportar a agonia (provocada pelo acumulado desgaste físico) que a foi empurrando para o seu meio-campo nos últimos 20 minutos.

Nos minutos em que esteve em campo, Rafa não acrescentou nada ao jogo encarnado. Quando Rui Vitória decidiu tirar Cervi para colocar o internacional português, a equipa até perdeu dinâmica nos ataques desenvolvidos pelos corredores. O lance do golo surge portanto numa clássica investida encarnada: Pizzi lançou a velocidade do extremo com um passe em profundidade para a área, o vilafranquense deu um toque para a pequena área na esperança que aparecesse alguém a desviar a bola e Seferovic, qual felino, viu naquele lance uma janela de oportunidade para matar um jogo muito difícil para os encarnados. Este foi um dos raros duelos de área em que Nuno André Coelho chegou atrasado ao lance.

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