A falta de criatividade e a previsibilidade de processos dá neste tipo de empates chochos


sporting 23

Na Vila das Aves acreditei. O recuo de linhas foi fulcral para se atingir o resultado que se atingiu. Os dois golos da vitória nasceram em períodos do jogo nos quais o recuo do bloco deu a ilusória sensação ao adversário que estava por cima no jogo. O Aves expôs-se e o Sporting capitalizou em duas acções no contra-ataque. Frente ao Setúbal duvidei. Frente ao Steaua confirmei: o Sporting terá imensas dificuldades para bater todas equipas que se apresentem em bloco recuado em Alvalade.

Não é preciso ser um génio do futebol para se compreender a previsibilidade dos processos ofensivos da equipa de Jorge Jesus. A equipa sai bem a construir de trás (porque o sistema de pressão do adversário o vai permitindo) chega bem aos 60 metros mas aí, aí meus caros leitores, começa toda uma construção previsível (excessivamente flanqueada) onde não existe um pingo de dinâmica e um pingo de criatividade.

Jorge Jesus continua a acreditar no final feliz do conto que lhe indica que a utilização sistemática do jogo exterior, a velocidade dos extremos e a presença de um ponta-de-lança matador na área é o garante das vitórias fáceis. Qualquer treinador que veja os jogos caseiros deste Sporting consegue facilmente perceber como é que pode desmontar defensivamente a equipa de Jorge Jesus (e rezar para que nenhuma bola caia a jeito na cabeça de Bas Dost; empate garantido) e como é que pode tentar a sua sorte no ataque.

Este Sporting joga da mesma maneira. A circulação de bola é básica e unilateral (saída pelo meio, abertura para os corredores), as dinâmicas utilizadas pelos homens dos corredores são sempre as mesmas (exceptuando quando Gelson ou Acuña procuram terrenos mais interiores para permitir a subida pelo exterior dos laterais; no jogo desta noite, essa dinâmica foi colocada duas ou três vezes), o “jogo de cruzamentos” raramente dá resultado (grande parte dos cruzamentos realizados a partir do flanco direito terminaram nas mãos de Nita) e a equipa limita-se a vascular a bola entre corredores para ver se tem um espaço livre para alguém cruzar para a área à procura de Bas Dost. Gelson é sobrecarregado de jogo e não é por aí que advém os proveitos para a equipa. O extremo internacional português é veloz, é criativo, ultrapassa laterais à mesma velocidade com que se desenrola a vida em Lisboa mas convenhamos que ao nível do cruzamento, o extremo ainda pode ver melhores dias. O Sporting conquista cantos atrás de cantos, vai empolgando o estádio mais por nervosismo do que por outra coisa, mas o golo tarda.

Para além de previsível (aos adversários basta não descurar o preenchimento dos corredores com 2 ou até mesmo 3 jogadores; quando começarem a colocar 3 jogadores, a equipa poderá começar a ter dificuldades para criar oportunidades de golo; abre-se um espaço no corredor central mas já se sabe que este Sporting vai tantas vezes ao corredor central quantas eu vou a Fátima em 10 anos; 1, 2 no máximo por jogo e por favor, porque a minha mãe ou a minha namorada me pedem para ir na veste de taxista ou na pele do rebelde trintão sob o qual cairão todas as promessas de cera queimadas pelo fogo milionário do santuário) o futebol da formação leonina é pouco criativo.

Nos processos de circulação existe pouca dinâmica dos homens do interior para vir receber o jogo, arrastar um jogador com a sua movimentação (manobra que garantirá a existência de espaços nas costas desse jogador, entre a linha média e a linha defensiva; veja-se o que faz Jonas no Benfica quando vem à meia-esquerda receber o jogo e criar situações de ruptura atráves do passe em profundidade para as entradas de Cervi nas costas dos laterais; veja-se o que fazem constantemente Óliver e Aboubakar nos processos ofensivos do FC Porto de Sérgio Conceição) e quiçá tentar desbloquear o preenchimento de espaços feito pelos jogadores do meio-campo adversário com uma tabela, que permitirá, ao jogador que aparecer entre linhas (Podence) entrar na área ou drible ou servir uma desmarcação de Bas Dost sobre os centrais. Se não podemos chamar o adversário quando iniciamos a construção no nosso meio-campo, é preciso manobrá-lo no segundo terço do campo. Só podemos manobrar um adversário com um futebol dinâmico, de constante troca posicional (para baralhar as marcações do adversário, para ter que os obrigar a sair dos terrenos instituídos) de tabelas preferencialmente desenroladas a um toque para aproveitar o espaço que é libertado nas costas e, obrigar também os defesas adversários a sair das suas confortáveis tocas na área para terem que vir pressionar e, consequentemente abrir espaços para a colocação de bolas em Bas Dost.

Nas únicas vezes em que o Sporting explorou realmente o jogo interior, causou perigo junto da baliza de Nita. Foram duas as situações: no lance que termina com o  remate cruzado de Acuña ao poste, lance no qual Daniel Podence apareceu muito bem, solto de marcação, entre as linhas adversárias para receber, criar a situação de ruptura e lançar a desmarcação do argentino e no lance em que Doumbia deu dois passos atrás para vir receber o início de construção de forma a tabelar com Fábio Coentrão, quando o lateral se encontrava temporariamente a pisar terrenos mais interiores.

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Esta equipa do Steaua é uma equipa muito básica. Ao nível de processos ofensivos, a coisa resume-se em dois processos padronizados: a constante colocação de bolas em profundidade no seu movimentado e possante ponta-de-lança (para este stickar remates de meia distância de qualquer forma, espécie ou feitio, graças ao seu potente remate; e\ou para este criar situações de golo através de jogadas individuais nas quais passa pelos defesas adversários à força) ou a saída através dos corredores, faixas nas quais, o Steaua tem os seus melhores portentos técnicos: o português Filipe Teixeira (jogador que aos 36 anos ainda tem uma soberba entrega ao jogo) e o extremo esquerdo Golofca. Com Constantin Budesco, médio internacional romeno, que ficou de fora por lesão, a equipa limita-se a praticar um futebol ainda mais pragmático de recuperação da posse de bola e lançamento imediato para as movimentações de Denis Alibec, ficando Budescu como uma espécie de espectador atento às segundas bolas que lhe possam voltar a cair nos pés para fintar e\ou rematar de meia distância.

Nos 90 minutos de Alvalade, o Steaua só não chegou ao “clássico golo fortuito” porque porque… naqueles 10 minutos finais (mais concretamente, nos minutos que se seguiram aquela entrada na área seguida de remate cruzado do lateral Gabriel Enache, a passe de Alibec) sempre que os romenos ultrapassavam o meio-campo, o meu coração disparava. Naquele lance aos 90+2″ assim que vi Felipe Teixeira a passar por dois homens com a maior das facilidades, disse para mim mesmo “morremos contra uma equipa que não teria sequer capacidades para lutar por um 8º lugar em Portugal”.

Como é que se desbloqueiam jogos contra este tipo de equipas?

Existem a meu ver várias maneiras para desbloquear este tipo de adversários:

  • Recuando o bloco – O Sporting baixa as suas linhas, dá a posse ao adversário e com a posse leva o adversário a assumir um comportamento ofensivo mais expansivo e empolgado no qual mete mais unidades nos processos ofensivos, para, capitalizar todos os erros que possam ser cometidos na circulação a meio-campo. Uma equipa mais balanceada, com mais unidades presentes nos momentos de construção e criação, é uma equipa tendencialmente mais exposta defensivamente, porque nem sempre poderá ser rápida a fazer a transição para o momento defensivo.
  • Chamando a pressão adversária com uma circulação de bola mais prolongada à saída do seu meio-campo para que o Steaua sinta vontade de subir as suas linhas para pressionar mais alto. A subida de linhas permite a obtenção de espaços para jogar entre linhas se existir uma saída ordenada e em bloco ou permite o lançamento de mais bolas para as costas do adversário.
  • Rotação constante do segundo avançado entre o corredor central e as faixas para auxiliar tanto o jogo exterior (triangulações) como o jogo interior (fixando-se entre linhas para receber, virar, fintar ou servir desmarcações). Podence é um jogador capaz de cumprir estes requisitos.
  • Troca posicional constante ao longo do jogo. Já vimos que Acuña dá-se bem com o jogo interior e até o procura quando não tem bola no flanco ou quando é Coentrão quem sai a jogar. O Argentino sabe sempre o que fazer à bola. Pode assistir. Pode tentar cair sobre os defesas adversários em drible. Pode rematar de meia distância sempre que tiver uma aberta para tal. Porque não alterar o actual estado estaticista que se pode observar com clarividência ao longo de vários momentos do jogo com trocas posicionais entre Podence e Acuña, por exemplo?
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