O dia mais importante da vida de uma modesta vila de 3700 habitantes – 1ª parte


hoffenheim

Com o passar dos anos, o futebol tornou-se uma notável força social no colorido espectro da região de Heidelberg. A 20 km da cidade que alberga a mais antiga Universidade Alemã (fundação datada de 1836) e que albergou temporariamente Martinho Lutero na sua cruzada contra o Comércio de Indulgências que era praticado por e pelos antecessores do Papa Leão X, nasceu uma das histórias mais lindas do futebol: o TSG 1899 Hoffenheim.

Fundado em 1945 após o fim da 2ª Guerra Mundial, o clube que juntou num só os dois clubes até então existentes no povoado de 2600 habitantes, o “ginástico” Turnverein Hoffenheim (1899) e Fußballverein Hoffenheim (1921) teve uma história obscura em cerca de meio século de existência. Até ao ano 2000, ou seja até à entrada de Dietmar Hopp (o multimilionário patrão da SAP, AG; fortuna avaliada em 3,3 milhões de dólares) o modesto TSG, clube que disputava o 5º escalão da nomenclatura de competições do futebol alemão, era uma simples agremiação de bairro, onde meia dúzia de jovens e adultos da terra perdida no meio de “nenhures” da região de Baden se juntavam para dar uns toques na bola e apanhar cáspias de Vetter´s, a cerveja mais famosa da região. A entrada de Hopp tudo alterou. O patrão da SAP, empresa criada em 1972 por antigos empregados da IBM (entre os quais Hopp) que viria a revolucionar as tecnologias da informação, tratou de construir a pulso e com afinco um dos mais bonitos projectos da história do futebol.

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Corria o ano de 2000 quando Hopp decidiu financiar o clube da modesta região de 3700 habitantes. O que é levou na altura um multimilionário em plena ascensão a delegar competências em alguns dos seus companheiros de empreitada na SAP para assumir praticamente em full time os destinos de um clube que não tinha a infraestrutura, a massa humana e o background necessário para eventualmente se lançar a uma empreitada (minimamente sustentável) no rigoroso futebol alemão? Hopp quis nesse ano assumir os destinos do clube pelo qual se tinha apaixonado nos seus anos de meninice, nos anos 50. Dono de uma valiosa fortuna, o empresário de sucesso local não descansou até ao dia em que colocou o clube da terra a jogar uma pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Pelo meio, o Hoffenheim tornou-se o verdadeiro símbolo de uma região que até então poucos desportistas de topo tinha formado. O único atleta minimamente conhecido da região tinha sido Hans-Dieter Flick, jogador que alinhou pelo Bayern de Munique entre 1985 e 1990. Flick seria o treinador que Hopp viria a escolher para orientar a equipa na primeira fase da nova vida.

Em duas temporadas, com Flick a equipa pode avançar dois escalões na escala do futebol alemão. A palavra futebol começou a penetrar na cabeça da região pela primeira vez. Na cabeça de muitos “doutores” de ciências, a sigla TSG assemelhou-se à invenção de uma nova sigla de um elemento químico na tabela peródica. Cada golo passou a ser contabilizado nos números atómicos do novo elemento e a cada vitória, o Hoffenheim atraía cada vez mais público das localidades vizinhas. O memorável apuramento do clube para os quartos-de-final da DFB Pokal na temporada de 2003-2004, às custas de clubes como os vizinhos Karslruhe (a capital da região administrativa à qual pertencem Hoffenheim e Heidelberg), do Eintracht Trier  (clube que à era competia na Bundesliga 2) e o colosso Bayer de Leverkusen, levou a região a pensar a fusão de vários clubes num só: o FC Heidelberg 2005, projecto ambicioso que não chegou a avançar porque o Astoria Walldorf e o Sandhausen não quiseram abdicar da sua independência e da sua soberania em prol de um projecto que teria como principal responsável, decisor e financiador Dietmar Hopp. Hopp pretendia construir o estádio do novo clube numa das suas quintas na região. O Astoria Walldorf pretendia sediar o novo recinto do clube em Heidelberg.

Flick sai de cena. Ralf Rangnick inaugura a fase do apogeu do clube. 

ralf rangnick

Quando Hans-Dieter Flick completou a primeira fase de ascenção do clube, Hopp decidiu contratar Ralf Rangnick, o homem que conduziria o clube à 1ª divisão em 2 anos. Rangnick foi um jogador com uma carreira muito modesta. Ao cabo de mais de meia dúzia de anos, o então jogador formado no Estugarda, nunca conseguiu alinhar numa divisão profissional. Como treinador, pode iniciar a carreira em 1983, aos 25 anos, ao leme ao serviço do Victoria Backnang, o penúltimo clube pelo qual tinha passado anos antes enquanto projecto de jogador. Nas duas temporadas em que orientou o clube, Rangnick até o despromoveu ao 7º escalão do futebol alemão. O sonho do futebol tinha desistido para o homem que estaria destinado a conquistar 4 troféus nos 30 anos que se seguiram. Em 1987, após 2 anos de sabática para completar os seus estudos no ensino superior, Rangnick decidiu voltar ao futebol para dar uma segunda hipótese a si mesmo no também modesto Lippoldsweiler. De Lippoldsweiler ao Estugarda, em 12 anos, o treinador fez várias escalas com sucesso em clubes como o Korb, o Reutlingen e o Ulm, clube no qual viria a conquistar em 1998, a Terceira Divisão da Alemanha. Em 2 temporadas, o modesto clube ascenderia à Bundesliga, tendo conseguido até hoje apenas 1 presença nesse escalão. Rangnick seguiu viagem até Estugarda, o primeiro grande apeadeiro da sua longa carreira. Em Estugarda, o técnico conquistou a entretanto extinta Taça Intertoto em 2000 (a tal que Jorge Jesus tanto se gaba de ter conquistado em Braga) mas, no campeão, obteve resultados muito modestos com uma equipa que contava nas suas fileiras com jogadores como Timo Hildebrand (em início de carreira), o central brasileiro Bordon, o lateral direito Andreas Hinkel, o central angolano Rui Marques, o lateral esquerdo internacional croata (integrante da selecção quarta classificada no Mundial de 1998) Zvonimir Soldo, o nosso bem conhecido Krassmir Balakov, o sul-africano Bradley Carnell, o bielorusso Aliaksandr Hleb (também em início de carreira), o metrónomo hungaro Kristjan Lisztes, o luso-descendente Roberto Pinto (do qual líamos as façanhas ao domingo no jornal), e o avançado romeno Ganea.

De Estugarda, Rangnick lançou para a Hannover, clube que promoveu à primeira liga em 2002. De Hannover, o globetrotter do futebol alemão haveria de poisar na modesta cidade de Hoffenheim para replicar os feitos alcançados nas últimas temporadas. Mais tarde, o técnico, actualmente com 58 anos, haveria de orientar o Schalke em 2 ocasiões. No clube de Gelsenkirchen, Ralf conquistou uma Taça da Alemanha, uma Taça da Liga e uma Supertaça Alemã. Actualmente, é director desportivo do Leipzig, clube que viria a subir à Bundesliga na temporada 2015\2016.

Qualquer semelhança com o percurso do actual treinador do Hoffenheim Julian Nagelsmann é pura ficção!

A brilhante temporada de 2007\2008

Dietmar Hopp decidiu dotar o plantel do clube com a matéria prima essencial para terminar a empreitada iniciada em 2000. Com um desiderato traçado na sua mente, a subida à Bundesliga, o empresário gastou 18,95 milhões de euros nas contratações de Carlos Eduardo (7,5 milhões ao Grémio) do nigeriano Chinedu Obasi (jogador muito importante na fase de solidificação de estatuto do clube na 1ª liga; 5 milhões ao Lyn da Noruega), Demba Ba (avançado que viria a fazer uma grande carreira no clube, no Newcastle e no Chelsea; 3,2 milhões aos belgas do Excelsion Mouscron), do central sueco Per Nilsson, de Vedad Ibisevic (o killer Bósnio; uma pechincha de 1 milhão ao Alemania Aachen), Marvin Compper (200 mil euros ao Borussia de Monchengladbach), e Luis Gustavo (jogador que foi resgatado ao Corinthians por 1 milhão de euros; em 2011 a venda do médio ao Bayern renderia 17 milhões de euros aos cofres do clube). Todos os citados seriam importantíssimos na subida do clube nesse ano (2º lugar na Bundesliga) num campeonato que até ficou marcado por um péssimo arranque de campeonato com 1 empate em 4 jogos. Nas 19 jornadas seguintes, Ragnick conduziria o clube da 16ª posição ao 2º lugar.

vedad ibisevic

Vedad Ibisevic, o killer bósnio.

 Demba Ba, a pérola negra do rio Neckar.

Ba não era um avançado perfeito. Não era um jogador aceitável do ponto de vista técnico (como centenas de avançados africanos) mas tinha duas características tão clássicas destes que o destacaram durante anos: era maciço que nem uma pedra, fortíssimo no jogo aéreo, incisivo no ataque à profundidade, possante nas arrancadas que promovia no 1×1 e finalizador q.b na área. Viria a protagonizar mais tarde uma das melhores duplas da Premier (versão Século XXI) com o seu compatriota Papiss Cissé (jogador que também catapultou a sua carreira a partir do futebol alemão) no Newcastle.

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