Algumas notas relativas à vitória do Real no Superclássico


Dizer que o Barcelona fez um mau jogo no Santiago Bernabeu é uma afirmação algo redutora para tudo aquilo que os catalães fizeram no plano ofensivo durante os 90 minutos. Claro que na 2ª parte, o maior domínio dos catalães ao nível de posse de bola foi consentido por um Real que já estava claramente a aproveitar o momento para descansar em campo e de certo modo, formatar o chip para o arranque da Liga Espanhola no próximo fim-de-semana. No entanto, os catalães desperdiçaram golos atrás de golos (em alguns lances faltou uma pequenina pontinha de sorte), mostrando, ao longo dos 180 minutos, um irracional e anormal comportamento na área adversária, quer ao nível das decisões de último passe tomadas, quer mesmo ao nível da finalização propriamente dita. Noutro prisma, este Barcelona de Ernesto Valverde tem um comportamento defensivo a anos-luz do comportamento que foi exibido com outros treinadores. Falta de pernas? Muita. Parte do mau comportamento defensivo exibido pelos catalães nas duas derrotas frente ao Real pode explicar-se pela óptica do estado miserável de condição física em que se encontram grande parte dos seus jogadores. Se retirarmos o argentino e o uruguaio da equação (ambos foram de longe aqueles que mais pernas tiveram ao longo dos 180 minutos) existiram jogadores que terminaram a “eliminatória” literalmente de gatas.

Do jogo saliento alguns pormenores interessantes que me saltaram à vista.

asensio

Umtiti põe a bola no pés do bandido que já tinha feito estragos na primeira mão. No lance do primeiro golo, o central francês (na partida da noite de ontem, actuou a lateral) faz um corte incompleto para os pés de Asensio. Sabendo de antemão que o médio tem um fortíssimo remate de meia distância, ao ficar a meio do caminho (o antigo jogador do Lyon não quis  para não dar as suas costas para uma eventual desmarcação que pudesse ser feita por um dos avançados do Real) o gaulês outorgou ao extremo sub-21 espanhol a real possibilidade de encher o pé esquerdo para fuzilar Marc Andre Ter Stegen. 

  • Os catalães voltaram a dar muito espaço de manobra aos merengues no meio-campo. Na primeira parte, Luka Modric fez gato sapato de André Gomes. Cheguei a ter pena da figura de palhaço pela qual estava a passar o rapaz em campo. Nos primeiros 25 minutos, a formação catalã abriu uma autêntica cratera à entrada da área. Claro que para isso também contribui o enorme trabalho que é desenvolvido por Karim Benzema, quer nos apoios frontais que oferece à equipa, quer nas circulares que executa para os corredores, movimentações que obrigam os centrais a sair na pressão e a equipa adversária no geral a vascular mais do que é normal. Quando vai às alas, o francês procura sempre estender o jogo para a entrada do jogador vindo de trás (por norma Marcelo, em acção de sobreposição; por vezes é Isco quem vai beneficiar dos passes do avançado nos corredores quando executa os seus movimentos divergentes, ou seja, movimentos sem bola do corredor central para as alas) de forma a criar uma boa oportunidade de progressão e\ou de cruzamento (sem oposição) para esses jogadores.
  • A equipa catalã continua a demonstrar, alguns défices ao nível de posicionamento a meio-campo, alguma lentidão a pressionar e até alguma indefinição no que respeita a zonas de pressão. Esta não é a equipa que habitualmente pressiona o portador em 1,15s assim que perde a posse da bola. Nos últimos 15 minutosc do primeiro tempo, vi André Gomes, Rakitic e Busquets a chegar fora de tempo a vários controlos defensivos. Este quarteto de médios do Real (Kroos, Isco, Modric, Casemiro; até posso incluir Matteo Kovacic ao barulho, apesar do croata ainda ser um jogador que tem tendência a agarrar-se em demasia à bola; vícios adquiridos seguramente quando jogava mais à frente no terreno no Inter) é uma pandilha que consegue facilmente fazer circular o esférico de uma ponta à outra (de um flanco a outro; a toda a largura do terreno) num intervalo de tempo entre os 4,8 e os 5,5 segundos (sim, cronometrei o tempo em 4 jogadas) em 4 ou 5 toques de primeira. Quando os adversários caem no portador, já a bola se encontra “safa” nos pés de outro jogador, com espaço para criar. Quando os adversários são rápidos a pressionar, Zidane pede aos jogadores para executarem mais roaming de forma a baralhar a marcação adversária.
  • Dar espaço, não pressionar ou executar más recuperações para a defesa sempre que o Real recupera a posse no seu meio-campo, é suicídio para qualquer equipa. Já percebemos que a formação merengue é fortíssima nas transições (quer para o contragolpe, quer em ataque organizado; em ataque organizado, a história é outra; esses são os momentos em que Toni Kroos e Isco sobressaem) porque grande parte dos seus jogadores estão claramente a simplificar o seu jogo. Vejam-se as rápidas acelerações promovidas por Lucas Vazquez. Veja-se o pragmático jogo que Marco Asensio tem vindo a promover: corre e chuta. Aparece na área e chuta. Desmarca e chuta.

A simplificação das acções por parte dos jogadores do Real

Enquanto Cristianinho Devedor ainda se encontrava a dar duas beijocas na mamã Dolores (a tal que se esqueceu do menino na consoada de Natal em casa), já Marcelo, Asensio e Modric praticavam a simplificação de acções à moda do madeirense. A prova de que é possível criar uma jogada de perigo a 3 toques.

  1. Marcelo lança a desmarcação de Asensio para as costas de Sergi Roberto.
  2. Sem parar de correr, o extremo aproveita o caminho para ler o jogo, ou seja, para perceber quem é que vai entrar e quando, tarefa que lhe vai simplificar a tomada de decisão.
  3. Colocação na galopante entrada de Modric para remate de primeira do croata. O médio eslavo costuma ser altamente eficaz neste tipo de lances. Asensio tomou a melhor decisão possível no limitado tempo que possuía para pensar e executar. Bola colocada no timing certo para a entrada do (pressionado) médio croata. Se Asensio tivesse porventura demorado mais 0,5 segundos na colocação daquele passe, o lance ter-se-ia perdido.

Esta acção demorou 7,2 segundos a ser construída. Sim. 7,2 segundos!

Mais jogadas de acções simplificadas (permitidas por uma cobertura posicional atabalhoada por parte dos médios do Barça) em lances nos quais os merengues procuraram sempre a progressão com um futebol em profundidade. Do minuto 2;20 ao minuto 4:49 do vídeo acima postado.

Anúncios

7 opiniões sobre “Algumas notas relativas à vitória do Real no Superclássico”

  1. «Enquanto Cristianinho Devedor ainda se encontrava a dar duas beijocas na mamã Dolores (a tal que se esqueceu do menino na consoada de Natal em casa)»

    Num blog que pretende fazer uma análise táctica séria e comentário futebolístico focado no que realmente interessa – o jogo – eu só pergunto… qual é o sentido da inclusão deste parágrafo?

    Gostar

      1. Para ser uma piada, faltaram-lhe duas características fundamentais: pertinência, e graça.
        Assim, enfiada de chofre num texto sem qualquer cariz humorístico, parece é ter outras motivações. O blog é que perde.

        Gostar

      2. Acho que está no sítio errado para ter esta discussão. Se me lê regularmente, deve porventura saber que aqui não se escreve sobre mexericos extra-futebolísticos.

        Gostar

  2. Jogar com 3 centrais quando não se tem laterais capazes de defender e atacar com precisão (por cansaço ou falta de rotinas) é meio caminho andado para a desgraça.
    Mas aquilo que constatei nos 2 jogos é algo que não vemos no grande ecrã. Falta de confiança, de crença.
    Não sei se será apenas a saída de Neymar mas este Barça parece uma equipa derrotada e a cada falhanço notava-se um semblante de descrédito que não me recordo de ter alguma vez visto naqueles jogadores.
    Não sei se os muitos milhões que gastarão farão grande diferença ou se Valverde tem “unhas”, como se costuma dizer…

    Gostar

    1. O 3X5X2 inicial do Valverde foi uma completa aberração. Concordo. Nem o Samuel Umtiti nem mesmo o Sergi Roberto (jogador que já leva um ano de balanço naquela posição) são jogadores para aquela posição. Atacam mal (o Umtiti nem sequer tem rotinas de posição ou valências técnicas que lhe permitam ocupá-la) e defendem ainda pior. Por mais que lhe peçam, o Sergi Roberto não consegue fazer o que o Dani Alves fez durante tantos anos: fixar-se no último terço nas costas do lateral adversário), ficar à espera da abertura do Iniesta para entrar na área com bola (prontinho a finalizar) e desequilibrar através do drible ou de tabelas com o interior. O posicionamento defensivo dos dois é desastroso. Sempre que pode, no jogo de ontem, o Umtiti colou-se aos centrais. O Sergi Roberto deu imenso espaço nas suas costas ao Marcelo.

      Ainda bem que toca nessa questão. Ainda hoje pensei sobre isso. A novela que se gerou em volta do Neymar e a própria transferência poderá ter deixado sequelas no plantel. O Busquets ainda ontem afirmou que o clube necessitava de ir ao mercado porque a equipa “perdeu qualidade no sector ofensivo”. A saída do jogador naturalmente enfraqueceu o plantel. Neymar não era a principal referência da equipa mas era um desequilibrador. Tanto o jogo do Messi como o jogo do Suarez perdem com a saída do brasileiro. Ao longo dos anos, os vários treinadores trabalharam uma série de movimentações que agora ficam completamente sem efeito porque falta uma peça na engrenagem. Ele não fazia a diferença per se (nos últimos meses, sempre que tentava driblar adversários, quase sempre ficava sem a bola) mas ajudava a fazê-la em conjunto com os restantes. Quando ele procurava o interior, abria espaço porque promovia arrastamentos junto do adversário. Quando eles o procuravam para fazer a tabela (aquela que permite a entrada na área nas costas da defesa, para finalizar sem pressão adversária), ele estava lá. Quando o Jordi Alba o procurava no interior para fazer uma combinação 1×2 que lhe permitisse ganhar a linha de fundo, ele estava lá. O Barça também perdeu um jogador que fazia muitos golos e que dava muitas assistências. Qualquer que seja o jogador que o venha a substituir, obrigará a equipa a ter que se readaptar ao estilo de jogo.

      Não creio que o Valverde não tenha potencial para treinar bem esta equipa. Tem. O modelo de jogo que ele promovia em Bilbao não era muito diferente daquele que ele irá promover em Barcelona. Valverde é um treinador que gosta que a equipa comece a construir a partir de trás, gosta que a equipa assuma as despesas de jogo e que controle o jogo a partir da posse de bola. Gosta de ter uma âncora de circulação a meio-campo (Busquets encaixa perfeitamente nesse papel) e também gosta de ter um meio-campo e um ataque no qual, todos os jogadores devem sentir-se livres para colocar toda a sua criatividade em campo.

      Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s