Antevisão à 72ª edição da Vuelta – o Traçado – 1ª parte


Vuelta

A 72ª edição da icónica Vuelta a España partirá para a estrada no próximo sábado, dia 19 de Agosto, em Nîmes, França, com a realização de um interessante contra-relógio por equipas de 13,7 km. Depois de se ter iniciado em Lisboa em 1997 e em Assen (Holanda) em 2009, esta será a 3ª vez que a prova se irá iniciar fora de território espanhol. A partida da prova em território francês já era um cenário desejado há muitos anos quer pela Amaury Sport Organisation (a entidade que organiza o Tour, entre outras provas de world tour, 1HC, 2HC e escalão 1 e 2 Continental que se realizam ao longo do calendário velocipédico internacional; empresa que comprou os direitos de organização da prova espanhola) quer por algumas comunas das regiões do Sul de França. Ao longo dos últimos anos, vários foram os autarcas e edis de comunas francesas que se deslocaram à sede da EPA (Éditions Philippe Amaury, a empresa-mãe do grupo Amaury) para apresentar vários projectos aos principais responsáveis pela organização da prova. A meio da 71ª edição, o director de corrida Javier Guillém anunciou que a edição deste ano teria o seu arranque na cidade de Nîmes, prevendo portanto para além da etapa inaugural a realização de outra etapa em solo francês.

nairo quintana 3

O vencedor da geral individual de 2016, Nairo Quintana será o principal ausente na edição de 2017. Na presente temporada de 2017, o vibrante trepador colombiano da Movistar já esgotou toda a sua reserva de combustível no Giro (prova onde, recorde-se, obteve um decepcionante 2o lugar atrás de Dumoulin) e no Tour, prova onde, apesar de não se ter apresentado como favorito à conquista (Nairo foi na expectativa de trabalhar para os objectivos de Alejandro Valverde) foi obrigado a ter que assumir a liderança da equipa logo na 1ª etapa devido à dramática queda sofrida por Valverde no chuvoso contra-relógio de Dusseldorf.

A ausência de NairoMan da prova espanhola irá retirar-lhe naturalmente espectacularidade (qualquer grande prova ressente-se com a ausência de um grande ciclista do pelotão internacional) mas essa perda será naturalmente disfarçada se olharmos para a quantidade de ciclistas que se apresentam com pretensões à geral. O ciclista que à partida se apresenta como principal candidato à conquista da prova é Chris Froome. O inglês mantém com a prova espanhola uma relação muito curiosa: apesar de se ter destacado pela primeira vez na prova Espanhola em 2011, o inglês da Sky nunca venceu a geral individual. Com 2 segundos lugares obtidos em 2011 (aquele surpreendente resultado que colocou toda a imprensa a perguntar como é que um semi-desconhecido ciclista de 25 anos tinha saltado de um palmarés sem triunfos de maior para um surpreendente 2º lugar numa prova de 3 semanas) e um 4º lugar em 2012 (ano em que Froome ofereceu literalmente uma vitória no Tour ao seu companheiro e chefe-de-fila Bradley Wiggins) Froome tentará conquistar uma prova que está intimamente ligada à sua ascensão à elite do ciclismo mundial.

Durante a semana, em entrevista à Cycling Weekly, o ciclista britânico pode revelar algumas das suas expectativas em relação à prova e enumerar aqueles que pensa poderem vir a ser os seus rivais na prova espanhola.

Deixando por ora de parte qualquer análise às escolhas realizadas pelos directores desportivos das várias equipas em prova, às ambições e aos momentos de forma expectáveis dos ciclistas que correrão pela Roja durante 21 dias intervalados por 2 dias de descanso, neste primeiro post de antevisão iremos abordar, à imagem e semelhança dos posts de antevisão que pude escrever em Maio e em Julho, para o Giro e para o Tour, o traçado da prova espanhola.

E que traçado!

Quando pude dar, há cerca de um mês, o primeiro olhar sobre o desenho da prova, fiquei claramente esclarecido em relação à ausência de muitos dos melhores sprinters da actualidade. Com 5 etapas de alta montanha, 8 etapas de média montanha, 1 contra-relógio individual e um contra-relógio colectivo, o desenho da prova de 2017 não oferece muitas oportunidades para os sprinters que se apresentem na estrada. Para além da inexistência de muitas oportunidades para os sprinters (em média, as grandes provas de 3 semanas apresentam 8\9 etapas de plano) as etapas em terrenos planos não serão corridas numa ordem sequencial nem terão chegadas à medida de muitos sprinters! Pode-se até mesmo dizer que até nas etapas planas, existe “subida a mais” para muitas pernas habituadas à vertigem dos blocos. A primeira aparecerá à 2ª etapa, a segunda na 4ª e a terceira só será corrida na 9ª, se bem que esta 9ª etapa não será à partida discutível por muitos visto que tem uma chegada num pequeno muro. Pelo meio, os ciclistas terão que fazer uma primeira abordagem (muito dura, a meu ver) à média e à alta montanha nos Pirinéus franceses e espanhóis e junto à faixa litoral da costa da Comunidade Valenciana.

Regressemos porém a Nîmes para iniciar esta verdadeira odisseia:

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Os contra-relógios colectivos estão de regresso às grandes provas. A ASO decidiu porém não magoar as equipas que não apresentam no seu colectivo bons roladores. A organização francesa abandonou as duras “pazadas” organizadas no passado no Tour (os contra-relógios colectivos de 50 e 60 km que provocavam 3 e 4 minutos de mossa nos corredores das equipas que se apresentavam com conjuntos formados essencialmente por trepadores ou homens vocacionados para o trabalho na alta montanha) para oferecer um tiro de arranque que fará algumas diferenças para a geral logo no primeiro dia (poderá fazer diferenças na casa de 1 minuto entre alguns dos candidatos) sem contudo poder ter o poder de retirar de combate algumas unidades.

Nesta primeira tirada, formações como a BMC de Samuel Sanchez, Tejay Van Garderen, Rohann Dennis, Nicolas Roche e Daniel Oss, a Lotto-Soudal de Bart deClerq, Thomas deGent, Jens Debusschere, Tomasz Marzynski, Jelle Wallays e Adam Hansen, ou a Quickstep de Niki Terpstra, Julien Alaphillippe, Yves Lampaert, Bob Jungels e Matteo Trentin serão na minha opinião as grandes candidatas à vitória. Outras formações como a Movistar (onde se inclui o nosso Nelson Oliveira) ou a Sunweb de Warren Barguil poderão eventualmente realizar bons tempos porque tem nas suas fileiras bons roladores\razoáveis contra-relogistas. Por outro lado, o CRI inicial será muito prejudicial para equipas com muitos trepadores no seu seio. A AG2R de Romain Bardet, a Astana de Fabio Aru, a Bahrein de Vincenzo Nibali, e a Trek de Alberto Contador poderão vir a preencher os últimos espaços da folha de resultados.

De Nîmes, a caravana saltará no 2º dia de prova até Narbonne. Num total de 203 km, os ciclistas terão uma oportunidade para esticar as pernas antes do inferno que se segue em Andorra. Se nenhuma fuga vingar ao longo dos 203 km, a etapa será discutida ao sprint.

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Seguimos viagem para os pirinéus, mais concretamente para os Andorrenhos. A 3ª etapa será o primeiro teste às aspirações de todos os candidatos. Numa curta tirada de 158,5 km (sem chegada em alto) os candidatos serão testados ainda em território francês numa primeira abordagem de 1ª categoria logo no início da etapa no Col de La Periche, antes de penetrarem pela primeira vez em território espanhol para logo de seguida fazerem uma breve incursão ao Principado de Andorra, território que ainda é chefiado (em teoria) pelo presidente da República Francesa em união com um co-príncipe da Igreja local.
Na ponta final da tirada, o “acessível” Col de la Rabassa (1820m; pendente média de 6,8% de média numa extensão total de 13,3 km) e o duríssimo Alto de La Cornella (4,3 km a 8,6 de pendente média; uma 2ª categoria muito mais exigente que as contagem de primeira anteriormente ultrapassas rampas de 15% de inclinação nos primeiros 2 km) serão as primeiras grandes dificuldades desta Vuelta. A etapa não termina em alto. Após a passagem pela Cornella, os ciclistas terão aproximadamente 7 km de descida até à meta instalada em Andorra-a-Velha.

Entrando definitivamente em território espanhol, a prova segue para Engordany na Catalunha na 4ª tirada. Daquela localidade, a caravana parte para a 2ª das 6 etapas de plano. A chegada ao Anel Mediterrâneo de Tarragona poderá ser complicado até para os sprinters. À chegada prevê-se a possibilidade da existência de ventos frontais que poderão deixar as suas marcas em quem não se apresentar bem colocado nos quilómetros finais da tirada. A corrida poderá ser marcada por algum nervosismo por parte de algumas equipas.

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De Tarragona viajamos para baixo no mapa, mais concretamente para Benicassim, vila turística inserida na província de Castellón e na região da Comunidade Valenciana. Em Beniccasim, vila que para além da enorme afluência de turísticas em época balnear tem para oferecer um dos mais importantes festivais de música do mundo, os ciclistas correrão um rally um verdadeiro rally de 4 etapas de grau de dificuldade acrescido. Na primeira das quais, com chegada ao alto de Alcossebre, avizinha-se uma etapa de média montanha para trepadores e puncheurs. Não sendo de todo descartável a hipótese de vir a vingar uma fuga numa tirada com 5 categorias de montanha de 2ª e 3ª  (há homens de sobra no pelotão para este tipo de etapas; ciclistas como Luis Angel Mate, Alessandro DeMarchi, Joe Dombrowski, Davide Villela, Thomas deGent, Maxime Monfort, Jack Haig, Omar Fraille, José Gonçalves) creio que a etapa será decidida em grupo reduzido no árduo muro de Alcossebre. Rui Costa poderá na minha opinião triunfar na etapa se conseguir entrar bem posicionado na subida final porque a subida é curta, pede pouca explosão (4,2% de pendente) e como tal encaixa-se naquela tipologia de subidas que são do agrado do ciclista português da UAE.

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De Vila-Real a Sagunt, o cenário não sofrerá grandes mudanças. A etapa continuará a ser corrida num agradável sobe e desce para trepadores e puncheurs e terá um final mais acessível onde um ou outro sprinter até poderão aparecer para discutir a vitória. John Degenkolb, Sacha Modolo, José Gonçalves, Juan Joaquim Rojas, Sam Oomen e Eduard Theuns poderão passar a exigente 2ª categoria do Puerto del Garbi. Os 9,2 km a uma pendente média de 5% poderão ser apetecíveis para um ou outro atrevidote de 2ª linha colocar um ataque para a vitória na etapa. Do Puerto del Garbi até ao final, o(s) ciclista(s) que passarem na frente terão uma longa descida até à meta de 36 km. A descida permite a recuperação de um ou outro sprinter que se mantiver por perto na passagem pela 2ª categoria.

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A 7ª etapa parece à primeira vista fácil e destinada a uma chegada ao sprint. No entanto, temos que atentar que grande parte do percurso é corrido em altitude (bem próxima dos 1000 metros) num falso plano que poderá trazer algumas dificuldades para alguns sprinters e para alguns roladores. Esta será a etapa ideal para todos aqueles que tentarem sair numa fuga. A 3ª categoria presente no final poderá ser de extrema dificuldade para os sprinters que conseguirem permanecer na frente da corrida. Pese embora o facto de ser uma subida curtíssima de 2 km, o Alto del Castillo tem uma pendente média de 7,2%, com uma rampa máxima de 9%.

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A última tirada desta sequência de 4 na média montanha tem um final muito duro com 3 contagens categorizadas e uma não categorizada nos últimos 95 km. Esta etapa deverá ser aproveitada por todos os candidatos à geral para marcar tempos em relação à concorrência. A ascensão final ao Xorret de Catí é uma subida com um grau de dificuldade alto que pode marcar diferenças consideráveis entre ciclistas no final da etapa. Arrisco-me a dizer que se Froome, Nibali ou Bardet estiverem com pernas para atacar bem a subida, podem facilmente ganhar 1 minuto ou até minuto e meio a toda a concorrência.

Este poderá ser portanto o momento chave da corrida para Christopher Froome. O inglês adora este tipo de subidas para fazer a diferença, de maneira a poder amealhar tempo que lhe poderá permitir aplicar a estratégia usualmente aplicada pela sua formação nos últimos anos, ou seja, controlar a corrida nas etapas de montanha da 2ª e da 3ª semana através da colocação de muitas unidades na frente e de um andamento alto suficientemente desencorajador para a execução de ataques por parte dos outros grandes candidatos. Tendo apenas 5 km de extensão, ao 2º km de subida, o terreno inclina-se e de que maneira para uns infernais 11 metros de subida em relação ao nível do mar a cada 100 metros percorridos, para subir ainda mais no 3 km nas duríssimas rampas de 18% a 21% que só voltam a aliviar no último km, corrido entre os 12 e os 7%!!

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Na 9ª etapa, antes do primeiro dia de descanso, a chegada ao Cumbre del Sol (Benitatxell) tem muito que se lhe diga. A esmagadora parte da tirada é corrida num agradável plano. Os últimos 60 tem porém duas armadilhas que podem apanhar “muito bons candidatos” (um cenário um pouco à semelhança daquela etapa no Tour em que Aru perdeu a amarela porque não entrou bem colocado no muro de Isère-Sur-Romans) na rede. A 2ª categoria no Alto de Puig é relativamente fácil (3 km a 9% de pendente) mas a chegada a Benitatxell poderá apanhar na curva os mais destraídos ou despreocupados com o posicionamento porque se trata de um verdadeiro muro ao estilo da Flandres com esta “doentia” aparência…

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Christopher Froome é um dos ciclistas que sabe o que é passar dificuldades no início da subida final. A subida em si pode obrigar os ciclistas a terem que colocar várias velocidades ao longo da subida. Como se sabe, o ciclista britânico e não só (Stefan Kruijswijk ou Bob Jungels são ciclistas que sofrem das mesmas vicissitudes) não gostam de subidas corridas em ritmos incertos ou recheadas de pequenos ataques, preferindo aquelas que podem ser corridas a ritmos estáveis e constantes.

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Na chegada a Múrcia, haverá decerto Jamón e Pata Negra de qualidade para todos os sprinters que conseguirem ultrapassar as duas subidas em linha estacionadas nos últimos 40 km da etapa. Tanto o Alto del Morrón de Tutana como a primeira categoria na subida ao Collado Bermejo (7,7% a 6,5%) serão de difícil alcance para qualquer sprint. Mais uma vez, Rui Costa poderá ter uma palavra a dizer se conseguir passar na frente no último obstáculo. Eu acredito que o ciclista português poderá finalmente alcançar mais uma ou até duas vitórias em etapa em grandes voltas se a coisa correr muito bem. Já lá vamos no 2º poste dedicado a esta antevisão.

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Javier Guillén e Fernando Escartin (responsável de pesquisa da ASO para Vuelta) andaram a gozar com a malta na descrição das etapas. Escartin, antigo trepador (de fibra, o gajo não vergava) da Kelme fez um óptimo trabalho: quando as etapas ditas de “plano” são etapas que na sua esmagadora maioria tem contagens de 2ª e 1ª são apelidadas “planas” e quando as etapas qualificadas como “média montanha” são mais exigentes que algumas tiradas de alta montanha do Giro ou do Tour, só podem estar a brincar com a malta.

A 11ª tirada, corre-se numa planície linda de morrer até aos últimos 40 km. A partir da subida ao Alto de Velefique, os ciclistas entram noutro inferno sem fim. O Alto de Velefique já é por si complexo com os seus 13,2 longos quilómetros em rampas que rondam os 9%. Segue-se ao Alto uma curta descida para a subida ao Observatório Astronómico de Calar Alto de Almería, plateau cujo topo está 2100 metros acima do nível do mar. A subida é longa e é exigente. Posso até mesmo afiançar que a subida ao observatório é muito parecida ao nível de extensão e exigência à subida à Serra da Estrela pelo lado de Seia. Ao todo são 15,5 km a 5,8% de pendente média. Quem quiser realizar um ataque de longa extensão poderá lucrar no final da etapa.

Em 2004, Roberto Heras foi ao observatório mirar a camisola Roja que viria a ser sua no desfecho final da prova.

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Na média tirada que liga Mótril a Los Dólmenes a coisa foi mais simplificada. Existe uma primeira categoria no Porto de Leon que em princípio não provocará diferenças de maior e no final da tirada, a menos de 36 km da chegada, haverá direito a uma 2ª categoria de 8 km de extensão de 7% que poderá ser atacada ou não por parte dos primeiros da geral. Eu aposto que será atacada. A etapa não termina em alto. Seguem-se 18 km de descida e plano até los Dólmenes.

Sem dificuldades de maior, a 13ª etapa (Coin-Tomares) será finalmente “dedicada” a todos os bravos sprinters que resistirem à enganadora “média montanha” – como quem espera sempre alcança, pode ser que as suas equipas ainda tenham pernas para anular eventuais fugas de roladores que venham a sair logo nos primeiros quilómetros da tirada.

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3 montanhas categorizadas (uma 3ª, uma 2ª e uma 1ª) de 2 não categorizadas marcam o que Guillén e Escartin consideram alta montanha. A subida a Sierra de La Pandera, aguçada no apetite por uma 2ª categoria exigente no Alto de Valdepenãs, é uma subida bem conhecida de toda a aficción. 12 km com uma pendente média de 7,2% (rampas máximas de 13, pese embora, uma boa parte da subida seja feita em rampas de pendente constante de 7, 9 10 e 11%.

Sierra de La Pandera é um lugar comum a várias edições da Vuelta.

Em 2003, Alejandro Valverde ganhou a Felix Cardenas e Roberto Heras lá no alto. Heras viria a conquistar nesse ano a 2ª das suas 4 vitórias na geral da prova.

Em 2009 Damiano Cunego ganhou a tirada. Alejandro Valverde viria a carimbar a sua única vitória em grandes voltas.

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No dia anterior ao entorpecedor ou moralizador ou até deprimente (para quem esteja à beira do abismo ou para quem possa sentir alguma agonia no dia anterior) a clássica ascensão a Sierra Nevada, mais concretamente ao Alto Hoya de la Mora Monachil (antecedida pelas Hazallanas) é o momento ideal para ajustar contas ou para majorar ainda mais as perdas de alguns ciclistas.

Na Sierra Nevada, muitas lágrimas de alegria ou de tristeza já foram derramadas por muita vedeta desta modalidade. Das lágrimas de alegria que foram derramadas por vários ciclistas, lembro-me perfeitamente do semblante de alívio e de posterior euforia que correu pelo rosto do alemão Bert Dietz.

O alemão penou em cima da bicicleta cerca de 200 km em fuga para conquistar a tirada à justa e com a benevolência de Laurent Jalabert. Na subida para a Sierra Nevada, a ONCE acelerou o andamento e Laurent Jalabert tratou de atacar para ganhar tempo a Abraham Olano, Michele Bartoli, Roberto Pistore, Marcos Serrano e Richard Virenque. Jaja e Olano viriam a apanhar o homem que sofria a bom sofrer na frente para conquistar aquela que foi a sua maior vitória da carreira. Em cima da linha de meta, quando tudo previa a vitória de Jalabert (era melhor finalizador e vinha mais fresco) Jaja teve uma atitude muito humana ao oferecer a vitória ao ciclista da Deutsche Telekom.

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Para voltar a activar os músculos após o dia de descanso, nada melhor que um duro contra-relógio de 40 km entre o circuito de Navarra e Logroño. Para quem vem de um dia de relativo descanso (os ciclistas saem dos hóteis apenas para fazer um curto treino de “manutenção” muscular) este dia pode ser altamente decisivo. Tratando-se de um contra-relógio plano e longo, Chris Froome terá à partida um dia para elevar a contagem para alguns dos principais perseguidores ou para recuperar o que eventualmente possa ter perdido na montanha. Romain Bardet, Domenico Pozzovivo, Fábio Aru, Vincenzo Nibali, Marc Soler, Carlos Betancur, Adam Yates, Simon Yates, George Bennett, Steven Kruisjwijk, Warren Barguil, Alberto Contador podem perder tempos entre 1 minuto e meio até 3 minutos e meio se Froome estiver em dia sim. Já Tejay Van Garderen, Bob Jungels, Samuel Sanchez, Wilco Kelderman, Ilnur Zakarin, Rein Taaramae e Julien Alaphillippe tem condições para poder fazer tão bons ou melhores registos que o inglês.

Na luta pela vitória na etapa estarão certamente os especialistas. Rohan Dennis, Tejay Van Garderen, Brendan Canty, Tobias Ludvigsson, Svein Tuft, Bob Jungels, Yves Lampaert, Niki Terpstra, Rein Taaramae, Stef Clement, Gianni Moscon, Chad Haga, Lasse Norman Hansen e até o nosso Rafael Reis (quem sabe?) são nomes a ter em conta para a vitória de etapa. À primeira vista creio que esta será a oportunidade perfeita para Tuft ou Haga.

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Para desmoer no crono, há que voltar à luta na alta montanha. A 17ª tirada da prova liga Villadiego a Los Machucos. Esta é a primeira das 4 tiradas de montanha que compõem o epílogo da prova. As duas subidas que compõem os últimos 28 km de corrida são de uma dureza extrema: o Puerto de Alisas tem 10 km de extensão a uma pendente média de 6% (rampas sempre a rondar os 7% a partir dos 1500 metros de subida) enquanto o Alto de los Machucos tem a autêntica doideira que podemos ver na imagem…

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Sim, viram bem. Nos primeiros 3 km existem duas rampas de 25 e 26%. Há um pequeno descanso a meio da subida, para depois se iniciarem mais rampas de 12 a 15%. De loucos!

Segue aos Machucos uma etapa de aparente descanso (só mesmo aparente) entre Suances e Santo Toribio de Liébana com 4 contagens de montanha de 3ª e 2ª categoria nos últimos km, com especial destaque para a rampa que termina a etapa (3,2 km a 6,4%) porque poderá ser outro dos momentos que pode ser aproveitado pelo nosso Rui Costa para sorrir e subir ao pódio no final da etapa.

Na 19ª etapa, a caravana segue para as Astúrias. Vivinhas e cruas. No conhecido ponto do território espanhol em que o Rei das Astúrias Pelagio se refugiou com todos os cristãos e dali partiu, mais concretamente do seu quartel general nos Lagos de Covadonga (a Vuelta não passará pela icónica subida que tantas delícias fez aos amantes da modalidade ao longo de muitas das 71 edições do passado da Vuelta) para a reconquista de todo o território então dominado pelos muçulmanos, seguir-se-à o insano epílogo desta Volta.

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Quando comparada com a 20ª e penúltima etapa, a chegada a Gijón é uma brincadeira de meninos. A única dúvida que possuo é a dúvida se alguns sprinters conseguem ultrapassar a 3ª categoria que está instalada a 14 km da meta. Creio que sim. Poderemos ter uma chegada em sprint massivo se nada de anormal acontecer.

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Sábado, 9 de Setembro. O dia pelo qual todos os amantes do ciclismo esperam: o regresso de Vincenzo Nibali ao maior pesadelo da sua carreira – o Alto do Anglirú.

Caminho de cabras em terra batida entretanto alcatroado nos anos 80 para fins recreativos, o Anglirú é provavelmente a mais difícil subida de todo o planeta. Ir ao anglirú é como ir à meca do ciclismo. Na primeira vez que pude subir o Anglirú (está claro que tinha um pulmão que hoje não tenho; apesar de ter deixado de fumar; conto portanto em tentar subi-lo mais uma vez) não o consegui subir sem parar.

O duelo mais fratricida da história do ciclismo moderno. Níbali fez tudo para descartar Horner mas o velhote de 41 anos não quis perder o sonho de uma vida na penúltima etapa.

A 21ª etapa será a clássica etapa de consagração em Madrid. A etapa terá os habituais 117,6 km. Nos últimos 45 km, o pelotão terá que cumprir 9 voltas ao circuito que que termina no coração de Madrid na Plaza Cibelles. Para nosso profundo pranto, deveremos assistir às últimas pedadalas da carreira profissional de Alberto Contador.
 

 

 

 

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