Vuelta – 3ª etapa – Vincenzo Nibali vence na primeira grande selecção de candidatos


No principado de Andorra, à 3ª etapa, as contas saíram furadas a Christopher Froome, apesar do ciclista britânico ter ascendido à liderança da geral. Sinto-me um bocado frustrado por não ter escrito no primeiro post de antevisão um pressentimento que tive quando pude avaliar pela primeira vez o seu perfil: era óbvia a possibilidade do inglês vir a atacar a subida para o Alto De La Cornella para começar a “desenrolar” a clássica estratégia de domínio da Sky. Com uma etapa tão dura logo no 3º dia, a presença da Sky na frente da corrida nos seus momentos decisivos (a ascensão a La Rabassa, a ascensão ao alto de Cornellá) acusava uma estratégia tão clara como a água: o inglês iria atacar na subida final para tentar cumprir 2 objectivos: chegar à liderança da prova, de preferência com alguma vantagem (pelo menos 30 segundos) para os seus principais adversários para poder colocar a sua equipa na frente a controlar a corrida.

Os planos do ciclista inglês (e da formação britânica) acabaram por ser contrariados por 6 homens. A saber:

  • Esteban Chavez, no momento em que o inglês lançou um ataque mortífero.
  • Romain Bardet e Fabio Aru – ambos decidiram não ir ao choque quando o inglês atacou, preferindo aproveitar a descida para recolar.
  • Tejay Van Garderen e Nicholas Roche – Se os 2 BMC não tivessem executado um excelente trabalho na descida, Vincenzo Nibali não teria chegado à frente em condições de disputar a vitória na etapa.
  • Vincenzo Nibali – o italiano valeu-se do facto de ser o melhor finalizador de todos os ciclistas no grupo para voltar a ganhar tempo a todos os rivais.

Uma etapa duríssima de pré-selecção de candidatos e aspirações

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Como pude escrever no primeiro post antevisão (linkado no cabeçalho) a primeira etapa das muitas etapas de montanha que a ASO desenhou para este Tour seria o verdadeiro teste de capacidades para muitos ciclistas. Se alguns dos homens que puderam chegar na frente surpreenderam-me por completo (não estava por exemplo à espera dos resultados obtidos por Esteban Chavez ou David de La Cruz), posso dizer também, por outro lado, que outros me deram uma enorme desilusão (Alberto Contador à cabeça; outros como Luis Meintjes, Bob Jungels, Stefan Kruisjwijk, Marc Soler, Warren Barguil, Rafal Majka). A primeira etapa de montanha veio portanto a provar quem é que está neste momento com capacidades para discutir a vitória na prova (Froome, Aru e Bardet, Chavez)), quem é que poderá discutir a vitória na prova se eventualmente melhorar daqui em diante (Nibali, Van Garderen), e quem é que passará grande parte dos dias em fuga. A quantidade de derrotados do dia de hoje levou-me inclusive a pensar que a luta para a camisola das bolinhas azuis (montanha) poderá ter mais candidatos do que a geral individual, tal será a quantidade de nomes que começará a aparecer nas fugas nas etapas de montanha.

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As hostilidades abriram na subida para La Rabassa. Se até aí o ritmo de corrida até vinha a ser inferior à mediana horária prevista pela organização, e na frente, uma fuga de vários ciclistas (entre os quais: Alexandre Geniez e Alex Domont da AG2R, Davide Villela da Cannondale,  Fabricio Ferrari da Caja Rural, Thomas “what else” deGent da Lotto-Soudal, Anthony Turgis da Cofidis e Fernando Orijuela da colombiana Manzana Postobon) chegou a ter 5 minutos e meio de vantagem em relação ao pelotão na dura rampa de  6,8% de média numa extensão total de 13,3 km, a Sky de Chris Froome tentou começar a pré-seleccionar o grupo. A verdade é que na primeira incursão à frente, a formação britânica arrumou do top 10 dois possíveis candidatos: Marc Soler e Bob Jungels. O campeão luxemburguês apanhou uma carga de 7 minutos no final da etapa. Já a prestação do catalão Soler deu razão a todos aqueles que afirmaram que para a geral, Eusébio Unzué só tem um nome em cima da mesa, o de Daniel Moreno Fernandez. Mesmo assim, os 54 segundos averbados pelo experiente ciclista espanhol levam-me a crer que a Movistar quer ser um leão com um bando de gatinhos que nem bigodes tem para serem tigres.

Mesmo assim, Unzué quis animar a corrida quando a 40 km, mandou António Pedrero lançar-se ao ataque. O jovem espanhol ainda tentou amedrontar a Sky com dois ataques mas não viria a ter grande sucesso.

O atrevimento de Rui Costa e Darwin Atapuma. Ninguém se atreva a criticar a ousadia e o rendimento do ciclista português da UAE.

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A passar por boas sensações, o nosso Rui Costa tentou mexer na corrida na Rabassa com a ajuda do seu colega Darwin Atapuma. O ritmo então colocado pela Sky não convidava ninguém a tentar por o seu controlo em causa. Mesmo assim, apoiado pelo colombiano, o nosso grande ídolo tentou mexer (e mexeu com a corrida) com um generoso ataque que visava, quicá, vencer a etapa e até tentar ganhar tempo suficiente para tentar atacar a liderança da prova. Como o português é um ciclista muito perigoso, e Darwin Atapuma colocou, durante um par de quilómetro, um andamento surreal para as rampas que os dois estavam a ultrapassar, a Sky optou por não lhes dar um palmo de terreno. Assim que os dois foram apanhados, a UAE ainda permaneceu na frente do pelotão até ao sprint intermédio instalado a 13 km da meta.

Pelo meio, a fuga inicial desmembrou-se quando Axel Domont tentou seguir em solitário. Assim que o jovem da AG2R foi alcançado, a formação de Laurent Biondi lançou Alexandre Geniez ao ataque. Davide Villela respondeu e o uruguaio (o mítico uruguaio!) Fabrizio Ferrari ainda andou uma data de quilómetros na sua companhia até ao momento em que o terreno o impossibilitou de continuar.

Coloquemos uma prolepse na narrativa até aos 13 km para a meta, altura em que o sprint intermédio colocado a poucas centenas de metros da subida final para o Alto de Cornellá revelou as intenções de Froome.

Com a UAE na frente disposta a fazer passar os seus 3 principais corredores nas primeiras posições do sprint intermédio, Chris Froome saltou de trás com um companheiro para limpar alguns segundos que viriam a ser importantes para o desfecho da geral individual no final da etapa. Os segundos conquistados por Froome permitiram-lhe ascender à 1ª posição da geral com menos 2 segundos que um trio de corredores. Assim que o terreno voltou a inclinar, a sua máquina decidiu colocar o pé no acelerador para eliminar mais concorrência indesejada.

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Foi aí que Alberto Contador cedeu. O espanhol não lutará pela geral na sua última participação. Assim que o madrileno se apercebeu que não tinha gasolina para continuar a perseguir os vários grupos que se formaram na frente em virtude do autêntico desmembramento produzido pelos froomeanos, El Pistolero decidiu poupar energias. Estou certo que o veremos cheio de energia na 2ª semana para começar a atacar etapas e quem sabe o próprio prémio da montanha.

A aceleração promovida acabou por cortar da lista outras tantas personalidades. Barguil a ritmo de passeio também deveria estar a pensar na quantidade de etapas que poderá vencer na próxima semana. Meintjes (UAE) ainda tentava espernear para não perder o contacto. Bardet sentia algumas dificuldades quando era captado pelas objectivas dos repórteres de imagem das motas mas acabou por subir no grupo para se manter mais atento. Os irmãos Yates estavam completamente na corda bamba. Ilnur Zakarin já era visto em posição mais recuada e de Rafal Majka, nem sinal. O polaco da Bora perdeu 2:35 minutos no final. Por contrapartida, David de La Cruz (Quickstep) mostrava mais um pouco daquele estoicismo que tanto aprecio, Esteban Chavez continua a ser uma verdadeira lapa colada à roda de Froome e homens como Michael Woods, Rui Costa e Daniel Moreno lutavam para perdurar o máximo de tempo possível.

Quando o último homem de reserva ao serviço de Froome (indicador precioso: tanto Poels, como Rosa como Nieve estão com um pavio algo curto; bom indicador por exemplo para as equipas que conseguiram meter 2 homens na frente; a AG2R e a BMC) Gianni Moscon pegou ao serviço, tratou de rachar o grupo principal em dois. Lá atrás, De la Cruz e Rui Costa ainda uniram os cacos durante algumas dezenas de metros. No entanto, o caminho estava aberto para o vigoroso ataque de Froome.

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O inglês deverá ter ficado surpreso quando viu Esteban Chavez segui-lo com cara de “no pasa nada, tio” enquanto Bardet e Aru decidiram não responder de imediato. Aru viria porém a unir os dois grupos antes do final do alto. Num 2º grupo estavam homens como Nicholas Roche, Domenico Pozzovivo, Tejay, Nibali e David de La Cruz. Mais atrás seguiam os irmãos Yates (poderão assumir um papel muito importante em conjunto com e\ou em prol de Chavez; a Orica poderá facilmente ter um trio de desgaste na frente) e Michael Woods (a assumir claramente uma postura e um rendimento digno de quem está na Vuelta para finalmente chegar ao topo dos trepadores da actualidade) na companhia de Nieve. Completamente arredados da discussão ficariam Zakarin, Daniel Moreno, Meintjes e Igor Antón, apesar da prestação de Antón revelar uma enorme disponibilidade para vir a trabalhar num resultado no top10.

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A fantástica junção realizada ao duo que seguia na frente, nos 7 km de descida, por Aru (novamente em excelente forma física) e pelos dois homens da BMC, permitiram ao “Tubarão de Messina” lançar-se nos últimos 400 metros para a vitória de etapa. Nibali mostrou ao longo das duas subidas que ainda não está num extraordinário momento de forma apesar de estar a caminhar para isso. Prevejo portanto que o Tubarão venha a crescer de dia para dia. A vitória na 3ª etapa irá dar-lhe muita moral para os dias complicados que se avizinham com as terríveis chegadas ao muro de Alcossebre e a subida ao Xorret de Catí (Costa Blanca).

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Froome subiu à liderança mas tem a coisa presa por um fio para David De La Cruz, Nicholas Roche e Tejay Van Garderen. Bastará por exemplo a vitória num sprint intermédio por parte de um destes ciclistas para a liderança ser devolvida às suas equipas.

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Quanto às outras classificações:

  • Na montanha, Nicolas Roche perdeu a sua liderança para Davide Villela. O italiano da Cannondale somou 12 pontos ao longo da etapa. Alexandre Geniez e Thomas deGent somaram 10. Esta classificação sofrerá muitas voltas nos próximos dias.
  • Nibali é o novo líder dos pontos. O italiano soma 31, mais 6 que Yves Lampaert da Quickstep. Matteo Trentin é o 3º com 24.
  • Chris Froome lidera a classificação combinada. Esteban Chavez (Orica) é 2º. Nicolas Roche 3º.
  • Na geral colectiva, a Orica é primeira com mais 1:05s que a Sky. Estas serão à partida as duas formações que lutarão taco-a-taco pela vitória na geral colectiva. A Astana é 3ª a 1:56m.
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