Vuelta – 5ª etapa – Alexei Lutsenko reforçou o seu estatuto no alto de Alcossebre


“É uma grande vitória para a minha carreira” – destacou à chegada o jovem casaque de 23 anos. Não duvido nem discordo da afirmação porque o palmarés exibido pelo atleta assim o afirma. Não quero com isto dizer que o palmarés de Lutsenko seja um palmarés pobre em vitórias porque de facto não o é. Um ciclista de 24 anos (grande parte dos ciclistas atinge a sua “maioridade competitiva” aos 26 anos) que já venceu etapas em provas tão competitivas como o Paris-Nice, a Volta à Suíça, o Tour de L´Avenir (Volta à França do Futuro), o montanhoso Giro Valle D´Aosta, e que já atingiu pódios nas gerais individuais de outras como os 3 dias de Panne (prova de preparação para o Tour de Flandres) tem de possuir alguma qualidade.

À partida para esta Vuelta, eu sabia no meu íntimo que o combativo e possante corredor da Astana poderia ter uma multiplicidade de oportunidades para continuar a afirmar-se como um dos mais interessantes corredores da nova geração do ciclismo mundial. Não esperava porém que o ciclista o conseguisse fazer no seio de um grupo onde “morava” tanta qualidade. Não sendo um trepador puro (tem potencial para vir a melhorar visto que é um ciclista muito combativo e muito possante que se adapta bem a qualquer tipo de terreno, sem esquecer também a sua fisionomia de 1,75m\68 kg; se perder algum peso, o ciclista casaque poderá melhorar o seu rendimento na montanha) Lutsenko “tem muito” do seu compatriota e director desportivo Alexandre Vinokourov. Uma das características “partilhadas” por ambos é a coragem para atacar sem temer qualquer consequência que possa derivar dos seus ataques. À semelhança de Vino, Lutsenko também é um ciclista que não se enrodilha em questões tácticas ou energéticas quando tem que lançar um ataque: vai e pronto.

Na chegada à difícil rampa de Alcossebre (Alto da Ermita de Santa Lúcia; 3,4 km a 10%) o atleta casaque da Astana concretizou uma vitória construída num audaz ataque realizado na companhia de 2 mais ciclistas nas contagens de montanha anteriores à final, fintando por completo outros nomes que pareciam à partida mais talhados para discutir a vitória na rampa final.

No que concerne à geral, na subida final, Chris Froome pode fazer mais uma pequena selecção na “sua corrida particular”.

alexei lutsenko

Qualquer leitura da corrida tem que ser forçosamente dividida em dois planos: o da fuga e do pelotão (luta pela geral individual).

A terrível rampa de 10% (uma 3ª categoria!!) de pendente média estabelecida pela organização a escassos 3,5 km da meta, seria obviamente passível de poder provocar diferenças entre os vários contenders à geral. Quando vi pela primeira vez a composição dos grupos que rodavam em fuga na frente (já depois de Lutsenko ter feito a cisão em dois grupos quando fugiu na companhia de Marco Haller da Katusha e Matej Mohoric da UAE) pensei que os 50 segundos de vantagem que o trio da frente possuia em relação aos mais directos perseguidores seria um mero avanço facilmente anulável para ciclistas como Marc Soler ou Ruben Fernandez (Movistar), Julian Alaphillippe (Quickstep), Matvey Mamykin (Katusha), Davide Villela (Cannondale; líder do prémio da montanha e assumido candidato à vitória final neste prémio) ou Valerio Agnoli (Bahrain-Mérida). No entanto, Lutsenko desafiou todas as probabilidades e venceu com inegável categoria.

vuelta 26

Assim que estes corredores se puseram em fuga logo no início da etapa na companhia de mais 9 corredores de várias equipas (ao todo estavam 15 das 22 equipas presentes representadas na fuga) o pelotão desinteressou-se da investida e entregou o trabalho de vigilância da diferença e perseguição à Sky. Nenhum destes ciclistas fazia perigar em teoria a camisola vermelha de Froome. Jetse Bol da Manzana Postobon era à partida para etapa o ciclista mais bem classificado a mais de 6 minutos de Froome. Alaphillippe era o 2º melhor colocado a mais de 8 minutos. A Sky só necessitou de ir para a frente sempre que a fuga roçou uma vantagem em torno dos 7 minutos. Pesem embora as limitações actuais de Alaphillippe (está na Vuelta a recuperar lentamente da lesão que o atirou em Março para fora da competição durante meio ano), pelo sim, pelo não, a formação britânica desconfiou e trabalhou (sectorialmente) no sentido de não dar abévias ao ciclista francês da Quickstep.

lutsenko 4

Com uma investida a meio da etapa, Lutsenko separou-se do grupo inicial na companhia do sprinter Marco Haller e do rolador Matej Mohoric. O que inicialmente parecia ser uma tentativa precoce de criar problemas a Alaphillippe, veio a tornar-se num caso sério. Quando o francês decidiu, na penúltima montanha do dia, sair da companhia do numeroso grupo com o eritreu Merhawi Kudus Ghebremedhin, Alexis Gougeard da AG25 (outro que anda na Vuelta à procura da melhor vitória da sua carreira) e Marc Soler, já parecia ser tarde. Por momentos, o grupo perseguidor ainda chegou a ter o grupo da frente a dois palmos de distância, mas, a distância cavada pelo trio (entretanto reduzido a duo por falta de pernas de Mohoric) era suficiente. Kudus, ciclista que entretanto realizou uma cisão no grupo perseguidor na companhia de Gougeard, bem tentou alcançar Lutsenko (que entretanto tinha deixado Haller para trás) durante a escalada.

Lá atrás, no pelotão, parecia reinar a bonança. Sem aparente ponta de interesse na etapa por parte das equipas dos candidatos à geral, a Sky aparentava um enorme ar de tranquilidade na dianteira do grupo. Tivemos que esperar até aos 4 km para ver as primeiras movimentações. Com a colocação de 2 homens na frente, a BMC parecia estar disposta a aniquilar a ténue desvantagem de 2 segundos detida por Tejay Van Garderen em relação a Froome. Os cortes provocados pela aceleração promovida pela formação luxemburguesa levaram muitos homens a descolar numa fase bastante precoce da subida, cortando o pelotão em vários grupos.

A Sky sentiu portanto que teria de tomar o pulso à corrida para evitar o desenrolar de um guião que poderia ser nocivo aos interesses do seu chefe-de-fila. Foi aí que Mikel Nieve pegou ao serviço e instalou um insuportável ritmo que levou à queda irreversível de “fruta da grossa” como Romain Bardet (perdeu mais de 50 segundos para Froome; o francês ocupa actualmente a 12ª a 1:37m; creio que o francês não poderá perder mais tempo neste tipo de etapas para não correr o risco de sair fora da luta pela vitória) ou Steven Kruijswijk, e conduziu a situação para uma tentativa de ataque por parte, imagine-se de Alberto Contador. Enérgico na frente da corrida, El Pistolero, confirmou que já recuperou dos problemas estomacais que lhe toldaram o rendimento durante o fim de semana. Na frente veio a formar-se muito rapidamente um grupo composto por Froome, Contador, Michael Woods (o homem quer muito mais do que um lugar no top10), Esteban Chavito Chavez (o colombiano voltou a ser a sombra de Froome), Van Garderen e Adam Yates. Nibali, Aru, Kelderman, Zakarin, de La Cruz, Barguil e Simon Yates seriam excluídos da festa, e acabaram, no final, a somar segundos preciosos para o inglês.

Os únicos que acabariam por finalizar com o mesmo tempo de Froome acabariam por ser Michael Woods, Esteban Chavez e Alberto Contador. Tejay Van Garderen perderia 8 segundos, Adam Yates, Aru e Zakarin 12, Vincenzo Nibali 26.

Rui Costa chegou na 33ª posição a 5:08, resultado que permitiu ao ciclista da Póvoa do Varzim dar um pulo na classificação até ao 21º lugar a 2:35m de Froome.

A geral ficou assim ordenada após a 5ª etapa.

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A única mudança registada nas restantes classificações deu-se na geral colectiva. A Astana ascendeu à liderança com mais 1:58m que a Movistar e 2:01m que a Sky. A dupla de italianos Davide Villela da Cannondale e Matteo Trentin da Quickstep continua a liderar, respectivamente, o Prémio da Montanha e o Prémio dos Pontos. Chris Froome continua a liderar a Classificação Combinada.

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