O perigoso precedente aberto pelo “caso Neymar”


Não querendo de maneira alguma questionar a infinita qualidade do jogador (Ousmane Dembelé já é neste momento um dos maiores criativos do futebol mundial) bem como o seu potencial futuro (o extremo é na minha opinião um grande candidato ao Prémio de Melhor Jogador do Mundo quando Cristiano Ronaldo e Lionel Messi pendurarem as suas chuteiras), mas sim o valor pago pela sua contratação, creio que este foi o perigoso precedente aberto pelo PSG na contratação de Neymar. Os parisienses colocaram muito dinheiro nas mãos de um só clube. A colocação de 222 milhões nas mãos dos catalães, levará muitos clubes a perspectivar a maximização dos ganhos dos jogadores que interessam ao Barça. Assim sendo, um jogador cujo valor de mercado rondava os 60 milhões no máximo, acaba por sair pelo obsceno valor de 105 milhões mais 45 milhões em variáveis se o jogador alcançar as metas estipuladas no contrato. Gerou-se portanto um incontrolável efeito bola de neve no qual o “mesmo dinheiro” andará descontroladamente à solta por todo o mundo, sem que as máquinas burocráticas fiscais do estado possam reclamar o seu quinhão.

Os valores relativos a esta transferência representam uma inflacção de 85% (se não contarmos com as variáveis) em relação ao racional valor de mercado do jogador. Seguindo esta lógica, qualquer jogador que possua um racional valor de mercado de 20 milhões, passará a ter um valor de mercado nunca inferior a 37 milhões. Um jogador que valha 50 milhões de euros, passará a valer 92,5. Um jogador como Cristiano Ronaldo, jogador com um valor de mercado fixado facilmente nos 300 milhões de euros (se considerarmos por exemplo o incalculável valor que o jogador rende ao nível de imagem) poderá ser transferido por 550 milhões de euros.

Este fenómeno deverá obrigar, como já tive oportunidade de escrever, a uma maior intervenção das máquinas fiscais dos Estados no futebol. Há muito dinheiro à solta que pode ajudar os Estados a distribuir melhor a riqueza pelos seus cidadãos, em particular, sobre as classes sociais mais desfavorecidas. Como fenómeno que mexe diariamente com o rendimento de milhões de cidadãos por esse mundo fora, o futebol não pode pura e simplesmente viver num mundo à parte. A sociedade não pode portanto exigir ao cidadão o pagamento de um imposto por cada passo que este dá no mundo, ao mesmo tempo que deixa passar, pela outra porta, valores desta ordem.

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