Vuelta – 9ª etapa – Froome voltou a ser rei e senhor desta Vuelta no Alto de Puig de Llorença


Intratável. Obstinado. Confiante. Dominador. No Alto de Puig de Llorença, ascensão que abrilhantou o final da 9ª etapa (a última antes do primeiro dia de descanso, cumprido durante esta segunda-feira) o grande patrão do ciclismo mundial voltou a demonstrar quem é que manda nesta Volta à Espanha.

Eu não sou nem nunca fui grande fã de Froome, antes pelo contrário, sempre o odiei e nunca percebi como é que um ciclista semi-desconhecido que nada tinha feito de positivo na sua carreira até aos 25 anos, conseguiu de um momento para o outro, conquistar um 2º lugar na geral de uma prova de 3 semanas (Vuelta de 2010; o melhor resultado até então obtido numa grande volta tinha sido um modesto 36º lugar no Giro no ano anterior) e partir desse resultado para um verdadeiro ciclo de dominação sobre toda a sua geração. Confesso também que ao longo dos últimos anos fui um dos questionou seriamente (quando pude ver o ciclista a limpar etapas no Tour com uma cadência monstruosa) a “limpidez das suas prestações” – tive momentos em que pude ver nas suas prestações alguns lugares-comuns ao rendimento outrora demonstrado por Lance Armstrong no Tour. A cadência imprimida pelo inglês nos ataques que lhe deram as primeiras vitórias no Tour assim o faziam suspeitar. O rendimento do corredor da Sky não era de todo normal. Nesta Vuelta, o ciclista britânico voltou “às suas origens”, ou seja, a uma estratégia em que o ataque é a melhor defesa. Parece-me claro que esta estratégia se deve sobretudo ao facto do inglês não ter uma equipa tão pujante a acompanhá-lo, ou, melhor, uma equipa tão pujante quanto aquela que o acompanha no Tour. No entanto, os ataques realizados nas explosivas rampas que a prova espanhola tem oferecido nesta primeira metade, indiciam que, mesmo apesar de não se encontrar ao mesmo nível de forma em que se encontrava no Tour, sempre que ataca, Froome é melhor que toda a concorrência e não é, tão expansivo e tão denunciado quanto foi no passado Lance Armstrong.

christopher froome 2

Não posso deixar de referir para início de conversa, que a vitória de Froome em primeiro lugar deveu-se à poupança de energia que a sua equipa pode realizar ao longo da etapa. Como a Cannondale de Michael Woods decidiu logo no início da tirada avançar para a frente do pelotão para anular a fuga que entretanto se veio a formar na dianteira; os últimos a serem caçados pelo pelotão foram Marc Soler da Movistar e o sueco Tobias Ludvigsson da Française des Jeux; e para eventualmente conseguir preparar, com proeficiência o eventual lançamento de um ataque do seu chefe-de-fila Michael Woods (as rampas iniciais de 15 a 21% da subida para Puig de Llorença estavam ao alcance das capacidades de Woods) os elementos de trabalho preponderantes da Sky puderam assumir uma atitude semi-relaxada durante toda a tirada e poupar as energias necessárias para acelerar a corrida na aproximação à subida final, facto que veio a acontecer, com um óptimo trabalho de dois corredores: Gianni Moscon e Mikel Nieve.

cannondale

Soler e Ludvigsson bem se esforçaram para tentar perdurar o máximo de quilómetros na frente de forma a chegarem em condições de regatear entre si a primeira vitória das suas carreiras na prova e a primeira vitória das suas respectivas equipas na edição deste ano da Vuelta. A Cannondale não deu tréguas aos dois corredores. Joe Dombrowski foi muito importante neste esforço de perseguição, ao perseguir os dois corredores durante mais de 50 km.

carapaz

Assim que a corrida se começou a aproximar da sua fase de decisão, começaram a aparecer as primeiras movimentações na frente da corrida (as subidas em bloco de formações como a BMC, Bahrain, Sunweb e Trek para a frente do pelotão) e os primeiros ataques. O mais expressivo, já durante a subida final, foi o ataque iniciado por Romain Bardet que arrastou o equatoriano Richard Carapaz (Movistar) e o espanhol (maiorquino) Enric Mas da Quickstep. Os sucessivos ataques realizados pelo sul-americano da Movistar deram-me a entender que o ciclista de 24 anos tem um enorme potencial que pode ser explorado pela formação de Eusébio Unzué, representada na Vuelta pelo antigo ciclista da Banesto Chente Garcia Acosta. Carapaz é um ciclista muito explosivo e muito resistente, capaz de lançar ataques em andamentos frenéticos. Tenho a sensação que se for bem treinado nos próximos 2 anos, poderemos estar aqui perante um ciclista com capacidades para se tornar num sério candidato ao top 10 de uma grande volta.

Bardet, Carapaz e Mas acabaram por sucumbir ao ritmo certinho de Moscon. A atitude desconfiada e ofensiva dos 3 ciclistas sobrepôs-se ao ritmo certinho e à colaboração que estes deviam ter realizado para escapar o andamento cadenciado do gregário de Froome. Apesar de Romain Bardet estar suficientemente afastado da possibilidade de ainda reentrar na luta pela geral, Moscon não lhe permitiu grandes veleidades porque se apercebeu que embalado e sem resposta, o francês poderia facilmente ter ganho 30 ou 45 segundos à frente da corrida nos 3 km que faltavam percorrer. O gregário de Froome decidiu portanto jogar pelo seguro: mesmo a 7 minutos é preferível manter Bardet o mais afastado possível da discussão pela geral. Após várias investidas, o grupo, já reduzido a 30 e picas unidades, abocanhou a fuga e Bardet nem sequer aguentou o altíssimo ritmo que foi prolongado durante mais uns metros por Mikel Nieve quando Moscon abriu para o lado de cansaço.

Assim que Nieve abriu para o lado, a Bahrain ainda tentou colocar, em vão, um homem que pudesse durante alguns segundos imprimir um ritmo que permitisse a Nibali descansar um pouco na fase menos íngreme da subida para conseguir aguentar as duríssimas rampas de 11 e 9% que a subida apresentava no último km. Contador chegou-se à frente para esgueirar um ataque mas quem veio a atacar foi Christopher Froome. De uma penada, a uma velocidade de 26 km\h, o inglês puxou da 5ª para fraccionar o grupo dos candidatos e não obteve, nos primeiros 10 segundos, qualquer resposta na ponta dos pedais dos adversários. O ataque do britânico foi tão forte e tão demolidor ao ponto de deixar os adversários a olharem uns para os outros à espera que alguém assumisse a perseguição:

vuelta 40

Chavito Chavez foi o único que conseguiu ter força para ir ao choque. O colombiano mostrou mais uma vez que está na Vuelta para tentar ombrear com Froome ou, para, na pior das hipóteses repetir um lugar no pódio final de Madrid. O terceiro classificado da geral da edição de 2016, conquistada pelo seu compatriota Nairo Quintana, cerrou os dentes, expôs a cara ao vento e foi à procura de Froome, chegando até ao inglês quando faltavam 250 metros para a meta. No entanto, o esforço realizado pelo colombiano da Orica veio a provar-se como inglório visto que as suas reservas de combustível terminaram ali. Com um pequeno safanão, Froome, livrou-se novamente do seu principal rival, conquistou confortavelmente a etapa e ganhou mais 14 segundos (4 na estrada + 10 de bonificação) ao seu principal rival.

Ao conseguir acompanhar o ritmo de Chavito, Michael Woods fechou na 3ª posição a 5 segundos. Wilco Kelderman fez uma extraordinária etapa, terminando a 8 na companhia de Ilnur Zakarin. Logo a seguir fechou, a 12, Alberto Contador na companhia de Sam Oomen (grande revelação) e de David de La Cruz da Quickstep. A meio da subida, De La Cruz tentou esboçar um ataque. Nibali perdeu 14 segundos. Aru 17 e Van Garderen 19. A pouco e pouco, Froome vai ganhando o tempo necessário para deixar os seus principais rivais fora de combate.

geral

Rui Costa ficou atrasado muito cedo na companhia de Darwin Atapuma. O ciclista português perdeu 1:22m para Froome. No entanto, o tempo perdido já pouco interessa para o Poveiro. O ciclista da UAE já admitiu numa breve entrevista concedida à Eurosport Portugal que o seu objectivo para a 2ª metade da prova passa pela conquista de uma etapa. Nélson Oliveira continua a ser o melhor português em prova. Apesar de ter terminado na 41ª posição a 2:37m do vencedor, o português é 19º logo a seguir a Steven Kruisjwijk a cerca de 4:50m da liderança.

Christopher Froome assumiu a liderança do Prémio por Pontos. O inglês ultrapassou o anterior líder Matteo Trentin da Quickstep, somando agora 55 contra os 49 pontos do ciclista italiano. Pawel Poljanski da Bora continua a ser o 3º com 44 pontos. Matej Mohoric da UAE é 4º com 43. Esteban Chavez é 5º com 38. A luta pelos “prémio da regularidade” (habitualmente atribuído ao melhor sprinter da competição) continuará, com alguma ironia à mistura, na alta montanha da 2ª metade da prova!

Davide Villela da Cannondale continua a ser o líder do Prémio da Montanha com 38 pontos. O ciclista italiano tem mais 21 pontos que Thomas deGent da Lotto-Soudal e mais 23 que Christopher Froome.

Na geral por equipas, a Movistar viu reduzida a diferença para a UAE. A formação espanhola tem agora 19 segundos de vantagem para a emir UAE Emirates e 4:57m para a Astana.

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