A arquitectura de uma “forma de jogar” doentia



Reparem como, no momento em que Iniesta recebe a bola, Isco sai das costas de Belotti (aproveitando a passividade do avançado; devia ter acompanhado para encurtar espaços; se o tivesse feito, Isco jamais receberia e a Itália poderia até ter recuperado a posse) para aproveitar o enorme espaço que Verratti tem para cobrir dada a posição do seu colega de sector, no “controlo defensivo” a Iniesta. O jogador do Real Madrid aproveita-se desse espaço (indefensável para qualquer jogador) para aparecer, aproveitando posteriormente o movimento balanceado que o médio do PSG fez para lhe cair rapidamente em cima. Verrati é apanhado em contra ciclo. À velocidade a que o italiano vai é muito difícil travar um movimento no sentido oposto. 

Se eu fosse Giampaolo Ventura tirava a equipa de campo e não aparecia para a 2ª parte. Os processos de jogo desta equipa espanhola são absolutamente doentios. Até eu, com a minha parca (não é vasta, mas chega para consumo do que é tido como normal) experiência de análise tive que recorrer a dois cafés para olhar com verdadeiro olho de Falcão para os processos de circulação, para os movimentos de toda a linha ofensiva espanhola (os de Koke terão sido os mais fáceis de analisar durante o primeiro tempo) para poder estar aqui a descrever a “surrealidade do “jogar” desta selecção de Júlen Lopetegui.

Os processos de jogo dos espanhóis resumem-se basicamente a:

  • Proximidade entre as todas unidades da linha média e os 3 homens da frente, jogando os espanhóis com Silva a falso 9. O que quer dizer que os dois durões centrais italianos não tem efectivamente ninguém para marcar e não tem bolas na área para aliviar. Só aí temos portanto dois jogadores estéreis que Lopetegue habilmente retira de jogo.
  • Mobilidade dos 3 homens da frente, em especial de Isco, funcionando o jogador do Real Madrid, à imagem do que já faz no clube, como um joker tanto para a fase de construção (é o primeiro a descer para abrir linhas de passe quer para Iniesta, quer para Busquets, quer até para os centrais quando é um destes que sai a jogar até ao meio-campo contrário.
  • Laterais bem projectados no terreno apesar do jogo ser construído em 90% em terrenos interiores. Sempre que é necessário, a equipa cria engodos de circulação  no interior (para chamar os italianos ao meio) de forma a abrir para as linhas.
  • Mobilidade total de Asensio e Silva por detrás das costas dos médios centros italianos. Como os italianos estão a defender no seu 4x4x2 com linhas compactas (a primeira linha, compostas por dois avançados não dá muita ajuda para além dos esforços de pressão à saída de jogo espanhola) já não tivessem que se preocupar com o tiki taka que decorre alegremente à sua frente, e com o bailar de mobilidade de Isco para fornecer linha de passe, tanto Daniele De Rossi como Marco Verrati tem ainda que se preocupar constantemente com o buzz que Silva e Asensio fazem nas suas costas.
  • Se um dos médios italianos sai para pressionar, o outro fica com imenso espaço para cobrir.
  • Se os italianos sobem as suas linhas para intensificar a sua pressão, Iniesta trata imediatamente de os castigar com passes verticais (em profundidade) para as desmarcações de Silva ou para as entradas de Asensio na cintura da área.
  • Se um dos laterais italianos eventualmente fecha ao meio, em 2 toques, a Espanha cria oportunidades para colocar a bola nas subidas dos laterais até ao último terço.
  • Se os italianos abrem arriscam-se a correr atrás da bola (a toda a largura do terreno) como correram ao minuto 42 (dica para quem puder puxar as imagens na sua box)
  • Pressão e contra-pressão super aos italianos que os obriga a ter que jogar obrigatoriamente pelos corredores.
  • Se os italianos porventura conseguem colocar um ataque rápido pelas alas (já colocaram 3 ou 4 pela ala direita à procura da velocidade e do drible de Candreva), a transição defensiva dos espanhóis é relativamente rápida. Se a bola morre em algum jogador, já a equipa espanhola recuperou totalmente no terreno e está em condições de interferir para recuperar.
  • Se os italianos não conseguem colocar o ataque rápido, a equipa fica completamente sem ideias para jogar. Como os dois avançados não tem qualquer mobilidade e nenhum dos médios ala entram entre as linhas adversárias (estão a passar o jogo enfiados nos centrais) os médios ficam secos de opções de passe.

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