Vuelta – 14ª etapa – Rafal Majka triunfa numa subida animada à Sierra de La Pandera


Veni, vidi, vinci! Assim que Rafal Majka perdeu um tempo significativo para os candidatos à geral individual na 3ª etapa em Andorra, no meu íntimo, confirmei a sua presença nas fugas nas etapas de montanha. Para vencer na dura subida de 13,7 km (categoria especial; pendente média de 7,3%) a La Pandera, na primeira das duas etapas explosivas de alta montanha que a prova oferece para este fim-de-semana, o chefe-de-fila da Bora só precisou (praticamente) de ser mais forte que todos os seus colegas de fuga na subida final e de manter um ritmo vivo para conseguir gerir a magra vantagem de minuto e meio que dispunha para o pelotão no início da subida

Numa extensa subida (parecia que nunca mais acabava) marcada por muitos ataques, por muita táctica, pela habitual vigilância e marcação entre os vários competidores da luta pelos primeiros lugares da geral e de muito jogo de cintura na hora de puxar, quem saiu a lucrar foi novamente Miguel Angel López da Astana. Com um ataque bem sucedido nos últimos 2 km, “Superman” López voltou a ganhar genica para tentar fazer pela vida de forma a poder subir mais uns lugares na geral. O colombiano voltou a ser a grande surpresa da jornada. Depois de ter conquistado uma etapa, o jovem de 23 anos apareceu em La Pendera com forças para continuar a sua cruzada até aos lugares cimeiros. 

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Para poder explicar melhor os acontecimentos que a etapa nos ofereceu, preciso novamente de recorrer ao habitual método de “separação das águas”, ou seja, separar, em trechos diferentes, os diferentes acontecimentos da fuga do dia e da luta particular pela vitória na geral da prova.

O início da tirada foi novamente marcado pela saída de uma numerosa fuga. A encabeçar a numerosa escapada que saiu aos 20 km da etapa estiveram, como antevi no post de ontem, o líder da montanha Davide Villela da Cannondale (à procura de pontos para defender ou reforçar o seu estatuto), o seu colega de equipa Simon Clark, Rafal Majka e Patrick Konrad (dois dos três trepadores da Bora), os nossos Rui Costa (UAE; excelente prestação do português; lutou com quantas armas teve para conseguir triunfar no topo da Sierra de La Pandera) e Ricardo Vilela (Manzana Postobon) , Alexis Gougeard (AG2R), Luis Angel Mate (Cofidis), Bart de Clerq (Lotto-Soudal) e Stefan Denifl (Aqua Blue Sport). Neste grupo de imensa qualidade, Majka apresentava-se, em teoria como o homem mais capaz para poder vencer a etapa se o pelotão, comandado a meias nas primeiras horas de corrida pela Quickstep de David de La Cruz e pela Sky do líder Christopher Froome, viesse a anuir tal possibilidade na entrada para a longa subida final, inclinação que em alguns sectores tinha rampas máximas na ordem dos 15 a 18%.

O pelotão deixou a fuga ganhar espaço ao longo da etapa. À passagem da 3ª categoria, no Puerto El Mojón, “puerto” onde o primeiro a passar foi, por razões óbvias Davide Villela, os fugitivos tinham 7 minutos de vantagem para a frente da corrida. O pelotão decidiu aí subir o andamento, graças aos esforços empenhados pela Bahrain, pela Katusha de Ilnur Zakarin e pela Astana para o efeito. A equipa casaque destacou Jasper Hansen e Luis León Sanchez para a dianteira do pelotão enquanto a formação russa (com sede na Suíça) decidiu, colocar toda a sua equipa de trabalho na frente. Tanto os ciclistas da formação russa que passaram pela frente como os dois homens da Astana que estiveram mais tempo na dianteira do pelotão\grupo entretanto reduzido cumpriram a missão que lhes fora confiada: no início da subida para a 2ª categoria de Alto de Locubin, numa fase da corrida em que Patrick Konrad quebrou totalmente a harmonia instalada no grupo até aquele momento com a realização de um ataque (levando consigo o seu colega de equipa Rafal Majka, Rui Costa, De Clerq e Villela), a vantagem da fuga reduziu para os 2 minutos e meio. No início da subida final, Rafal Majka e Rui Costa (de Clerq, Villela e Konrad ficaram apeados nas rampas de 14% presentes na passagem por Valdepeñas de Jaén) apenas dispunham de cerca de 1 minuto e 40 de vantagem.

Até ao polaco livrar-se do ciclista português foi uma questão (meramente processual) de um par de quilómetros. Assim que aumentou a sua cadência de pedalada no início da subida, o polaco seguiu marcha para o alto enquanto o português, meio apeado na sua bicicleta, já sem forças, acabou por ser absorvido pelo grupo dos favoritos à geral. No entanto, tenho obrigatoriamente de sublinhar o espírito de sacrifício demonstrado pelo português bem como a sua prontidão para trabalhar na frente do grupo. Rui Costa pode assim contrariar todos os críticos (espanhóis, na sua maioria) que afirmam que o poveiro é um “chupa-ruedas” ou seja, um ciclista oportunista que vai seguindo de roda em roda a aproveitar o trabalho que é realizado por outros ciclistas.

Rafal Majka só portanto que imprimir o ritmo que lhe permitisse gerir a magra diferença de 1 minuto que entretanto se veio a estabelecer para o grupo onde seguia, confortavelmente Christopher Froome.

Não tendo imprimido um andamento muito elevado, a Astana levou a corrida a um ritmo certinho até aos quilómetros finais. No preciso momento em que Luis León Sanchez abriu para o lado, a Sky assumiu as despesas de corrida…

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… até ao audaz ataque de Vincenzo Níbali. O italiano já vinha na dianteira a estudar a possibilidade de sair a qualquer momento. Assim que disparou, o chefe-de-fila da Bahrain, vencedor da Vuelta em 2010, 2º em 2014, teve no curto espaço de segundos, a companhia de Esteban Chavez e Alberto Contador. O colombiano da Orica, 3º à geral a 2 minutos e 13 de Froome, decidiu passar para a frente para alavancar a investida, face ao tempo que estava a ganhar para os seus mais directos perseguidores na luta pelo 3º lugar (Kelderman, Zakarin, Aru e David de La Cruz). A correr na expectativa, tanto o ciclista italiano como o ciclista espanhol iam olhando para trás para ver os estragos provocados e o grau de resposta da Sky. Nenhum. Os dois homens que acompanhavam Froome (Poels e Mikel Nieve) voltaram a não responder à primeira, facto que cumpriu de resto a estratégia que Christopher Froome veio a revelar no final da tirada quando afirmou que a equipa voltou a pretender controlar a diferença sem despender energias que possam vir a comprometer a “etapa rainha de amanhã” na Sierra Nevada:

I was thinking about tomorrow’s [Sunday’s] stage, it’s a big stage so I think it suited us to be a bit more controlled, When Chaves, Contador, Nibali and Lopez attacked, I was confident to stay with Wout Poels and then ride steadier. In the end, that was the right decision. I’m glad I kept some energy back for tomorrow’s [Sunday’s] stage.”

As declarações do britânico levam-me a acreditar piamente na possibilidade de termos o corredor ao ataque durante o dia de amanhã, para arrematar de vez a vitória na geral, visto que na terça-feira (segunda é dia de descanso) o corredor da Sky possui a seu favor um longo crono de 40 km no qual poderá estabelecer diferenças significativas para os demais perseguidores.

Enquanto Níbali e Contador passavam Chavez a patacos poucos metros depois de se terem servido do seu precioso par de pernas para ganhar uma vantagem de aproximadamente 10 segundos, e numa fase em que Aru, Woods e David de La Cruz já se encontravam a perder bastante terreno, o italiano tentou convidar Contador a passar para frente. El Pistolero tinha outra jogada em mente: depois de ter beneficiado do trabalho do colombiano, o madrileno queria beneficiar do trabalho de Níbali para o desgastar de forma a lançar um ataque que lhe permitisse ganhar terreno a toda a concorrência.

Sem apoios (Wout Poels descolou mas voltou a ficar muito perto do grupo onde seguia o seu líder) Froome foi obrigado a carregar Wilco Kelderman e Miguel Angel López no esforço de perseguição movido contra o duo da frente. Num ápice o britânico pode retomar posição, formando-se um grupo no qual tanto Esteban Chavez como Wout Poels vieram a reentrar. A formação deste grupo levou todos os ciclistas ao habitual jogo de marcações entre os candidatos. Wilco Kelderman tentou sair (Contador respondeu). Quando Zakarin deu a entender que ia sair, Contador voltou a colocar o russo no sítio com uma pronta resposta. Parecia que Alberto Contador tinha pernas para tudo e para todos.

Contador só não teve pernas para responder ao explosivo ataque de Miguel Ángel López. Aproveitando uma fase de menor inclinação, o colombiano disse adeus aos seus adversários. A investida valeu-lhe para além da bonificação de 6 segundos relativa ao 2º lugar, ganhos na estrada de 4 segundos para Níbali, Froome, Zakarin e Kelderman, 10 para Contador, 30 para Esteban Chavez (o colombiano perdeu a 3ª posição para Kelderman e a 4ª para Zakarin), 36 segundos para Aru, 46 para Michael Woods, e 52 para David de La Cruz.

A geral individual sofreu portanto alguns retoques:

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