O futebol feminino e o conceito de projecto


sporting feminino

Por Miguel Condessa *

Pegando numa nova modalidade do clube, que gosto bastante e sigo sempre que posso, vou tentar explicar aqui o meu entendimento para aquilo que devia ser o rumo base do clube nas diversas modalidades, sendo depois em cada uma delas aplicada uma componente referente à sua especificidade e uma componente económica derivada do
orçamento próprio da modalidade em questão.

Num clube que se formou para ser tão grande como os maiores da Europa, o Sporting aspira sempre a lutar pelos títulos internos em cada modalidade e, internacionalmente, onde for possível, também! É esse o objectivo do clube, no geral, e deve ser esse o objectivo de cada modalidade, mesmo quando, num dado momento, isso parece longe.
Não se podendo lutar pelo título este ano, que se trabalhe para que isso seja possível num futuro próximo.

Ora o Sporting reactivou a secção de futebol feminino na época passada – 2017/2017!
Foi formada a secção de futebol feminino, foi criado o corpo directivo e o corpo técnico, foi feita a equipa principal, foram formados os escalões de formação e deu-se inicio a um projecto que tem como principal objectivo, como foi dito e vincado, tornar a equipa de futebol feminino do Sporting uma das oito melhores da Europa – quer isso dizer que lutaremos por chegar com frequência e consistentemente aos quartos-de-final da Women Champions League, quiçá até a umas meias-finais! Parece-me um excelente objectivo, ainda que bastante ambicioso para o que era o panorama do futebol feminino nacional no verão passado.

solange

A época decorreu muitíssimo bem e foi um sucesso a 100%. A equipa sénior foi puxada ao limite. Ganhou-se o campeonato principal, numa luta palmo a palmo com o Braga, onde se beneficiou duma vitória em casa com o Braga alcançada no ultimo minuto de penalti.
Ganhou-se a Taça de Portugal, também com o Braga, no prolongamento, num jogoequilibrado onde o Braga chegou a ter períodos de supremacia. Finalmente, ganharam-setambém os campeonatos na formação, fazendo-se assim o pleno. Todos os sócios e adeptos sportinguistas ficaram felizes, cantou-se, dançou-se, deu os parabéns a toda a gente, e a época acabou.
Ponto final.

Arrumada a época 2016/2017, que será sempre lembrada como uma época de enorme sucesso, há que analisar o que se fez de bom e de menos bom, o que se pode melhorar e trabalhar nesse sentido. Vamos para uma nova época, com a participação na fase de grupos da WCL para o apuramento das 11 equipas que faltam apurar para as 32 finais que lutarão pela conquista do troféu. Será uma época mais exigente porque além da luta pelos troféus internos – Supertaça, Campeonato e Taça de Portugal – teremos essa participação na WCL.
É óbvio que muita coisa foi bem-feita pois de outra maneira não teríamos tido o sucesso que tivemos logo no primeiro ano da secção. O plantel, bastante jovem, com algumas atletas ainda com idade júnior, dá-nos uma boa base de trabalho para começar.
Do que eu vi ao longo da época, quer comparando com o Sp. Braga, que foi a única equipa que lutou palmo a palmo pelos 2 troféus da época, quer comparando com o futebol internacional que sigo, o futebol feminino do Sporting apresentou como factores menos bons: uma estatura média baixa, pouco poder físico e ninguém que fosse um bocadinho melhor que sofrível a jogar de cabeça. A juntar a isto, todas as equipas em Portugal apresentam uma intensidade de jogo relativamente baixa para competir internacionalmente – o que também se nota na selecção nacional. Portanto, do meu ponto de vista são estes os pontos a “atacar” para serem melhorados para a nova época.

Para mim o 11 principal do ano anterior… (idades até 31/12/17)
Patrícia Morais (25 anos, 1,77m, 46 intern. A e 16 intern. formação),
Rita Fontemanha (24 anos, 1,62m, 2 intern. A e 22 intern. formação),
Bruna Costa (18 anos, 1,69m, 28 intern. formação),
Matilde Figueiras (21 anos, 1,65m, 2 intern. A e 13 intern. formação),
Joana Marchão (21 anos, 1,61m, 1 intern. A e 26 intern. formação),
Patrícia Gouveia (30 anos, 1,64m, 16 intern. A e 11 intern. formação),
Tatiana Pinto (23 anos, 1,66m, 28 intern. A e 24 intern. formação),
Fátima Pinto (21 anos, 1,69m, 27 intern. A e 25 intern. formação),
Ana Borges (27 anos, 1,62m, 96 intern. A e 27 intern. formação),
Diana Silva (22 anos, 1,60m, 27 intern. A e 28 intern. formação),
Solange Carvalhas (25 anos, 1,61m, 8 intern. A e 2 intern. formação)

(…) era já bastante bom internamente e tinha já uma qualidade individual bastante razoável para competir internacionalmente – a nível da fase de grupos para o apuramento da WCL.

Além destas 11, o Sporting apresentou outras jogadoras interessantes,
Inês Pereira, guarda-redes (18 anos, 1,68m, 17 intern. formação),
Nadine Cordeiro, média (20 anos, 1,63m, 26 intern. formação),
Bárbara Marques, média (19 anos, 1,63m, 22 intern. formação),
Ana Capeta, avançada (20 anos, 1,70m, 14 intern. formação),
Constança Silva, avançada (18 anos, 1,71m, 20 intern. formação)
Foram estas 16 jogadoras que ficaram no plantel, tendo saído todas as restantes.
Subiram da equipa de juniores duas jogadoras, perfazendo assim 18 no plantel:
Joana Martins, média (16 anos, ?m, 15 intern. formação),
Neuza Bezugo, média (18 anos, 1,55m, 21 intern. formação),
Destas 18 temos a considerar que a Patrícia Gouveia foi mãe este verão (só voltará aos treinos mais à frente) e que a Bruna Costa lesionou-se com gravidade na final da Taça de Portugal (só volta aos treinos em Janeiro). Isto deixa a defesa com falta de 1 central de qualidade para substituir a Bruna e o meio campo só com 2 jogadoras de categoria – as duas Pinto.

Assim, pegando no 11 que coloquei acima, e tendo em conta os factores menos bons que indiquei, tendo também em conta que iríamos disputar o apuramento para a CL feminina, eu apontaria como reforços prioritários 2 jogadoras altas e com algum poder de choque, uma para central e uma para jogar a 6. Sendo possível trazer mais alguém de peso, apostaria numa jogadora similar à Ana Borges, rápida e com técnica, para o lado esquerdo ou, não sendo possível, tentaria uma 9 alta e forte, com jogo de cabeça, e passaria a usar a Diana no lado esquerdo – coisa que faz muitas vezes na selecção. Seria nestas 2 ou 3 jogadoras que apostaria mais no upgrade do 11 – teria para já um plantel de 21 jogadoras.
Faria um pequeno esforço numa central extra para substituir a Bruna que voltando em Janeiro perderá grande parte da época, ficando com um plantel de 22 jogadoras. E pronto! Este era o meu plano e com estas 4 contratações, cirúrgicas, teria um bomupgrade da equipa do ano passado, ganhando alguma altura e alguma capacidade dechoque. Completaria o plantel com mais 2 ou 3 jogadoras de um nível similar ao que já
tínhamos ou uma ou outra jovem com potencial de modo a ficar com 24/25 jogadoras – 3 guarda-redes (uma que pudesse jogar nas juniores).

sporting feminino 2

Com este plantel lutaríamos pelos títulos todos internamente e teríamos possibilidades de passar a fase de grupos da WCL – onde se notou a falta de altura e poder de choque no único jogo que perdemos, com o Kazygurt. Depois, o resto já dependeria do sorteio mas o objectivo seria sempre fazer o melhor que conseguíssemos.

Em vez disto o Sporting optou por outra estratégia. Contratou 2 estrangeiras…
Carlyn Baldwin, média (USA, 21 anos, 1,60m, 4 intern. Sub20),
Carolina Venegas, avançada (Costa Rica, 26 anos, 1,66m, 37 intern. A e 11 sub20),
… e 5 portuguesas…
Carolina Vilão, guarda-redes (17 anos, 1,65m, 3 intern. formação),
Matilde Fidalgo, defesa (23 anos, 1,57m, 33 intern. A e 24 intern. formação),
Carole Costa, defesa (23 anos, 1,70m, 86 intern. A e 18 intern. formação),
Mariana Azevedo, defesa (21 anos, 1,68m, não é internacional),
Ana Leite, avançada (26 anos, 1,65m, 45 intern. A)

ana leite

À partida, e daquilo que conheço das jogadoras, nenhuma traz à equipa aquilo que lhe faz falta e que indiquei anteriormente.
Nem a Baldwin tira o lugar a nenhuma das 3 principais meio-campistas do ano passado, nem a Venegas tira o lugar a nenhuma das avançadas, nem à Capeta que é normalmente quem substitui uma das três habituais. Além disso, como suplentes ficam a tapar espaço para as jovens talentosas que temos possam jogar aqui e ali. Do meu ponto de vista para ir buscar estrangeiras têm de ser de uma qualidade que cheguem para serem titulares.
Não acho mal terem contratado a Carolina Vilão, que ainda pode ser guarda-redes das juniores. A Matilde Fidalgo vem do Fófó e é muito similar à Rita Fontemanha; a Carole Costa vem do Cloppenburg, da Alemanha, e é uma boa contratação no sentido da tal central extra que falei; a Mariana Azevedo vem do Valadares Gaia e parece-me mais fraca que qualquer central que tínhamos o ano passado; finalmente, a Ana Leite vem do Bayer Leverkusen e é muito similar à Solange, só que um pouco mais rápida.

Portanto, e é só a minha opinião, claro, não acho que nenhum dos problemas que apontei tenha sido corrigido ou parcialmente melhorado – para mim bastava terem sido minorados que acho que não teríamos perdido com o Kazygurt e teríamos entrado na fase a eliminar da CL – e acho a equipa muito similar ao que era a equipa do ano passado.

ana borges

Eu não sou um entendido em futebol feminino. Não sei dizer “ia buscar a jogadora x ao clube y”. Sigo o futebol feminino porque gosto de ver a beleza pura do futebol e, sendo mais lento, dá para apreciar melhor os detalhes. Vi o WEURO2017 e vi muita jogadora interessante. Dá para perceber bem a défice que temos em intensidade, velocidade e poder de choque e porque a Ana Borges é, para mim, de longe a melhor jogadora – ainda que lhe falte poder de choque mas com 1,60m para ter isso tinha de ser um barril e perdia o resto que tem!

Acho que não há nada a apontar às jogadoras, nos jogos do grupo da WCL, pois deram o máximo e dignificaram muito bem as nossas cores. Mas, penso eu, com outra abordagem às aquisições, podíamos ter conseguido o que nos faltou estruturalmente e podíamos estar aqui, agora, a festejar o apuramento da equipa. E só isso! Se calhar não houve
oportunidade de trazer essas jogadoras… Não faço ideia. Mas a minha opinião sobre as aquisições que se fizeram é a que escrevi: ficou aquém do que eu acho que devia ser, para marcarmos alguma distância para o Braga e para atacarmos este 2º ano internacionalmente também. Para cá penso que dará para lutar pelo título mas não sei como estará o Braga – acredito que estará muito similar, sendo superior em altura e poder de choque. Sei que foram buscar algumas internacionais mas perderam algumas jogadoras importantes também. E nós não perdemos ninguém, a não ser por razões físicas – uma foi mãe e a outra lesionou-se – até aos seus regressos à competição.

Caro leitor, se quiser colaborar com o Meu Caderno Desportivo, pode enviar os seus textos (acompanhados de qualquer suporte em formato de vídeo, fotografia ou audio) para o email quinzenasdecartas@gmail.com

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3 opiniões sobre “O futebol feminino e o conceito de projecto”

  1. Partilho a 100% da sua opinião. Sempre pensei que iríamos atacar jogadoras de porte físico superior para 3 posições-chave (precisamente uma central, uma média defensiva e uma ponta de lança com mais físico). E se pensarmos nos golos que sofremos com as cazaques, temos aí a confirmação dessa carência. Não compreendo a aposta na Carlyn Baldwin e na Carolina Venegas, nessa perspectiva.

    A Mariana Azevedo parece-me um mini-upgrade: inferior à Bruna Costa e ainda mais à Carole Costa, mas melhor por exemplo que a Catarina Lopes (que era terrível ao nível do passe). Faz uma boa suplente.

    Quanto ao Braga, tinha a perspectiva que tinha ficado mais fraco e o jogo de domingo pareceu-me confirmá-lo. Foi o jogo em que por menos tempo estivemos por baixo do jogo de entre os 3 que tive a oportunidade de ver. A minha opinião é que o ano passado conseguimos 2 milagres.

    Uma nota para o ritmo de jogo das principais equipas europeias e para um jogo que o ilustrou na perfeição: o Inglaterra x França do quartos de final foi um jogo de tirar o fôlego, jogado sempre em alta rotação. Ainda existe um fosso grande para encurtar e a falta de competitividade interna não ajuda em nada.

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    1. Acho que partilhamos a mesma opinião em relação ao que se passou, e passa, com o Sporting. 🙂

      Quanto ao Braga, ainda é cedo. Elas perderam várias jogadoras mas foram buscar outras importantes.
      Também acho que tivémos alguma felicidade em 2 jogos o ano passado – no que ganhámos em Alvalade com o penalti no ultimo minuto, onde há um penalti contra nós que passou em claro, e no jogo da final da TP, onde estivemos por baixo várias vezes e na primeira parte o Braga já podia ter a questão arrumada! No entanto fomos superiores no jogo em Braga e só por azar é que não ganhámos. No jogo da Taça, como eu esperava, apresentámos uma equipa com um défice físico grande e foi por isso que o Braga acabou sendo superior. Mas as jogadoras foram fantásticas e lá arranjaram forças para chegar ao empate, depois à vitória, e finalmente para aguentar estoicamente o resultado até ao fim!

      Este jogo da Supertaça foi o primeiro jogo delas! Notou-se que o nosso andamento era muito superior no jogo quase todo. A meio da 2ª parte elas quebraram e não tiveram a garra que nos tem caracterizado. Aquele golo nos descontos foi a machadada final! Acho que perceberam que iam perder. Falta de pernas… O factor Capeta… Perderam o jogo nesse momento!
      Mas vão melhorar!
      Na 3ª jornada vamos a Braga e aí já se vai ver que Braga vamos ter este ano!

      O nosso plantel vai ser um problema porque é muito desequilibrado. Tens, por exemplo, 4 atacantes boas (Ana Borges, Diana, Ana Leite e Solange), 1 suplente de luxo (Capeta), 1 estrangeira internacional que veio com a perspectiva de jogar (Venegas) e uma miúda muito talentosa (Constança). São 7 jogadoras para 3 posições e todas vão ter de jogar. Já no meio campo tens as 2 Pinto (a Tatiana e a Fátima) e todas as outras são muito inferiores. Até voltar a Patrícia Gouveia a coisa é complicada. E mesmo quando voltar, nenhuma das suplentes estará ao nível destas 3. E vamos ver como vai voltar a Patrícia… Na defesa a coisa vai entre o ataque e o meio campo. Nem é forte como o ataque, nem tem os problemas do meio campo. Falta uma alternativa à Marchão. O resto escapa. De GR estamos muito bem!

      Se ganharmos em Braga, no final do mês, o campeonato vai ser um passeio… Penso eu de que!

      SL

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