A hipocrisia de Javier Tebas


javier tebas

Fonte: Mais Futebol. 

A toque de caixa de Josep Maria Bartomeu, dirigente que poderá ter comprometido no caso Neymar a sua sobrevivência na presidência do Barcelona em virtude do vexame popular a que foi exposto no último mês, Javier Tebas, presidente da Liga Espanhola de Futebol continua, a abrir fogo sobre o PSG e sobre o Manchester City. A base argumentativa que é utilizada junto da UEFA pelo principal dirigente de La Liga no que concerne à base que sustenta as sistemáticas violações de ambos os clubes às regras do fairplay financeiro da UEFA é válida (os dois clubes fazem efectivamente concorrência desleal a grande parte dos clubes de europeu visto que são suportados informalmente nos bastidores pelos fundos soberanos dos Emirados Árabes Unidos e Qatar) é muito válida mas soa a alguma hipocrisia se atentarmos ao histórico dos clubes espanhóis na última década e a um caso particular ocorrido no presente verão no futebol espanhol.

thani

Não será surpresa para ninguém o que vou escrever: tanto o Manchester City da Etihad como o PSG do Qatari Nasser Al Khelaifi e do Sheikh Tamim concorrem muito para além dos objectivos desportivos que foram balizados nos últimos anos por ambas as direcções. Para além do desiderato comum, óbvio a olho nu, de desejarem arduamente a hegemonia do futebol europeu (nem que para o efeito tenham de estrangular todos os rivais pela força do maior argumento da história civilização humana: o capital) ambos os países estão a usar os dois clubes como meros instrumentos políticos de propaganda e luta pela recolha de simpatia global face ao actual problema geopolítico existente na sua região do globo.

Fomentados directamente pelos próprios fundos soberanos das suas pátrias, a luta entre os dois principais grupos financeiros dos Emirados Árabes Unidos e do Qatar surge precisamente num momento (geopolítico) em que os qataris estão isolados internacionalmente em virtude das graves acusações que vieram a ser proferidas nos últimos meses pelos “governos vizinhos” de Riad, Abu Dhabi e Manama. Para os governantes destes 3 países, o governo de Doha é o principal financiador do Estado Islâmico. O governo de Doha, liderado por Tamim bin Hamad al Thani, dirigente que ao longo dos últimos anos não tem olhado a meios para projectar internacionalmente a riqueza do seu fundo pessoal (ao mesmo tempo, o fundo soberano do país) no fenómeno desportivo (investimentos directos realizados no PSG; investimentos directos realizados sobre a forma de patrocínios junto de alguns dos maiores clubes mundiais, entre os quais o próprio Barcelona; concurso a um conjunto alargado de provas internacionais, desde o Campeonato do Mundo de Futebol aos campeonatos do Mundo de natação e ciclismo de estrada) inverteu o argumento ao acusar o governo de Riad como o cérebro de uma cabala que visa apenas enfraquecer o seu país de forma a estrangulá-lo economicamente.

A verdade é que a Arábia Saudita iniciou este conjunto de manobras quando nos últimos anos decidiu manter e até aumentar a sua produção de petróleo. Como os sauditas dispõe de uma quota de mercado que lhes permitir influenciar o preço do crude, possuem altas reservas por explorar (ou por optimizar) no seu território, não tem uma produção nem de perto nem longe próxima do seu limite, conseguem ter um custo de exploração altamente baixo que lhes permite ter margens de lucro superiores a qualquer outro país, e tem um banco central recheado de biliões de dólares em virtude de décadas de transacções e acumulação de capital, nem a pancada de cerca de 200 biliões de dólares de receita desde 2014 persuadiu os sauditas a baixar a produção. Com esta estratégia (a manutenção da sua produção; criando um nível de oferta muito superior ao da procura) o governo de Riad tentou claramente prejudicar os pequenos produtores que tornaram as suas economias muito dependentes das receitas do petróleo. Um desses países é precisamente o Qatar.

A economia qatari é uma economia extremamente dependente do petróleo. As receitas angariadas com a transição de crude representam 70% das receitas governamentais, 60% do produto interno bruto do país e 85% do saldo da sua balança de pagamentos. Para além de todos estes números, ao contrário de outros, se a produção se mantiver se numa condição coeteris paribus, os qataris terão petróleo até 2040. No entanto, também tenho que referir que a industria da exploração do gás natural está em claro crescimento no país. Segundo as últimas estimativas, os qataris deverão possuir cerca de 8% da reserva mundial de gás natural, reservas que os colocam em posição privilegiada para virem a dominar este sector nas próximas décadas.

A forma que o governo de Bin Thani utilizou para dar o recado aos seus vizinhos de que continua a aparentar uma enorme saúde financeira passou portanto pelo megalómano investimento que tem vindo a ser realizado no sector desportivo. Esse investimento está naturalmente a recolher simpatias para a causa qatari em todo o mundo. Os emires, desconfiados, tiveram portanto que contrabalançar esse poder através de um idêntico sistema de investimento. Para o efeito, e para além dos diversos contratos de patrocínio celebrados entre a Emirates e vários clubes mundiais de diversas modalidades, do futebol ao ciclismo (A Team UAE de Rui Costa; o investimento emir na referida equipa contrabalança por exemplo com os patrocínios contratualizados pela Qatar com a UCI e com diversas equipas do pelotão internacional) , a Etihad investiu directamente no futebol americano (New York City), no futebol inglês (Manchester City), no futebol australiano (Melbourne City), e mais recentemente no Girona, modesto clube catalão que ascendeu na presente temporada à Liga Espanhola. O investimento dos emires no clube catalão aconteceu no preciso momento em que o Barcelona terminou o seu vínculo à Qatar Airways.

É portanto aí que apanhamos a hipocrisia de Tebas na curva: o presidente da Liga Espanhola critica abertamente (e está disposto a aniquilar) a concorrência desleal que é feita por ambos os países nos respectivos clubes que controlam, mas, por outro lado, nos últimos anos, nunca o ouvimos reclamar da concorrência desleal que foi levada a cabo pelos principais clubes espanhóis nem por exemplo decidiu abrir uma investigação quanto à proveniência do capital dos novos investidores do Girona. Quando o Real e o Barcelona, detinham mais capital para contratar do que a esmagadora maioria dos clubes europeus (as únicas excepções durante esse período foram o Manchester United e o Chelsea) e ditavam as leis do mercado, asfixiando toda a gente, o futebol para Tebas era obviamente uma maravilha do universo. Quando a Federação Espanhola aceitava contratos de trabalho de transferências de 105, 96, 75, 60 milhões de euros não havia qualquer invocação das regras de fairplay financeiro! Quando o Barcelona assinava transferências de cariz muito dúbio como foi o caso da transferência de Neymar do Santos, estava tudo óptimo e não haviam razões para fazer soar os alarmes! Agora que o panorama mudou e que são os árabes a ditar a sua força, os espanhóis portam-se como autênticas vítimas do sistema quando, no fundo, passaram os últimos anos a ser os verdadeiros agressores do mesmo.

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