Vuelta – 15ª etapa – Miguel Angel López voltou a dar um baile na Sierra Nevada


Como já tive oportunidade de escrever no sábado, dia em que o Colombiano da Astana não só conseguiu resistir aos ataques dos melhores como ainda teve forças para, no final da etapa, surpreendê-los com um ataque pujante que lhe valeu uns preciosos segundos, temos homem para o futuro! Miguel Angel López está aqui a confirmar tudo aquilo que vai ser dentro de um curto espaço de tempo: mais um corredor a ter em conta para a discussão da geral das grandes voltas. Sinto que ganhei um novo ídolo. Noutras ocasiões, confesso, também o afirmei a propósito de Nairo Quintana. E a verdade é que a actual evolução do seu conterrâneo (Nairo e Miguel Angel nasceram na mesma região da Colômbia: Boyacá) me faz recuar no tempo para recordar as características de Nairo nos primeiros anos como profissional, nos tempos (naqueles primeiros dois tours) em que o corredor da Movistar era mais destemido, ofensivo, ousado e menos temerário (calculista, se assim posso qualificar a sua actual estratégia de corrida na alta montanha) do que actualmente é. Nairo continua a ser para mim o melhor trepador da actualidade mas, desde que ganhou o primeiro Giro não consegui, por mais voltas que desse à cabeça, compreender algumas das opções tomadas pelo colombiano e pela equipa ao nível de planeamento (de temporada, dos picos de forma do ciclista) e estratégia de corrida. No decurso dos últimos anos, Nairo tornou-se um ciclista defensivo, pouco espectacular, pouco ousado e rendido à estratégia do segundinho por segundinho, comportamento que, como vimos no último Giro, já não garante per se conquistas. Também não posso negar de forma alguma que Nairo estivesse no Giro com o mesmo pico que forma apresentado por exemplo na Vuelta do ano passado. No entanto, creio também que, para o ciclista que é, Nairo precisa imenso de planear uma temporada em função do Tour e não em função das outras grandes voltas. Nairo é um ciclista para estar no Tour.

Se Miguel Angel López continuar a evoluir na montanha, se continuar a adoptar no futuro este estilo de corrida corrida pujante, agressivo e ofensivo e se a Astana apostar gradualmente nas suas capacidades através da “montagem” de uma estrutura capaz de o defender nas provas de 3 semanas (o colombiano é um autêntico poço de força), podemos estar diante de um corredor capaz de facturar 3 ou 4 conquistas (se não forem mais) nas grandes provas de 3 semanas da próxima década. Se tudo correr bem e eu não perecer pelo meio, cá estarei para confirmar o meu vaticínio.

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O desempenho do ciclista colombiano na etapa que venceu (11ª etapa) no Alto do Observatório de Calar Alto e na 14ª etapa (Sierra de La Pandera) levou a Astana a alterar-lhe significativamente o estatuto dentro da formação casaque. Como Fábio Aru não está nem perto nem longe com capacidades para tentar lutar pela vitória ou por um lugar no pódio e López tem vindo a crescer ao longo da prova, os responsáveis de formação casaque estão a deixar cair lentamente Aru (sem contudo o livrar da responsabilidade de fechar no top 10 como chefe-de-fila que é) para apostar todas as suas fichas no altíssimo desempenho que está a ter o ciclista colombiano, 10º à geral à partida para a etapa rainha da prova, tirada de 129 km que terminava no terrível Alto de La Hoya na Sierra Nevada.

A aposta da formação casaque está a ser bem sucedida. Com esta vitória, López já se transformou “numa afiada espada” a pender sobre as cabeças de todos aqueles que ainda aspiram a lutar pelos lugares do pódio. O dia de descanso e o contra-relógio vem felizmente em boa hora para o colombiano. Sem poder descansar no crono porque já tem um 6º lugar para defender, o colombiano poderá poupar energias para voltar a dar baile na montanha na última semana. O Angliru está definitivamente à sua espera.

Várias fugas repletas de qualidade

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Numa etapa em que as principais dificuldades (2 contagens de 1ª categoria e uma contagem de categoria especial; sendo que as últimas duas pontuavam os últimos 30 km de corrida, divididas por 1 km de descida a meio) se encontravam nos últimos 70 km, vários foram os ciclistas que tentaram a sua sorte. Numa primeira vaga saíram do pelotão um conjunto de roladores nos quais estavam Stephane Rossetto e Anthony Perez da Cofidis, o nosso Nelson Oliveira (Movistar), Eduard Theuns (Trek), Tom Van Asbroeck (Cannondale), Sander Armée (Lotto-Soudal), Luis Mas Bonet (Caja Rural) e o líder da camisola dos pontos Matteo Trentin. Trentin procurava os 4 pontos do sprint intermédio que veio a conquistar logo aos 45 km. Quando o terreno começou a inclinar, no Alto de las Hazallanas por Peter Stetina (Trek), Romain Bardet (AG2R) e Adam Yates (Orica) saíram para alcançar os homens que rodavam na frente com quase 3 minutos de vantagem. Por último, ainda dentro da mesma contagem, foi a vez do chefe-de-fila da Lotto-Jumbo Steven Kruisjwijk, 13º à geral com mais de 6 minutos acumulados por Christopher Froome realizar também um ataque que visava essencialmente, conquistar, com sorte, alguns minutos à concorrência por um lugar no top 10.

Enquanto os homens que saíram nas Hazallanas tentavam chegar à frente, Rossetto e Sander Armée saíram da companhia dos seus companheiros. Num breve trecho de terreno, Armée ficou isolado na frente com mais de 1 minuto para um grupo perseguidor composto por Nélson Oliveira, Steven Kruisjwijk (o homem que mais puxou na frente), Romain Bardet e Adam Yates.

Com 28,5 km de subida pela frente, o grupo perseguidor rapidamente chegou a Armée e ultrapassou o ciclista belga. Importa também referir que logo no início da escalada, o trio de trepadores livrou-se dos roladores. Nelson Oliveira e Stephane Rossetto não conseguiram sequer aguentar 1 km ao ritmo imposto por Kruisjwijk. No entanto, lá atrás, no pelotão, já muito reduzido, Miguel Angel López e Alberto Contador mexiam na corrida.

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A culminar o importante trabalho que a Astana tinha feito desde a categoria de montanha anterior no qual a formação casaque tinha colocado 3 homens na dianteira do pelotão para controlar a vantagem da fuga que seguia na frente, o ataque realizado por López e Contador (o ciclista mais interessado em não deixar fugir o colombiano dada a sua proximidade na geral) indicou, desde os primeiros metros, que o colombiano estava altamente moralizado para voltar a conquistar uma etapa e para continuar a sua cruzada contra os 9 homens que se encontram à sua frente na geral, enquanto El Pistolero, ao seu estilo, mais contido na roda do seu companheiro, seguia mais na expectativa, aproveitando a boleia para “perceber no que é que aquilo poderia dar” – ao longo dos 28 km subida, Contador só passou uma vez na frente quando, na frente, Yates seguia com cerca de 1 minuto de vantagem, Bardet e Kruisjwijk já tinham sido ultrapassados e já tinha conseguido recolar ao duo, e o pelotão seguia a cerca de 2:30m da frente e a 1 minuto e 10 do grupo perseguidor.

Estas foram mais ou menos as diferenças verificadas ao longo da subida. Este cenário só se modificou quando López engatou a 5ª e passou ao ataque para caçar Yates e vencer a etapa.

No grupo de Froome, a única mexida realizada durante a subida foi de Vincenzo Níbali. Com um ataque bastante interessante no início do segundo segmento de subida, o italiano ganhou cerca de 150 metros ao grupo do camisola encarnado. O ciclista da Bahrain, 2º à geral chegou a ter à passagem dos 11 km para a meta uma vantagem de 17 segundos sobre o seu mais directo rival, vantagem que lhe permitiria, caso continuasse a ter um rendimento constante ao longo da subida, reduzir de forma significativa os 55 segundos de desvantagem para Froome. No entanto, a Sky, tratou de colocar a guarda pretoriana do inglês (Moscon, Nieve, Poels) na frente a controlar a vantagem dos homens da frente e a anular a investida do experiente ciclista que já conquistou a Vuelta na edição do ano de 2010.

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Sem ser asfixiante, o ritmo imposto pelos cães de caça do líder da corrida, era suficiente para manter sobre vigilância apertada a vantagem que os corredores na frente tinham conquistado. Como López e Contador não representavam grande perigo para a geral se não lhes fossem dadas asas para voar (assim que a vantagem dos dois chegou ao minuto e meio, Nieve acelerou o ritmo) e Níbali estava proibido de ganhar uma vantagem superior a 15 segundos, a formação britânica tentou de dispensar as energias necessárias para controlar a corrida, sem queimar unidades. Do trio que normalmente acompanha Froome, só Moscon acabou por dado por findo o seu trabalho. Por outro lado, a imposição de um ritmo suportável por parte ainda permitia a permanência no grupo a vários ciclistas como Pello Bilbao, Antonio Pedrero, Daniel Moreno ou Jack Haig. O único ciclista do top 10 que não se encontrava nos grupos da frente era David de La Cruz. O ciclista da Quickstep perdeu contacto com o grupo principal logo no início da subida, terminando a etapa num modesto 24º (a mais de 5 minutos), resultado que obviamente lhe causou um duro revés na sua luta por um lugar dentro do top10. De La Cruz é agora 11º da geral a 7:47m de Froome e a 5:22 do 10º classificado, o seu gregário Wout Poels.

Lá na frente, Adam Yates tentava fazer pela vida. Com um ritmo certinho, o ciclista da Orica, só começou a dar mostras de quebra a partir dos 6 km para a meta, quando o vi a ter que descolar várias vezes do selim para manter o ritmo vivo. No grupo intermédio, López continuava a carregar o trio de colas que seguia na sua roda. Quando reparei que não havia colaboração no grupo pensei que Alberto Contador estaria a poupar-se para tentar vencer a etapa. Tanto Bardet como Kruisjwijk já seguiam no fio da navalha. Quando López fez uma subita mudança de ritmos, o sonho dos 3 caiu como se de um castelo de cartas se tratasse.

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Bardet não teve pernas para acompanhar López.

López foi à procura de Yates. A 4,6 km da meta bastaram 400 metros de terreno para anular a diferença de 50 segundos que se verificava à passagem dos 5 km. Assim que o colombiano alcançou o britânico, bastou ao ciclista da Astana voltar a soprar para provocar uma dose de reumático no extenuado ciclista da Orica. Yates parou literalmente no terreno e López comprou bilhete para o pódio no final da etapa e para o 6º lugar da geral.

No grupo principal, Ilnur Zakarin foi o único dos “ameaçados da investida de López” a reagir. Com um ataque nos últimos 2 km, o russo provocou um aceleramento de corrida, do qual veio a beneficiar Wilco Kelderman. Com o seu 3º lugar da geral ameaçado, o holandês da Sunweb saiu da companhia dos demais rivais para tentar amenizar as perdas para o rival. A bonificação relativa ao 3º lugar na etapa não foi contudo suficiente para impedir que o chefe-de-fila da Katusha chegasse ao 3º lugar da geral. Pé ante pé, sem se exibir muito, o russo vai levando a água ao seu moinho. Se amanhã conseguir rodar bem no contra-relógio, pode ganhar tempo importante para esta luta particular pelo 3º lugar.

A mexida de Kelderman veio a gerar consequências para Vincenzo Níbali. Assim que o holandês saiu, Froome também sentiu necessidade de tentar deixar o seu maior rival para trás. Com um esticão, o inglês conseguiu recuperar 6 segundos para o italiano.

A geral ficou assim ordenada no final da etapa:

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Que diferenças poderá ditar o contra-relógio de amanhã? Poderá Christopher Froome resolver a Vuelta nos 40 km planos do crono?

Não creio que o inglês possa resolver a Volta no longo crono de amanhã, mas que vai aproveitar o dia para encaminhar a sua vitória na Geral, vai. Chris Froome é um dos grandes candidatos à vitória de etapa amanhã, não obstante o facto do crono vir a ser corrido por vários dos melhores especialistas da actualidade como Chad Haga, Nélson Oliveira (outro dos grandes candidatos à vitória de etapa se estiver num dia muito positivo e se o dia de descanso tiver servido para recuperar do enorme esforço empregue na fuga) Svein Tuft, Rohan Dennis ou Tobias Ludvigsson. Qualquer um destes ciclistas partirá, naturalmente, em virtude da sua também natural ausência na frente da corrida nos momentos de decisão, mais fresco que o ciclista britânico. No entanto, dentro do lote que o persegue, Froome não tem nesta especialidade um “candidato à altura” – dos 15 primeiros, o único que apresenta condições para bater o britânico em 40 km de plano é Tejay Van Garderen. Porém, Van Garderen já não é, como podemos ver na tabela acima postada, uma ameaça para Froome.

Eu creio que Froome irá ganhar 1 minuto e meio a 3 minutos a toda a concorrência. Do top 10, o único ciclista que se defende bem no contra-relógio é Ilnur Zakarin. Zakarin não é nenhum especialista neste departamento (os seus 68 kg prejudicam-no imenso) mas já venceu alguns contra-relógios ao longo da sua carreira, sendo actualmente o campeão nacional russo da especialidade. Num dia muito positivo, Zakarin perderá no mínimo 1 minuto para Froome. Num dia normal, o russo acumulará seguramente mais de minuto e meio. Se o “melhorzito” arrisca-se a perder 1 minuto a 2 minutos (consoante o seu rendimento), imaginem o tempo que poderão perder os pesos-moscas que seguem na frente da geral. Arrisco-me a dizer que quase todos perderão perto de 3 minutos para Froome, excepto Alberto Contador, ciclista que teve de desenvolver, por motivos de força maior, uma maior aprendizagem ao nível de postura corporal e trajectórias para “se aguentar” nos cronos que lhe deram as vitórias somadas no Tour e na Vuelta.

O dia de descanso foi pródigo em mexericos

Terá Froome um motor no quadro da sua bicicleta? A imprensa espanhola, ressabiada com o facto de não ter qualquer ciclista a ombrear mano-a-mano com o britânico (com o devido respeito pela agradável volta de despedida que está a realizar Alberto Contador; El Pistolero está a tentar agitar a corrida e mais uma vez sinto-me motivado a afirmar que foi pena ter perdido tanto tempo em Andorra; se não o tivesse perdido, o espanhol estaria hoje a menos de 1 minuto do britânico) acha que sim! Estas imagens, captadas à chegada fizeram correr tinta em toda a imprensa especializada! Como o britânico não precisou de dar aos pedais para chegar ao pódio no final de etapa, a imprensa espanhola desatou a questionar a possibilidade do britânico ter usado um pequeno dispositivo escondido no seu quadro durante a etapa. Froome respondeu que muito dificilmente teria saído em Nîmes se a UCI o tivesse apanhado nos regulares testes que são efectuados (por ofício) às bicicletas dos ciclistas.

“I’ve definitely not had time to watch the documentary but I’ve heard about it. I don’t know how much truth there is to it. I don’t know if they did have the UCI technology or not,”

“The most important thing for me is that they have been doing the checks. They have been dismantling the bikes for years now looking for motors, physically looking inside the bikes now. In my opinion, I can’t even get onto the start line of a race and believe that someone is using a motor.

“It would be too much mentally to get onto the start line and even question my rivals could be racing with a motor in their bike. It’s not something that I think about. If there is anyone using a motor, then I imagine that they will get caught pretty quickly.”

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