Vuelta – 17ª etapa – Stefan Denifl deu a vitória da época à Aqua Blue Sport, no primeiro dia em que Christopher Froome revelou uma quebra física


Obra do multimilionário irlandês Rick Delaney, visionário empresarial irlandês nascido em Cork que tem feito a sua fortuna ao longo da última década na fabricação e distribuição de um conjunto de bebidas alcoólicas vendidas mundialmente como a Royal Dutch lager, Kah Tequila,ou a Oranjeboom, a equipa Aqua Blue Sports nasceu, no ano passado, com a vontade de ligar o útil (a vertente empresarial de Delaney) ao agradável, ou seja, a uma das grandes paixões do empresário; o ciclismo. Com um investimento total a rondar os 4 milhões de euros por temporada (500 mil recolhidos sob a modalidade de crowdfunding; segundo uma das mais recentes entrevistas feitas pelo Irish Examiner ao empresário, a empresa estima que o ciclismo possa garantir um retorno três vezes superior ao investimento nos próximos 2 anos) e um patrocínio garantido para 2 anos pela fabricante de bicicletas belga Ridley, Delaney não veio para o ciclismo “para ver a volta”. Logo no acto de abertura, o empresário irlandês confirmou que tendo estabelecido o projecto para esta e para as próximas 3 temporadas, todos os ciclistas contratados teriam que assinar contratos para as duas primeiras temporadas. O objectivo estabelecido pelo empresário passa por conseguir subir ao World Tour nas próximas 4 temporadas.

adam blythe

Para o efeito, Delaney e o general manager da formação trataram de iniciar actividade com uma equipa bem interessante, orientada por um antigo ciclista de renome chamado Nikki Sorensen. Como cabeça de cartaz da formação aparece o sprinter Adam Blythe. Aos 27 anos Blythe já conta no currículo com passagens pela Tinkoff, Orica, BMC e Quickstep e com um palmarés muito interessante no qual o ciclista inscreveu vitórias nos campeonatos nacionais de estrada da Grã-Bretanha, na Volta ao Qatar (uma vitória de etapa na edição de 2013) e na RideLondon-Surrey-Classic (em 2014).

Com um conjunto muito interessante de 16 corredores recrutados em equipas dos vários escalões da UCI (desde o projecto de formação de Braddley Wiggins à Tinkoff) a equipa irlandesa foi buscar nomes interessantes como o austríaco Stefan Denifl (vencedor desta etapa: antigo corredor da extinta IAM Cycling) a jovem promessa do ciclismo dinamarquês Lasse Norman Hansen, valioso contra-relogista que alinhava pela alemã Team Stolting da divisão Continental, o australiano Leigh Howard, o puncheur holandês Michael Kreder, o experiente norueguês Lars Petter Nordhaug, ciclista que na temporada de 2015 e 2016 representou a Sky e o actual campeão americano de estrada Larry Warbasse.

Apesar da equipa ter dado nas vistas em algumas provas durante a primeira metade da temporada (principalmente na fase das clássicas das Ardenas; clássicas da primavera) o que é certo é que os resultados deste primeiro ano de actividade não estavam até hoje a ser os melhores ou pelo menos os mais desejáveis. Nas provas em que Adam Blythe se apresentou como um dos principais candidatos à vitória de etapa, o sprinter falhou quase sempre o tempo de salto, não obstante o prodigioso trabalho que foi feito em algumas das provas pelos seus companheiros de equipa na frente da “competência”. Nas ardenas, Blythe não conseguiu somar qualquer vitória sendo 2º classificado em duas provas. Quanto aos seus companheiros, destacaram-se até ao dia de hoje as vitórias de Stefan Denifl na geral individual da Volta à Áustria, a vitória de Lasse Norman Hansen no Prémio da Montanha na Volta à Suíça, e as vitórias de Larry Warbasse na prova de estrada dos campeonatos norte-americanos e na 4ª etapa da Volta à Suíça. O pecúlio registado não é o melhor mas pelo menos, a equipa irlandesa já pode dizer que somou 3 conquistas em provas do calendário World Tour. A Cofidis, actual líder do ranking mundial da divisão UCI Pro Continental, equipa que tem recursos de outra água como são os casos de Nacer Bouhanni, Nicolas Edet, Cyril Lemoine, Luis Angel Maté, Daniel Navarro, Stéphane Rossetto (tem andado envolvido muitas vezes em fuga durante esta Vuelta), Anthony Perez, Julian Simon ou Kenneth Vanbilsen ainda só conseguiu vencer 1 prova de World Tour na presente temporada por intermédio de Nacer Bouhanni na Volta a Catalunha.

A vitória de hoje de Stefan Denifl foi portanto uma vitória que vale por toda uma temporada para a equipa irlandesa. Não quero com isto dizer que os desaires tenham feito esmorecer o interesse do principal investidor da equipa porque não fizeram. Apesar da equipa não ter somado o número de vitórias pretendidas pelo seu principal investidor (no início da temporada, Delaney pediu aos seus corredores uma dúzia de vitórias e pelo menos 2 em provas de world tour; meta que a equipa está parcialmente a cumprir no que concerne às suas fugazes participações no escalão máximo competitivo da nomenklatura de provas da UCI; faço questão de referir que a equipa apenas participa nas provas World Tour por convite dos organizadores) o irlandês está a tentar reforçar a equipa, segundo os últimos rumores publicados pela imprensa da modalidade, com Matti Breschel (Astana), Rafael Valls (Lotto-Soudal) e Simon Gerrans, consagrado puncheur australiano que termina contrato no final da temporada com a Orica.

Feita a devida e necessária contextualização em relação à equipa que obteve a sua primeira vitória (e que vitória, logo na difícil ascensão de categoria especial para Los Machucos!) em grandes voltas durante a etapa de hoje, vamos ao que interessa, a corrida.

vuelta 89

Inserido na fuga do dia num luxuoso conjunto de ciclistas nos quais constavam Alessandro DeMarchi da BMC (o italiano tem tentado imenso mas as pernas não tem desenvolvido nos momentos chave das etapas) Davide Villela (o líder do Prémio da Montanha saiu, como é sua obrigação, para conquistar mais uns pontitos para o seu objectivo), Magnus Cort Nielsen (Orica), Daniel Moreno (a Movistar continua a trabalhar arduamente para conseguir a sua redentora vitória), e Julian Alaphillipe (Quickstep), Stefan Denifl teve que sofrer imenso no Puerto de Alisas e no Puerto de Los Machucos (a terrível subida final com as pendentes assustadoras que podem ver no gráfico abaixo exposto) para bater a concorrência.

los machucos

Com o grupo reduzido a 4: Denifl, Moreno, Alaphillipe e DeMarchi, coube ao ciclista da Movistar tentar realizar o primeiro ataque. Denifl não se ficou na conversa fiada do espanhol e foi à procura de um sonho. O austríaco haveria de realizar a corrida da sua vida, como mais tarde veio a revelar à imprensa no final da tirada antes de subir ao pódio.

“This is for my girlfriend and little boy. I think they’re watching at home. I can’t believe it; I had super, super legs today. I was waiting the whole Vuelta for this day. I paced myself the whole Vuelta, and today I went all in. It’s just amazing. For me team, Aqua Blue we’re at our first Grand Tour here, and winning a stage …I’m over the moon. Thanks. Thanks. You always have to believe to win, and when I felt my legs I was like, ‘Oh my God. These legs are super good.’ And I just kept on pushing. The climb was perfect for me with some flats parts in between for recovery. Now I won a stage in the Vuelta. It’s the best day in my cycling life.”

Nem tudo foram rosas para o austríaco nos 7,2 km a 8% (com rampas demoníacas na casa dos 26 e até dos 28% em alguns sectores; sectores onde, para o caro leitor ter alguma noção, a alcaidaria de San Roque de Riomiera da Cantábria, teve que colocar recortados pedaços de cimento na estrada para promover maior aderência ao piso às rodas dos automóveis). Pode-se até dizer que se a subida tive a extensão de mais 1 km, Alberto Contador seria o vencedor da etapa dada a voracidade com que El Pistolero atacou os últimos km da etapa.

vuelta 90

Lá atrás, no grupo dos favoritos, a etapa foi bastante animada. Os resultados do contra-relógio de ontem foram positivos para Froome, mas o tempo conquistado pelo britânico aos seus mais directos rivais não foi suficiente para encerrar de vez a luta pela geral. A 1:58, com 4 etapas de montanha pela frente (duas de alta montanha e duas de média montanha) não se podia traçar um cenário no qual Nibali não fizesse parte da equação, muito menos se considerarmos o momento de forma do italiano na montanha. Nibali não está a ser extraordinário nos seus ataques nem está a ganhar tempo que se veja a Froome mas tem sido ofensivo q.b durante toda a prova.

Outros ciclistas que não obtiveram no dia de ontem os resultados mais satisfatórios também não se rendem. Esteban Chávez (ataque na companhia do colega Simon Yates na 1ª categoria que antecedia ao Alto de Los Machucos), Stefan Kruisjwijk (o homem que mais se esforçou para tentar gerar sucesso na investida de Níbali), e Miguel Angel López (foi ele quem agitou novamente o pelotão, arrastando consigo Alberto Contador pelas óbvias razões motivadas pela proximidade entre os dois atletas na geral; Contador partiu com mais 27 segundos de avanço em relação ao colombiano) foram ciclistas que quiseram mais ao longo da etapa.

A 6 km da meta, numa altura em que a Sky comandava com 5 homens dispostos a dar tudo pela manutenção do status do seu chefe-de-fila, Miguel Angel López e Alberto Contador desenharam uma iniciativa que viria a ser decisiva para o desfecho da etapa e que virá sem sombra alguma, dar mais espectacularidade às próximas etapas. A cena oferecida pelas objectivas dos motards transmitia um deja vú ja antes visto na prova: enquanto o colombiano puxava na frente, El Pistolero, na roda, numa postura defensiva (a defender a 5ª posição) poupava energias para as despender no momento certo. Assim que o experiente ciclista espanhol se apercebeu que López já tinha feito o trabalho de sapa necessário para fugir ao grupo traseiro (quando os dois já se encontravam com cerca de 40 segundos de vantagem), Contador decidiu ir embora. A um ritmo alucinante, o espanhol tentou procurar Stefan Denifl, mas o austríaco já se encontrava com uma vantagem suficiente de 1 minuto para vencer a etapa. O madrileno ainda conseguiu nos últimos quilómetros cortar cerca de 35 segundos para a frente, 25 dos quais nos últimos 3 km. Se a etapa se estendesse por mais 1 km em subia, Contador venceria. Denifl seguia no limite das suas capacidades.

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A Sky ainda tentou por um travão à corrida. Notava-se a milhas que Froome não estava a passar pelo melhor dos dias. A certeza dessa percepção veio quando Nibali, acompanhado por um conjunto de ciclistas como Rafal Majka, Ilnur Zakarin, Wilco Kelderman, Michael Woods, David de La Cruz, Jack Haig e Steven Kruisjwijk saíram da companhia do líder para procurar algo mais. Se para alguns movia-os a possibilidade de ainda vencer a etapa, caso de Majka, para outros, a questão travava-se na geral. Zakarin tentava perder o mínimo de tempo para Contador e López e recuperar o tempo perdido no crono para Kelderman. Kelderman e Níbali procuravam defender-se e atacar Froome, Woods defendia o seu lugar no top 10 e tanto De La Cruz como Kruiswijk davam tudo para conseguir recuperar tempo a homens que seguiam mais atrasados como Wout Poels, Esteban Chavez, ou Fabio Aru. De toda a insurreição que se formou na frente, faltou Aru. O italiano está mesmo com as reservas em baixo. Mesmo abaixo de forma e cansado, o italiano consegue fechar top 10. Bardet por exemplo está bem longe, apesar de ter aparecido na frente nas últimas etapas de montanha à procura de qualquer coisa que ainda não surgiu.

Quanto mais o tempo aumentava, mais se acentuaram as dificuldades para Froome. Moscon e Poels queimaram todas as energias disponíveis para controlar a corrida, ou seja, a vantagem que dispunham os rivais, mas o sinal de fraqueza do seu líder acentuou-se quando Nieve queria puxar a um ritmo mais alto do que aquilo que Froome teria para dar. Se o inglês não tivesse a preciosa ajuda de 4 companheiros, teria certamente apanhado mais de 2 minutos e meio para os principais rivais na etapa de hoje. Mais uma vez salienta-se a fabulosa equipa que o britânico tem em seu redor para o auxiliar.

Contudo, os sinais deixados por Froome não enganam: o britânico está a padecer de cansaço acumulado. Ninguém, por mais incrível que seja fisicamente, consegue aguentar 30 e tal dias de corrida (no espaço de 2 meses) a um ritmo elevadíssimo. Acredito que o estado de forma do inglês possa decair nas próximas etapas, hipótese que trará obviamente muita emoção ao espectáculo de sábado no Angliru.

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Quem aproveitou as dificuldades do britânico foi Nibali. O italiano veio a perder tempo para Contador (36 segundos) mas neste momento, o espanhol é o seu mal menor. Com uma aceleração promovida por Miguel Angel López para ir buscar 4 segundos nas bonificações, o italiano da Bahrein e Zakarin puderam conquistar 15 segundos a Kelderman e 42 a Froome.

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O resultado permitiu ao italiano recuperar o tempo perdido para Vroom Vroom no contra-relógio mas o mais importante, o que deve reter desta etapa, é o facto de Froome não ter respondido pela primeira vez a preceito a um dos seus ataques. Se nos anteriores, Froome acabou sempre por ficar a controlar atrás a meros segundos italiano, neste ataque, o britânico sentiu imensas dificuldades para seguir o ritmo do seu próprio companheiro.

Kelderman perdeu tempo precioso para Zakarin. Os 12 segundos de diferença que os separam são um doce para as capacidades do russo. O russo da Katusha está a crescer imenso ao longo da prova. Sempre atento na frente da corrida, o ciclista de 27 anos tem capacidade para responder a qualquer ataque. Se tem eventualmente apanhado a roda de Contador, o russo estaria agora na 3ª posição a 1:49 do líder e a meros 33 segundos do 2º classificado.A verdade é que Kelderman também está a ter um magnífico rendimento na montanha. O holandês não está a ser ofensivo mas está a defender-se sempre muito bem.

Esta investida permitiu a Alberto Contador aproximar-se perigosamente dos lugares do pódio. El Pistolero não ficará por aqui. Miguel Angel López também não. Se Contador conseguir ter um rendimento próximo deste no Angliru, estou certo que fechará no pódio.

A luta por um lugar no top 10 ganhou outra alma. Como Esteban Chavez continua em queda livre (o colombiano perdeu 5:52 para Denifl, pagando o intenso esforço despendido no ataque que tentou lançar com um dos irmãos Yates na penúltima contagem de montanha do dia), David de La Cruz voltou a subir ao top10. Tudo passa portanto a ser possível. Do 10º que é David de La Cruz ao 13º Tejay Van Garderen, há uma diferença de 1:10m. Todos os ciclistas já tiveram dias horríveis ao longo da prova. Acredito que nas próximas etapas venha a existir uma autêntica marcação cerrada entre todos para conquistar aquele precioso 10º lugar.

Na classificação dos pontos, Vincenzo Nibali aproximou-se de Froome. O inglês lidera com 138 pontos (somou 2) contra os 118 do italiano. Matteo Trentin tem 108 pontos.

Na montanha, os pontos conquistados por Davide Villela na primeira contagem do dia não foram suficientes para evitar a aproximação de Miguel Angel López. O italiano da Cannondale tem agora 54 contra os 47 de López.

Froome continua a liderar a geral combinada.

A Astana continua a liderar por equipas com menos 9 minutos e 46 que a Sky.

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