Vuelta – 19ª etapa – Prémio de temporada merecido para Thomas De Gendt


Thomas De Gendt. Para muitos, o nome deste belga de 30 anos nada diz. Para os amantes de ciclismo, é sinónimo de muita qualidade e acima de tudo de muita entrega à modalidade. Especialista na arte de expor a cara ao vento dia após dia, “morto na praia” tantas vezes naquelas dolorosas epopeias de dezenas de quilómetros que terminam a poucos metros da meta, em solitário ou com companhia, o belga é actualmente um dos melhores especialistas em fugas. O seu currículo fala pelo seu talento. Se exceptuarmos aquele maravilhoso (mas irrepetível) 3º lugar na geral da edição de 2012 do Giro, prova na qual o belga esteve a um pequeno passo de conquistar (haveria de ser conquistado pelo canadiano Ryder Hesjedal, ciclista entretanto retirado do ciclismo profissional desde o final da temporada de 2016), De Gent tem um palmarés (vitórias em etapas em provas como o GP de Waregem, Volta à Valónia, Volta a Navarra, Paris-Nice, Volta à Suíça, Giro d´Italia, Volta à Catalunha, Tour de France, Criterium Dauphiné e agora na Vuelta) invejável construído praticamente à base de escapadas e surpreendentes ataques nos quilómetros finais das etapas.

Esta vitória não foi excepção. Inserido numa fuga de várias unidades, onde circulou o nosso Rui Costa (já lá vamos), o belga foi o mais rápido no sprint realizado em Gijón.

Na geral, a Sky manteve tudo em pratos limpos no dia que antecede o “final virtual” da prova no Alto do Angliru, num dia em que Alberto Contador voltou a atacar.

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Asturias, 19ª etapa da edição de 2017 da Vuelta. O pelotão chega ao momento de todas as decisões. Na etapa que antecede a emocionante subida ao alto do Angliru, o momento mais aguardado por todas as pessoas que tem vindo a seguir a prova nas últimas 3 semanas, o decurso da etapa de 149 km entre Caso e a capital daquela comunidade autónoma espanhola, cidade conhecida pela sua lindíssima baía inserida no Golfo da Biscaia, pelas suas Parrilladas de Marisco e pelo Sporting local, não destoou em relação à regra que tem marcado a grande maioria das etapas: a vitória de etapa foi discutida pelos elementos que compuseram a fuga que saiu nos primeiros quilómetros da etapa.

Na etapa de hoje tiraram bilhete para o sorteio do El Gordo uma grande parte dos ciclistas que tem vindo a tentar incessantemente nos últimos dias: Bob Jungels, Matteo Trentin (QuickStep), Nicolas Roche (BMC), Emanuel Buchmann (Bora), Julien Duval (AG2R), Davide Villella (Cannondale), Floris De Tier, Juan Lobato (Lotto-Jumbo), Rui Costa e Matej Mohoric (UAE Team Emirates), Laurens De Vreese (Astana), Edward Theuns, Jarlinson Pantano (Trek-Segafredo), Thomas De Gendt (Lotto Soudal), Ivan Garcia (Bahrain-Merida), Dani Navarro, Kenneth Vanbilsen (Cofidis), David Arroyo (Caja Rural-Seguros RGA) e Juan Felipe Osorio (Manzana-Postobon). Desta lista de 19 corredores, apenas o esloveno já provou o saboroso manjar da vitória visto que conquistou recentemente a 7ª etapa da prova.  No entanto Mohoric veio para a fuga com outras ideias em mente: o esloveno queria ajudar o seu chefe-de-fila (?) Rui Costa a conquistar uma etapa.

No Alto de La Colladona, Romain Bardet saltou no pelotão com um conjunto de ciclistas para tentar novamente a sua chance. Incansável, Bardet tentou novamente concretizar aquele que passou a ser o seu principal objectivo desde que apanhou uma série de minutos para os seus pares na montanha em Andorra. O francês tem lutado muito para não sair desta Vuelta de mãos a abanar, mas as coisas não lhe tem corrido minimamente de feição.

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A montanha espalhada pela tirada deveria ter auxiliado o francês a atingir o seu objectivo. Com um ataque partilhado com Thomas deGent, o francês tentou fazer uma pré-selecção no grupo Alto de la Falla de Los Lobos. Sem sucesso, o grupo viria a juntar-se na descida, altura em que Ivan Garcia Cortina, prata da casa nascida e criada em Gijón, decidiu atacar para dar uma alegria aos seus familiares e amigos. Com cerca de 15 minutos para o pelotão, o jovem sprinter da formação do Bahrain conseguiu ganhar alguma distância para o grupo perseguidor, grupo no qual seguiam Bardet, Roche, Rui Costa ou Jungels. Como pássaro de asas muito curtas para a montanhar, Ivan Garcia haveria de ser alcançado por Bardet no final do Alto de San Martín de Huerces, a última contagem de montanha do dia (3ª categoria). O grupo no entanto haveria de ser rapidamente preenchido com a presença de mais duas unidades, visto que tanto Rui Costa como Roche não se deram como vencidos e conseguiram ao seu ritmo, alcançar o duo da frente num mero piscar de olhos.

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O que se veio a seguir foi uma estupidez de todo o tamanho à qual a direcção de corrida da UAE não é de todo imune porque não deu as devidas instruções no tempo correcto ao corredor português. Enquanto na frente, já dentro dos 10 km finais, disputados em terreno plano, o quarteto que seguia na frente jogava ao jogo das marcações e dos pequenos ataques que nada garantem e que nada ameaçam (nesse preciso momento, a UAE não foi capaz de dar instruções a Rui Costa para assumir temporariamente as despesas do grupo de forma a manter os perseguidores o mais afastados possíveis da discussão da etapa; o português continuou a “marimbar-se nas rodas dos adversários”, exibindo mais uma vez a postura de “chupa-rodas” que lhe vale tantas críticas no seio do pelotão internacional; a única vez em que o português sentiu necessidade de passar para a frente do grupo foi quando Nicolas Roche ganhou cerca de 200 metros de vantagem) mais atrás, no 2º grupo, Bob Jungels realizava uma verdadeiro e feroz contra-relógio (a velocidade constante) para rebocar uma série de corredores, entre os quais DeGendt, Jarlison Pantano, e Daniel Navarro, até à frente da corrida. Dito e feito.

Nos últimos 2 km, tanto Roche como De Gendt tentaram realizar os seus ataques surpresas para eliminar a concorrência e afastar a possibilidade de terem que disputar a vitória ao sprint. À partida e em teoria, a presença de Rui Costa e Ivan Garcia era ameaçadora em função das suas capacidades de finalização. Conduzida que foi a etapa para o sprint, o belga da Lotto-Soudal teve que se aplicar para bater toda a concorrência no sprint lançado por Nicolas Roche. Tapado por De Gendt, Pantano e Ivan Garcia nos últimos 200 metros, Rui Costa (tentou surpreender por fora) teve que se contentar com o 4º lugar na etapa.

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O dia ficou marcado também por uma fantástica investida de Alberto Contador em solitário na passagem pela 3ª categoria do Alto de San Martín de Huerces. Aproveitando as explosivas rampas de 7%, El Pistolero saiu com todo o gás à procura de diminuir tempo para os mais directos perseguidores. Tanto a Sunweb de Wilco Kelderman, como a Katusha de Ilnur Zakarin como a Bahrain de Vincenzo Nibali decidiram voltar a entregar todo o trabalho de perseguição à Sky de Christopher Froome. Os 3:34 de desvantagem de Contador para Froome não motivaram a sua formação num primeiro impulso. À semelhança daquilo que tem feito nas últimas etapas, a formação britânica esperou para ver o desenlace táctico, actuando apenas quando sentiu que nenhuma das equipas dos homens que estão mais próximos de Contador na geral iria intervir, numa fase em que o madrileño já tinha conquistado 1 minuto de vantagem e estava prestes a receber novamente o auxilio do seu sprinter e rolador Edward Theuns para os quilómetros finais.

Com uma espantosa aceleração do ritmo de corrida, a formação de Chris Froome voltou a puxar dos galões para recuperar tempo. A 3,2 km da meta, Contador era absorvido pelo grupo dos favoritos.

A primeira página da classificação geral individual permaneceu inalterada:

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O que é que poderemos esperar da etapa que culmina com a subida ao Angliru?

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Com 3 ascensões durinhas (2 de 1ª categoria e uma de categoria especial) a partir do km 71 (a verdade é que antes logo no início da etapa existe uma subida não categorizada de extensão apreciável; 12 km para La Reiga) serão 46 km a doer para todos os ciclistas. As hostilidades deverão começar, na melhor das hipóteses no Alto del Cordal. Não acredito que nenhum ciclista se aventura a realizar um ataque no Alto da Cobertoria porque como o tempo de recuperação entre descidas é diminuto, ninguém terá energia suficiente para fazer as 3 subidas a pique. Se alguém tentar atacar na Cobertoria, será pura e simplesmente suicida. Acredito que Alberto Contador possa ser o primeiro a tentar um no Alto del Cordal para tentar ganhar tempo suficiente para atacar o pódio. Se assim o fizer, Contador ou qualquer outro ciclista que o fizer abrirá uma arca de pandora que trará total espectacularidade à etapa. Já Nibali deverá tentar levar a decisão para o malogrado Alto do Angliru, montanha onde perdeu uma Vuelta para Christopher Horner em 2014. Como Nibali tem muita experiência de Angliru, o italiano poderá utilizar uma estratégia comum de desgaste da liderança nas montanhas anteriores (estratégia que tentará obviamente afastar o máximo número de Sky´s da subida final) para tentar, na montanha, estoirar Froome com um ou sucessivos ataques. No entanto, a missão é ingrata. Apesar de já ter ganho 42 segundos numa subida com rampas mais homogéneas mas com rampas máximas de menor pendente (Los Machucos) não acredito que o chefe-de-fila da Bahrain consiga ganhar 1:37m a Froome, embora acredite que nas rampas de 23,5%, 21% e 20% do Angliru tudo é possível. Enquanto Zakarin será um dos que se passará ao ataque na subida final, Kelderman tentará cerrar os dentes para segurar os 12 segundos de vantagem que possui para o russo.

Matteo Trentin aproximou-se de Froome na geral dos pontos. Com 6 pontos somados, o italiano está agora a 10 pontos do inglês. Amanhã a etapa oferece 4 pontos num sprint intermédio. O italiano irá tentar entrar numa fuga para os tentar somar. Mesmo assim, caso Froome consiga vencer a etapa (perfazendo 162 pontos), o italiano (127\ com 4 fará 131 caso vença o sprint) não terá possibilidades matemáticas de conquistar a camisola verde em Madrid caso vença o sprint intermédio e a etapa.

A montanha de amanhã oferece 40 pontos para o vencedor de todas as contagens. Davide Villella também estará decerto na fuga para rematar pelo menos os 10 pontos da primeira categoria do dia. Se assim o fizer, o italiano remata a questão em relação a Miguel Angel López.

A Astana tem 19 minutos de vantagem sobre a Movistar na classificação por equipas. Se nada de grave acontecer quer com López, quer com Aru, muito dificilmente a formação casaque perderá a oportunidade de subir ao pódio.

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