Vuelta – 20ª etapa – A despedida em ombros de Alberto Contador


O Campeão. O Grande Campeão.

Hoje fechou-se um ciclo muito importante na história do ciclismo: ao que tudo indica (confesso que ainda tenho uma réstia de esperança na possibilidade do ciclista vir a revogar a decisão tomada no início do mês de Agosto) não voltaremos a ver o gingar de Alberto Contador na montanha. Com a saída de cena do madrileno, encerra-se uma história muito bonita, todo um mundo de 14 anos na qual El Pistolero arrasou os corações de todos os amantes desta modalidade. Sentiremos saudade do seu gingar característico (movimento pastilha elástica) na bicicleta, da sua alma, da sua garra, das suas ganas, e da sua irreverência. Sentiremos também saudade da sua ousadia, daquela sua vontade em quebrar as mais instituídas regras (lembrei-me subitamente daquela afronta às ordens de Johann Bruyneel no Tour de 2009) e daqueles ataques que nos faziam levantar do sofá e gritar como loucos. Sentiremos saudades de todas as emoções que o madrileno nos deu quando naquele célebre ataque que deixou Andy Schleck à beira de um ataque de nervos, daqueles dois contra-relógios magníficos que lhe deram duas vitórias na Vuelta, daqueles ataques suicidas a dezenas de quilómetros da meta que lhe valiam as mais incríveis e vitórias. Para atacar não é preciso pensar-se duas vezes. Alberto Contador nunca parou para pensar: pedalou. Pedalou sempre à saciedade, sempre à procura de mais, sempre à procura de mais vitórias que o pudessem satisfazer. 

contador 9

No Alto do Angliru, a vitória (Alberto Contador tornou-se o primeiro ciclista a obter duas vitórias no mais temível alto do ciclismo mundial) soube a pouco. A muito pouco. Na última prova da carreira, qualquer grande campeão da história da modalidade deveria possuir o direito real a um lugar no pódio, indiferentemente do seu desempenho em questão. Contador subiu em ombros e saiu em ombros do Alto do Angliru. O público presente na estrada, inebriado em loucura bem o tentou empurrar para a vitória e para o pódio da geral, pódio que seria mais que merecido para o verdadeiro carrossel que o ciclista montou a partir da 3ª etapa. Se olharmos atentamente para a página dos resultados, a partir dessa mesma etapa (excluem-se portanto os 3 minutos averbados em Andorra devido a um problema de gástrico), Contador foi o único que ganhou tempo na montanha a Froome. Os corações palpitaram. A meio da subida, o minuto e 20 de vantagem para os mais directos perseguidores (Zakarin e Kelderman) mais os tempos de bonificação lá no alto chegavam para o 3º lugar. Zakarin foi portanto obrigado a mexer com a corrida. Ultrapassado pelo “comboio de Froome”, o russo sabia que se conseguisse manter-se perto de Froome e de Poels, dificilmente perderia a sua vantagem para o espanhol e dificilmente não conseguiria recuperar os magros 12 segundos de desvantagem possuídos à partida para a etapa para Wilco Kelderman.

enric mas 2

Um dos pormenores curiosos desta tirada: quando estiveram na presença do seu grande ídolo, tanto Enric Mas como Marc Soler, os dois principais herdeiros do triunvirato que marcou o ciclismo espanhol na última década e meia (Alejandro Valverde será o último a perecer; Purito Rodriguez já se despediu do ciclismo profissional; Contador despedir-se-à no dia de amanhã) esqueceram por momentos a rivalidade e até os objectivos das suas equipas para poderem trabalhar em prol do sucesso da sua grande referência. O ciclista maiorquino da Quickstep é um corredor muito próximo de El Pistolero visto que durante a sua formação foi um dos atletas patrocinados pela Fundación Contador na sua famosa equipa de sub-23 nos anos de 2014 e 2015. 

froome

Há que saber respeitar os outros Grandes Campeões. Christopher Froome é um Grande Campeão. Ponto final.

Christopher Froome fez história, tornando-se o 3º ciclista da história (os primeiros foram Anquetil e Hinault) a conquistar o Tour e a Vuelta no mesmo ano. O feito parece, em teoria, se olharmos para a condição física do atleta, um feito bastante fácil mas não o é. Froome teve 27 escassos dias para recuperar do rombo físico provocado por 21 dias de imenso desgaste no Tour. Muitos ciclistas precisam desses 27 dias (divididos entre estágios em altitude ou na pista, caso dos sprinters; reconhecimento das etapas; provas de preparação) para chegarem a uma competição de 3 semanas bem preparados. Em 27 dias, o inglês descansou e preparou-se para a prova, baqueando apenas, ligeiramente, numa etapa. Mais do que mérito do inglês (quando passou ao ataque), esta vitória anicha-se mais uma vez na competência da sua formação, da sua pequenina grande máquina de conquistar vitórias. Wout Poels (recompensado com um espectacular 6º lugar na geral) David López, Gianni Moscon e Mikel Nieve (sobretudo Mikel Nieve; ciclista que no próximos anos seguirá o seu natural rumo para um estatuto diferente na Orica, cremos) foram incansáveis no apoio ao seu líder absoluto.

Poderá eventualmente Froome ficar enfraquecido com a saída de Nieve e Landa? Creio que ficará tão “enfraquecido” como ficou desde a saída de homens como Richie Porte, Nicolas Roche ou Rigoberto Uran. Froome continua a ter soluções de topo (Thomas, Sérgio Henao, Vasil Kyrienka, Michal Kwiatkowski, David López, Wout Poels) para o conduzir na montanha, e já tem também uma série de corredores quentinhos a sair do forno como Gianni Moscon, Kenny Elissonde, Sebastian Henao. Posso afiançar que sem qualquer contratação, a Sky continua a ter pão para as 3 grandes voltas. A equipa vai perder Diego Rosa e Mikel Nieve, poderá perder Landa até ao final do ano, mas a caminho já vem dois grandes ciclistas: o colombiano Egan Bernal Gomez (Androni) e David de La Cruz (Quickstep).

david de la cruz 3

Por falar em David de La Cruz. Um infortúnio na perigosa descida para o Angliru, descida que ficou dificultada pelo piso molhado, retirou o espanhol da merecida luta por um lugar no top10. O corredor da Quickstep foi para mim a 2ª maior surpresa desta Vuelta atrás de Miguel Angel López. De La Cruz caiu quando seguia algumas centenas de metros à frente do grupo dos favoritos. Tejay Van Garderen (BMC) acabou, sem saber ler nem escrever, por aproveitar o infortúnio do espanhol e o dia horrível de Fábio Aru (o descolou do pelotão na 2ª contagem de montanha, tendo acumulado perdas no final da etapa de 15 minutos para Contador) . Com uma prestação medonha, o “invisível” norte-americano (raramente o vimos na frente nos momentos de decisão) conseguiu um honroso 10º lugar.

Aru

Perder 15 minutos (e cair consequentemente do 8º para o 13º lugar na geral individual na penúltima etapa só pode ser obra do demónio. A imprensa italiana referiu que o ciclista italiano, actualmente de candeias às avessas com a Astana (Aru já afirmou que quer sair para a UAE) decidiu fazer greve durante o dia de hoje para prejudicar deliberadamente a equipa na classificação geral por equipas, classificação em que a Astana tinha mais de meia hora de vantagem sobre a Movistar à partida para a etapa. Os casaques acabaram por conseguir vencer com cerca de 6 minutos de vantagem sobre a Movistar.

woods

Outra das grandes surpresas da prova foi a prestação de Michael Woods. No Angliru, mais uma vez, o canadiano de 30 anos provou que consegue andar com os melhores do pelotão internacional. No entanto, não posso deixar passar a oportunidade para perguntar: onde é que andou este ciclista até aos 30 anos? Se olharmos para o seu palmarés, e até para o seu modesto curriculum (antes de chegar à Cannondale no ano passado, o canadiano passou por várias equipas modestas das várias sub-divisões da divisão UCI Continental) nada fazia antever a possibilidade deste corredor vir a lutar por um 7º lugar na Vuelta. Woods já se tinha destacado em váris provas de alta montanha ao longo do ano mas o curriculum é realmente muito fraco. Uma vitória na Clássica de Loulé, outra numa etapa do Tour do Utah (prova onde já foi 2º da geral individual), outra no Tour de Gila, vários 2ºs lugares em clássicas como a Milão – Turim ou GP Miguel Induraín e um 9º lugar na Liège-Bastogne-Liège desta temporada, são agora complementados com um top 10 numa grande volta. O ciclista tem 30 anos. Ou das duas uma: ou teve pouca sorte ao longo da sua carreira ou então estamos aqui perante um caso muito estranho que levanta uma série de suspeitas…

Amanhã teremos a etapa da consagração. A única classificação que ainda está, em teoria, em aberto é a classificação dos pontos. Não acreditando na possibilidade de termos Vincenzo Nibali ao sprint para recuperar os 25 pontos de atraso para Christopher Froome quer no sprint intermédio quer no sprint final, sobra Matteo Trentin. O sprinter\lançador italiano da Quickstep terá que perfazer 29 pontos (4+25; vitória no sprint intermédio e vitória de etapa) para conseguir atingir o seu principal objectivo.

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