Os golos da jornada


Começo este post com o lance que deu origem ao primeiro golo do Inter na vitória dos nerazzurri por 2-0 sobre o recém promovido SPAL no jogo disputado durante a tarde de hoje no Giuseppe Meazza. A equipa de Luciano Spaletti está a conseguir realizar um prometedor arranque de temporada. Com 3 vitórias em 3 jogo e um futebol de um grau de qualidade muito aceitável, Spaletti parece estar a querer elevar o nível na formação nerazzurri. Veremos até onde este ciclo de vitórias se poderá estender.

Frente ao SPAL, modesta equipa patrocinada pela histórica e homónima empresa de porcelanas mundialmente conhecida que tem a sua sede na cidade de Ferrara (Emília Romagna; zona do vale do Pó) a formação do Inter teve algumas dificuldades para conseguir chegar ao primeiro golo em função das dificuldades criadas pela boa cobertura posicional do adversário no seu bloco recuado. Uma boa jogada realizada no interior do bloco adversário valeu a conquista (a João Mário) da grande penalidade que Mauro Icardi concretizou. 

Na jogada destaco as constantes movimentações de vários jogadores do Inter no interior do bloco adversário. Este conjunto de movimentações permitiu aos nerazurri entrar dentro do bloco adversário, fazendo chegar a construção de Valero até ao último terço do terreno.

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Vejam-se as movimentações (no sentido do centro de jogo) de Roberto Gagliardini nas costas dos jogadores da primeira linha (avançada) do adversário para oferecer uma linha de passe no interior ao portador.

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Gagliardini puxa um médio do adversário para abrir espaço nas costas deste para o movimento de antecipação de Perisic. Ao vir ao centro buscar o jogo, o croata também provoca uma série de arrastamentos no adversário. Ao realizar a tabela com o croata, a equipa vai beneficiar do espaço livre aberto pela movimentação do croata para zonas interiores, visto que o ala direito do SPAL Manuel Lazzari ficou completamente perdido sem saber o que fazer, quem marcar ou onde se posicionar. Para conseguir anular o lance, o jovem ala de 23 anos deveria ter fechado o espaço aberto entre si e o central. joao mario

O jogo acabou por se tornar ainda mais complicado para os milaneses. Numa primeira fase, o treinador do SPAL Leonardo Simplici reiterou a aposta na mesma estrutura do seu modelo de jogo, embora com algumas correcções ao nível do distanciamento entre linhas. O treinador dos visitantes pediu à equipa para encurtar ainda mais o espaço entre as 3 linhas defensivas do seu 5x3x2. Apostado em tentar surpreender o adversário numa saída rápida ou num lance de bola parada (a verdade é que o SPAL teve no início da 2ª parte duas boas oportunidades para empatar) a equipa dificultou ainda mais a penetração da formação de Spaletti nos últimos 30 metros, obrigando a equipa da casa a ter que disparar várias vezes de meia distância.

O golo que carimbou o terceiro triunfo dos nerazurri surgiria já no final da partida. Ivan Perisic disparou uma das suas fabulosas bombas a cruzamento de Danilo D´Ambrosio. Ficou portanto selada a renovação contratual assinada pelas duas partes, clube e jogador, a meio da semana.

Já o histórico rival do Inter na Série A, o AC Milan “versão Millhões.zero” de Vincenzo Montella sofreu o seu primeiro desaire da temporada, ao som da música da largura da Lazio de Simone Inzaghi.

A jogada do 2º golo dos Laziale na goleada infligida aos rossoneri é um verdadeiro convite à dança ao meio-campo adversário, cheio de movimentações (e de trocas posicionais momentâneas; esta uma das ideias que compõe os princípios de jogo ofensivos da formação da capital; Inzaghi tenta baralhar ao máximo as marcações adversárias de forma a conseguir ter um jogador livre de marcação num dos flancos) que enganam os adversários e permitem rápidas inversões do sentido de jogo.

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Após uma tentativa de transição rápida para o ataque mal sucedida, Marco Parolo até espera que a defensiva milanesa se recomponha. A linha de passe para Basta (bem projectado no terreno não está comprometida). O outro ala, o bósnio Sead Lulic (assinado a vermelho no centro) vem ao corredor central enquanto o sérvio Sergej Milinkovic-Savic toma a sua posição na ala.

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Solto o passe para o ala sérvio, Marco Parolo faz um corte para dentro, fixando dois jogadores rossoneri na sua acção, ao mesmo tempo que, com um movimento divergente para a ala, Lulic pede ao seu companheiro para estender o jogo no flanco direito. Este movimento permitirá a Basta inflectir para inverter a 180º o sentido da circulação.

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Ao realizar a inversão do sentido de jogo, o sérvio cria uma situação na qual engana por completo os médios do Milan. Como estavam em recuperação, os ditos ficam, à excepção de Franck Kessié, impossibilitados de pressionar em cima a ligação entre Lucas Leiva e Ciro Immobile. O avançado baixa para poder dar linha de passe ao colega de forma a ligar o jogo com o flanco esquerdo.

Entretanto, Basta corta para dentro, ficando Lulic com o exterior e sem marcação visto que Matteo Musacchio volta a tentar reposicionar-se no centro da defesa e Ricardo Rodriguez está preso ao movimento de Basta.

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Como podemos ver, Parolo também já se juntou à frente de ataque. A movimentação sem bola do médio defensivo é fulcral na segunda fase de desenvolvimento da jogada.

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O volley de Immobile é fantástico para concluir esta brilhante jogada. Gesto técnico bastante apurado de um ponta-de-lança fenomenal!

Cheira, cheira filho! Vê-la se não partes uma perna!

Se o lance do 2º golo foi fantástico, vejam o do 3º.

Luís Alberto vai à quina da área facilitar a triangulação entre os homens do flanco esquerdo, seguindo à posteriori para a área. Lulic deveria ser obrigado a pedir mil vezes desculpa a Davide Calabria pela maldade que lhe fez. A bola segue para a área, onde, à medida das ideias de Inzaghi (o treinador gosta que a equipa consiga colocar o máximo número de unidades na área em zona de finalização, com o intuito expresso de dar ao jogador que realiza o cruzamento ou o último passe uma multiplicidade de opções para decidir e definir o lance)estão três homens. Um deles é novamente o médio Parolo. A assistência do médio para o hat-trick de Immobile é simplesmente deliciosa.

Um bom exemplo de uma boa tomada de decisão num período usualmente marcado pela irracionalidade e pelo “coração”

Esta é uma das razões que me faz admirar Adem Ljajic desde os tempos em que o sérvio jogava na Fiorentina. Há muitos anos que considero o extremo de 25 anos um mais desaproveitados tecnicistas da Série A. Ljajic não vingou nos grandes pelos quais passou (Roma, Inter) porque nenhum treinador conseguiu verdadeiramente mudar a sua atitude e a sua entrega ao jogo. O sérvio tanto é capaz de resolver um jogo aparentemente mortiço como é capaz, no jogo seguinte, de ser expulso aos 2 minutos de jogo por agressão ou de passar 90 minutos afastado do centro de jogo, ou seja, 90 minutos sem participar no espectáculo. O seu feitio balcânico (é um jogador\pessoa muito temperamental; em Itália dizem mesmo que o sérvio é um atleta pouco profissional, chegando sempre bastante atrasado aos treinos) está claramente a atravancar-lhe a carreira.

No entanto, sempre que considero pertinente, tento realçar mais os atributos de cada jogador do que as suas lacunas. Creio que essa atitude vem claramente do meu lado romântico, da minha veia de apreciador do espectáculo. Para além de ser um jogador com uma técnica individual apurada (considere-se como técnica, a habilidade que determinado jogador adquiriu no capítulo do passe, recepção, condução, remate e cabeceamento) Ljajic é (quando quer) um jogador que possui uma fantástica leitura de jogo, característica primordial que qualquer bom decisor deve ter.

O sérvio demonstrou claramente que lê bem, vê bem e decide ainda melhor. Não existe para mim melhor prova dos 9 para o aferir uma boa decisão do que uma decisão marcada pelas limitações de tempo e de contexto. Um jogador que define e decide desta forma no último minuto de uma partida inquinada ao longo de 90 minutos para um sensaborão empate, tem que ser um jogador com uma capacidade cognitiva elevadíssima.

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O sérvio contemporiza para ver os apoios e as linhas de passes disponíveis, enquanto medita nas probabilidades de progressão que a equipa terá em cada uma das opções. Como percebe que as opções disponíveis não lhe irão oferecer a desejada progressão (se passar para a subida do lateral, só terá um jogador no interior da área, p.e) contemporiza à espera de mais apoios.

Ao flectir para dentro em drible, Ljajic espera que o avançado faça a desmarcação para as costas da defesa para lhe colocar a bola ou para abrir o espaço que precisa para no espaço. 

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Ao mesmo tempo, Iago Falqué apercebe-se do espaço existente nas costas do central que joga pela interior direita. O espanhol entra no espaço e o sérvio toma a melhor decisão possível, colocando-lhe a bola na perfeição. 

O que é que grande parte dos jogadores fariam nesta situação em concreto, ao 2º minuto dos 4 dados em descontos? 

Estou certo que se olhassem para qualquer uma das opções, 90% dos jogadores d tentariam decidir através de uma “clássica” acção individual, no desespero.

Um clássico do futebol italiano numa meia hora atípica para a formação de Maurizio Sarri. 

A ligação entre Lorenzo Insigne e José Maria Callejón a dar 3 pontos ao Napoli na visita do terreno do ousado Bologna. Ao 2º poste. Já se pode considerar um movimento clássico com direito a trademark da História do Futebol Italiano. No entanto aproveitei para colocar aqui propositadamente os highlights da primeira parte para vincar os 45 minutos de levantar cabelos que Sarri viveu no Renato Dall´Ara à conta de uma atípica falta de intensidade dos napolitanos num dos pontos-chave do modelo do seu treinador. À conta de muita velocidade na transição, todos os ataques rápidos que o Bologna colocou no primeiro tempo criaram perigo junto da baliza de Reina. Logo que o primeiro golo entrou tudo se alterou e Mertens até pode, no lance do 2º golo, aproveitar um brinde de um dos centrais da formação da casa.

Apostado em tentar lutar por um lugar na Squadra Azzurra para o próximo mundial está Simone Verdi. Apesar de já contar com uma internacionalização pela sua selecção (num amigável realizado em Junho frente a San Marino) Giuseppe Verdi é um daqueles avançados que teima em firmar credenciais. Assim se explica o seu errático percurso nos últimos 6 anos. Em 2010, no Milan, clube onde se formou, o extremo\avançado era tido como uma das grandes promessas do futebol italiano em virtude da sua rapidez, da sua fantasia e do seu extraordinário skill técnico. O potencial do jogador não se veio a confirmar. Em 6 anos, Verdi passou pelo Milan, Torino, Jube Stabbia, Empoli (novamente o Milan pelo meio), Eibar e Carpi antes de aterrar em Bologna. Será este o ano da sua afirmação dentro da Lega Calcio Serie A? Vou estar atento.

Uma intenção e uma movimentação fazem toda a diferença numa transição bem sucedida para o contra-ataque!

Do campeonato italiano rumo até ao francês, mais concretamente para a vitória do Lyon frente ao Guingamp por 2-1. No primeiro golo dos comandados de Bruno Genesio, destaco o mágico trabalho do dominicano Mariano Diaz, jogador de 24 anos que nos últimos anos andou escondido por Madrid no Castilla, satélite do Real.

mariano diaz

Ao dar a entender que vai lançar a desmarcação do companheiro que é feita para as costas do lateral, o dominicano atrai a atenção de um dos centrais do Guingamp. É essa atracção que leva o jogador em questão a encaminhar-se para o local em vez de sair para pressionar\desarmar. Com um ligeiro toque, o dominicano aproveita a deixa para flectir para o centro e para rematar em arco, não dando qualquer hipótese ao jogador em questão para intervir no lance.

Lembram-se dele? Adrian Lopez! Que golaço!

Joaquin, toda uma institución!

Aos 36 anos, a cumprir a sua reforma dourada no clube do seu coração, Joaquin continua a colocar bolas na cabeça dos avançados como ninguém. Para termos a noção esta é a sua 127ª assistencia da carreira.

Já que estamos em “modo tecnicistas”…

Se lá atrás afirmei que considero Adem Ljajic um dos maiores tecnicistas da Liga Italiana, aproveito o balanço para afirmar que Samu Castillejo é pelos mesmos motivos um dos melhores da liga espanhola. A forma em como o canhoto recebe, ajeita, adocica e remata é pura e simplesmente deliciosa. Craque da cabeça aos pés!

 

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