Mais uma vez a gestão da vantagem


olympiacos

Rodrigo Battaglia não foi o melhor em campo por um triz. O argentino fez uma partida maravilhosa, bem ao nível daquilo a que nos tem vindo a habituar neste início de temporada. Com um raio de acção e intervenção enorme a toda a largura do terreno, o argentino voltou a cair em cima dos adversários directos que nem um galgo no corredor central (acções que lhe valeram várias recuperações). No entanto, ao nível individual, a exibição que me encheu o olho foi a de William Carvalho. William foi titânico nos duelos corpo-a-corpo no meio-campo, lançando o ataque com a clarividência que lhe é reconhecida. Na 2ª parte, o médio foi o único jogador que compreendeu que o Sporting tinha de subir linhas para afastar o jogo da sua baliza e dominar o adversário pela posse, preferencialmente pausada e dentro do meio-campo adversário. Numa equipa de “aceleras”, William é o único jogador que sabe medir o pulso ao jogo, colocando o “critério rítmico” que a equipa tem de colocar para gerir as suas vantagens através da posse no meio-campo adversário. 

Estádio Giorgios Karaiskakis, Pireu, coração da capital helénica. Com uma estratégia de jogo extremamente bem planeada (fruto de uma boa observação à disposição do adversário e aos erros já identificados no post anterior ao nível das suas fases defensivas) e bem executada pelos onze que Jorge Jesus colocou em campo, os primeiros 45 minutos da partida foram “olímpicos” para a formação do Sporting. Os 3 golos alcançados até souberam a pouco se considerarmos que o Sporting dispôs de 7 oportunidades de golo, 2 das quais negadas pelos ferros da baliza de Kapinos.

A 2ª parte foi, porém, à semelhança do que acontecido noutros rosários (Estoril em Alvalade; Santa Maria da Feira), um imenso e penoso calvário de erros que me leva a interrogar se Jorge Jesus não tem o crematório de velas do Santuário de Fátima por sua conta, acrescidas de uma dúzia de missas encomendadas ao padre local na Igreja da Charneca da Caparica para o Sporting em troca de uma certa protecção divina à equipa nos últimos minutos.

Por demais visível e até crassa (a equipa comete erros grosseiros atrás de erros grosseiros na gestão da vantagem, tornando as suas pontas finais um espectáculo à prova de desfibrilador para os mais sensíveis do foro cardíaco) é a forma em como esta equipa gere as vantagens. Mais que intensidade (a tal que lhe garante vantagens precoces) a equipa tem perdido acerto na sua estratégia de jogo. Por laxismo ou por excesso de confiança (a equipa inverte rapidamente o excesso de zelo em excesso de confiança) o que é certo é que a equipa inverte completamente as linhas pelas quais se deveria coser quando tem o adversário na mão.

Ao invés da estratégia mais correcta para se gerir uma vantagem, pela posse, dentro do meio-campo adversário, sem desistir, sempre que possível, do ataque à baliza adversária, montando uma teia posicional que permita circular a bola a toda a largura e profundidade do terreno, preferencialmente a um ritmo pausado, de pé para pé, sem cometer riscos, sem perder o equilíbrio defensivo (os mecanismos de reacção à perda para estacar imediatamente a acção adversária), recuperar a posse e voltar a montar o carrossel, um carrossel que obrigue o adversário a enervar-se, a cometer faltas, a cheirar a bola durante longos períodos de tempo (desencadeando uma reacção normal no pensamento dos jogadores adversários que os impele a reagir através da acção individual facilmente anulável; quando os jogadores de uma equipa que está a jogar em casa, a correr contra o tempo em função de uma determinada vantagem adquirida pelo adversário, tem que enfrentar um longo período de circulação adversária, a reacção normal será perder por completo o discernimento e tentar desequilibrar através de acções individuais) a equipa do Sporting faz completamente o contrário: desce linhas, desintensifica a pressão, deixando o adversário construir à vontade, falha como as notas de mil na marcação e não consegue voltar a sair para o meio-campo adversário com qualidade.

Mais uma vez considero que a coisa poderia ter sido mais grave se o Olympiacos tem conseguido marcar naquele lance no qual os centrais, estóicos (estão a construir uma belíssima dupla) a meias, evitaram o pior. Se os gregos tem relançado a partida a meio do 2º tempo, a equipa do Sporting não estaria agora a celebrar a sua vitória mas sim um doloroso empate. Um daqueles dolorosos empates que deixa marcas para o jogo seguinte.

Esta equipa do Olympiacos deixa, na minha humilde opinião, muito a desejar quer ao nível de processos defensivos (já identificados no post anterior) quer ao nível de processos ofensivos. A equipa tem dois bons construtores (Odjidja e Marin) mas é uma equipa com um modelo de jogo algo previsível de flanqueamento de bolas para as subidas de Diogo Figueiras na esquerda (a jogar na esquerda, o lateral português opta quase sempre por puxar a bola para dentro para o seu pé direito de forma a servir as entradas de Djurdjevic na área e\ou dos extremos Carcela e Pardo ao 2º poste; na 2ª parte Gelson deixou-o andar à solta e Piccini encostou-se em demasia aos centrais, abrindo muito espaço na ala para o português recebe e cruzar) e de construção triangular no flanco direito, visando sobretudo, com as tentativas de criação de superioridade 3×2, colocar Carcela em condições de criar sem oposição nas costas dos laterais adversários.

jonathan

Como Jonathan pecou imenso no capítulo da marcação (deixando Carcela ganhar-lhe consecutivamente em vários lances) as costas, foi daí que nasceram os parcos lances de perigo criados pela formação grega. Na primeira parte, um cruzamento deflectido (por Mathieu) do belga foi o único lance de verdadeiro perigo criado pelos gregos.

Na 2ª parte, a primeira oportunidade dos gregos nasce de um lance muito similar ao do lance do golo de Etebo na sexta-feira (vide aqui) no qual William não é capaz de fechar a linha de passe interior com uma rápida abordagem ao portador do esférico.

A partir desse lance, a equipa ensandeceu. O que me causou mais espanto foi o nervosismo sentido pelo seu jogador mais experiente ou supostamente mais experiente: Rui Patrício. Jorge Jesus queria (a toda a força) que a equipa praticasse um início de construção a partir do seu eixo defensivo que pudesse convidar a formação grega a subir desordenada e desesperadamente as suas linhas (à procura de um eventual erro na transmissão) para voltar quiçá a capitalizar no jogo entre linhas, colocando a bola nos pés de Bruno Fernandes, com espaço e tempo para lançar em profundidade as corridas de Doumbia. Quando Dost entrou, a equipa ficou em completo contraciclo. Inútil nas saídas para o contra-ataque, o holandês limitou-se a tentar entregar o seu físico aos duelos no meio-campo. O tiro saiu-lhe pela culatra porque o seu guarda-redes não soube manter a compostura adequada à ocasião. Com uma nervosa e descontrolada série de tiros para o nenhures, a cada pontapé para fora, em vez de forçar o erro dos gregos, o guardião convidava-os a avançarem totalmente no terreno. Juntando este facto à desintensificação da pressão e ao descontrolo claro no sistema de marcações, o Sporting sofreu dois golos nos últimos 5 minutos e só não saiu de Atenas com menos 2 pontos e meio milhão de euros no seu bolso porque Felipe Pardo não teve mais tempo para ganhar novamente as costas e a frente do lance a Jonathan Silva. Se o Olympiacos tivesse mais um ou dois minutos para poder circular a bola par a esquerda de forma a colocar mais 2 ou 3 cruzamentos, o Sporting teria empatado…

jonathan 2

jonathan 3

Jonathan não evoluiu nada neste aspecto particular desde a fatídica mão invisível de Gelsenkirchen, continuando a estender a toalha ao adversário nas situações em que o adversário procura realizar cruzamentos longos para o seu raio de acção.

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2 thoughts on “Mais uma vez a gestão da vantagem”

  1. Bom dia Caro João, mais uma vez subscrevo quase íntegra a sua análise. Gostaria de adicionar, que a equipa claudicou fisicamente cerca dos 70m. Acuña, B.Fernandes, Doumbia, Gelson e Piccini estavam de rastos.
    Mais uma vez JJ mexeu mal e tarde (já tinha começado mal com a não inclusão do Iuri na ficha de jogo), o BC devia ter entrado para o lugar do Acuña, o Iuri deveria ter entrado para o lugar do Gelson e podia ter metido o Petrovic no lugar do BF. Mas o JJ só mexe aos 60m e depois cerca dos 75m (não são muitos os jogadores com capacidade de impactar as equipas com menos de 20,25m de jogo. O Podence faz muita falta, pois tem essa capacidade), guardando sempre a ultima substituição para os últimos 5m…
    Contudo, compreendo a entrada do Bas Dost numa optica de gestão do grupo (o Bas Dost por tudo o que aporta à equipa merece jogar na UCL) e na tentativa de repetir o que se passou em Bucareste.
    Na minha óptica, o facto do Doumbia não ter combustível para o jogo todo, deve-se ao pouco tempo de jogo no campeonato. O JJ tem que rodar mais e melhor a equipa dando minutos às opções sobretudo no campeonato.
    Foi ainda assim no balanço final, uma grande exibição do SCP que poderia ter terminado com outro desfecho.
    Notas finais:
    1- não compreendi o golo anulado ao B. César
    2- este resultado impossibilita aquele que é para mim um dos principais perigos para a equipa, o auto-deslumbramento do JJ que no passado teve efeitos tão nefastos.
    3 – Os amarelos recebidos, que podem ter um impacto marcante nos próximos jogos, sobretudo se pensarmos que o teremos que fazer uma marcação zonal repartida ao Messi (Battaglia e B. Fernandes podem facilmente levar um amarelo).

    Saudações Leoninas

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    1. Caro Miguel,

      Concordo com quase tudo o que disse em relação Às substituições porque era visível o estado físico lastimável em que se encontravam alguns jogadores (Bruno, Doumbia, Acuña). Parte do problema pode residir aí. Há jogadores que tem sido sujeitos a imenso desgaste porque a estratégia de jogo da equipa nas primeiras partes (muita correria, muito “saltar” de pressão em pressão”) exige muito do físico dos jogadores. No entanto, continuo, se me permitir a bater no meu ponto: uma equipa que quer gerir pela posse (adormecer o jogo) terá, indiferentemente das substituições, de ter jogadores capazes de pausar o jogo quando é necessário. Esta equipa está cheia de aceleras que não sabem adormecer jogos. O único que se esforça para o fazer é o William. Ele é neste momento a voz de comando em campo. Com um sinal ele sabe dar a indicação necessária para a equipa iniciar a prática dessa estratégia. Muitos consideram que uma segunda parte controlada pela posse é uma segunda parte de seca. Sinceramente, essa “seca” é aquela que mais desejo para o futebol do Sporting. Quero que o Sporting controle cedo e segure bem.

      Quanto ao golo anulado ao Bruno César, ninguém compreendeu 🙂 O golo é limpinho.

      2 – Sem dúvida. Vejo o Jorge Jesus mais focado que nunca, interessado sobretudo em dar o mínimo daquele showoff egocêntrico possível. O gajo até está a ser muito inteligente na forma em como está a desarmar (com elogios) a chaga que a CMTV manda para as conferencias de imprensa. Eles bem o tentam colocar sob provação para ver se o tiram fora da toca, mas ele tem-se mantido hirto.

      3 – Pelo que tenho visto (frente ao Espanyol e a Juventus) o problema não é apenas o Messi. Claro que teremos de encurtar linhas (e atentar as suas movimentações) para que ele não receba e não tenha espaço para criar, mas a questão é que também deveremos estar atentos as movimentações entrelinhas do Iniesta e À distribuição do Rakitic. O Rakitic está claramente a fase de construção do Barça.

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