Os golos da Champions


Contra todas as opiniões que tenho ouvido sobre o valor do jogador nos últimos anos, depois de ter feito sensacionais temporadas no Everton no qual foi “um pau para toda a obra de 80 metros de comprimento” para David Moyes, eu compreendo as declarações de Mourinho quando afirmou que o belga Marouane Fellaini é um jogador com uma importância superior na equipa (e nos seus processos; quer nos ofensivos, quer nos defensivos) aquela que tanto a imprensa como os adeptos lhe tem atribuído.

Contra o jogador belga incorrem as justas críticas que lhe apontam os defeitos do seu jogo: o belga é lento a pensar e a executar (critério que faz toda a diferença no frenético pace do futebol inglês) erra muitos passes fáceis, não toma as melhores decisões, é muito perdulário e perdeu ao longo dos anos aquela que era a sua principal característica ofensiva: o remate de meia distância. No entanto, creio que José Mourinho fez um belíssimo trabalho de remodelação do jogador ao seu pragmático modelo de jogo. O belga é hoje um jogador híbrido (um médio que entra muito bem em zona de finalização) que cumpre as funções que lhe são requeridas pelo treinador português quer no plano ofensivo, quer no plano ofensivo. 

O futebol de Mourinho é quer queiramos quer não um futebol cínico sem “tricôs” e sem notas artísticas.. Eu sou um daqueles que acredita e defende que o excessivo pragmatismo  do futebol das suas equipas está algo historicamente ultrapassado. Tão ultrapassado como a estratégia de marcação homem-a-homem que ainda é utilizada a rodos pelo português. Uma equipa que se quer afirmar como candidata a algo terá obrigatoriamente de assumir o jogo, terá obrigatoriamente que quebrar as amarras tácticas que ainda são impostas pelo português aos seus jogadores, tem que ser mais móvel do que a mobilidade que é apresentada pelo Manchester United. Mourinho é hoje um treinador muito mais despreocupado na construção exaustiva de um ou mais modelos de jogo, continuando a apresentar as mesmas ideias que apresentou no Chelsea, no Inter, no Real e no Porto (simplificando-o até para moldes básicos nunca antes vistos nessas equipas; O Chelsea era uma equipa com muito mais conteúdo, com uma transição bastante mais forte; no United, os processos andam quase sempre à volta do “mesmo” o clássico flanqueamento de jogo para os slaloms em drible dos extremos, em ataque organizado ou a colocação de passes verticais para a entrada da área, servindo o ponta-de-lança como um target-man que avança para a finalização ou segura até à chegada de apoios; uma enchurrada de cruzamentos para a área; as clássicas saídas em contra-ataque nas quais a equipa procura imediatamente a sua referência ao nível de velocidade; quando a equipa está a perder o jogo é descomplicado ainda mais, passando a equipa a praticar um futebol excessivamente directo sem meio termo; é neste último processo que Fellaini é muitíssimo importante) e “mais focado” (centrado) na adequação da sua equipa ao sistema táctico, aos processos e às características (dos jogadores) do adversário.

mourinho 4

Neste modelo pragmático, Fellaini apresenta duas características fulcrais que incorrem a favor da sua execução o seu poderoso jogo aéreo e a sua entrega ao jogo. O belga não é, como já referi lá atrás, um jogador em que se possa confiar uma estratégia de jogo montada para dominar um adversário, mas é um jogador com o qual o treinador pode contar para ajudar a desbloquear um jogo em que a equipa possa sentir dificuldades para chegar à área através de jogadas de bola corrida. Contra o Basileia não foi esse o caso mas o que é certo é na primeira oportunidade de golo que teve na sua cabeça, o jogador conseguiu resolver um jogo algo inquinado em virtude da perda de várias oportunidades de golo por parte dos seus companheiros. No plano defensivo, o belga é um jogador que empresta muito músculo e muito espírito de combate ao meio-campo, estorvando e pressionando a construção adversária, lutando afincadamente pelo turnover e pela recuperação da posse nas divididas. O seu espírito combativo e a sua entrega ao jogo são inquestionáveis, até para os maiores críticos do seu futebol. Mais que inquestionáveis, a sua atitude e o seu espírito combativo são vitais para a prática das ideias do seu treinador (um meio-campo durinho, batalhador, recuperador, rasgadinho) e para as linhas do guião do futebol britânico.

Algumas mudanças no Bayern de Ancelotti.

Factos inegáveis: com as contratações de Corentin Tolisso e de James Rodriguez e a colocação preferencial no colombiano nas costas do ponta-de-lança (podendo em caso de carência saltar facilmente para qualquer uma das alas), a formação bávara ganhou ainda mais criação no jogo interior e está menos dependente da criatividade dos extremos, jogadores que notoriamente já não tem a velocidade de outros tempos; pese embora o facto da equipa continuar a apostar mais (já não tão excessivamente) no 1×1 de Franck Ribèry, nas situações de overlap do flanco direito e na colocação de bolas em profundidade nas subidas de Joshua Kimmich pelo flanco direito, prerrogativa que permite a Arjen Robben entrar mais em zona de finalização. Vejamos alguns lances que me saltaram à vista no resumo alargado que vi da partida há minutos:

Uma das várias características do francês: a meia-distancia. Considero porém que as duas maiores características são a sua entrega ao jogo e a rapidez com que chega às segundas bolas.

A contratação dos dois jogadores também acrescentou à formação de Ancelotti uma maior capacidade de tiro de meia distância. Na primeira jogada, é Lewandowski quem vem ao exterior abrir um screen que permite o remate de meia distância a James.

Rabiot: a aceleração e o último passe!

Já aqui abordado pelo seu ecletismo, o métrico e meticuloso médio francês é cada vez mais importante na batuta da criação da orquestra ofensiva de Emery.

Sempre escondido atrás da linha média à espera que Marco Verratti ou Thiago Motta lhe coloquem a bola entre as linhas adversárias para acelerar e romper com o seu apurado último passe.

O Qarabag não é definitivamente deste campeonato!

A formação azeri, orientada por Gurban Gurbanov não tem pura e simplesmente estaleca para estas andanças. A começar pelo seu treinador. Apesar de concordar com a inclusão por via das rondas de qualificação de várias equipas dos países menos cotados no ranking das competições de clube na UEFA por vários motivos (o desenvolvimento do seu futebol, em função da competição contra equipas mais fortes; a experiência internacional adquirida por jogadores com pouco acesso à experiência internacional por via dos jogos de selecções; a redução das assimetrias existentes entre o futebol das potências europeias e o futebol dos países em desenvolvimento; a verdade é que a inserção destas equipas tem ajudado imenso ao crescimento do futebol naqueles países, quer ao nível da competitividade das mesmas, quer ao nível do crescimento de competitividade das respectivas selecções, quer ao nível do crescimento do número de praticantes, quer também ao nível da melhoria das infraestruturas para a prática e da aquisição de equipamentos e staff técnico capaz de melhorar as condições e a qualidade do treino) a verdade é que estas equipas por vezes ainda demonstram alguns pormenores de puro amadorismo.

qarabag

Se eu visse esta mesma disposição num jogo de iniciados (nem que fosse num jogo de distrital) não hesitaria em chamar “lorpa” ou “asno” ao treinador que trabalha ou permite esta mesma disposição na marcação de um pontapé de canto porque estaria a ensinar maus princípios aos miúdos. Reparem a vermelho nos 5 jogadores que não estão a marcar qualquer adversário (2 jogadores nos postes!!) enquanto um jogador do Chelsea a azul passeia-se pela área livremente à espera que a bola lá caia para estorvar a acção do guarda-redes (está sem qualquer protecção à sua volta) e Pedro, espera tranquilamente a entrada da bola à entrada da área porque a equipa azeri não tem lá nenhum jogador!

qarabag 2

Os problemas com a defesa aos lances de bola parada mantiveram-se na 2ª parte. Alguém deverá ter dito ao intervalo a Gurbanov que a equipa não tinha qualquer jogador à entrada da área. Menos mal! No entanto, defender com muitas unidades dentro da área nem sempre é sinal de sucesso! Este frame demonstra um chorrilho de erros de puro amadorismo:

A azul: quando Fabregàs recebe a bola, o médio demora algum tempo a passar. A defesa deveria ter subido em bloco para colocar os adversários em fora-de-jogo.

Como não subiu, o jogador que está à sua frente não faz o devido ataque à bola porque o espanhol continua com linha de passe. O seu apoio está como podemos ver longe. Se tivesse sido rápido a sair, o jogador poderia ter atacado o espanhol. 

William está atento ao posicionamento defensivo. Como a defesa não saiu, o brasileiro só tem de guiar o seu posicionamento pela linha defensiva para estar sempre em jogo.

A azul, lá atrás: 2 jogadores com adversários nas costas.

No meio: 3 jogadores estáticos, livres de qualquer responsabilidade ao nível da marcação, anulam qualquer possibilidade da equipa vir a surpreender o adversário na transição em caso de recuperação. 

Dou de barato a falha na ,do jogador que permite a Cesar Azpilicueta entrar porque é um jogador que tem a missão de marcar homem-a-homem. As falhas acontecem e devem ser tomadas como naturais (claro está, desde que devidamente trabalhadas para não acontecerem em todos os jogos).

Tantos e tão poucos… até se estorvam…

Por último, guardarei a magnífica exibição de David Zappacosta para outra oportunidade.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s