Conceição e a “mudança do chip” para as competições europeias


sérgio conceição

“Se alguém é culpado desta derrota sou eu. A abordagem estratégica a este jogo não foi boa.»

Conceição deu a cara pela derrota mas não revelou, por motivos óbvios, aquilo que toda a gente pode ver à vista desarmada no jogo desta noite: uma equipa de meio-campo partido, no qual Danilo foi demasiado exposto a situações de inferioridade numérica em função das subidas de Oliver no terreno e do expresso apoio que é dado pelo médio ofensivo espanhol ao sector mais avançado, facto que o tornou o trinco incapaz para apagar todos os fogos na saída para o contra-ataque do adversário. 

Comecemos pelos “básicos” do futebol: apesar de existirem certas excepções, as equipas com maior poderio ofensivo que lutam por objectivos altos ou médio\altos (títulos, apuramentos para as competições europeias) são por defeito, equipas mais sujeitas a ter que passar uma grande parte do jogo instaladas no meio-campo adversário em ataque posicional. As equipas de objectivos mais baixos ou seja, aquelas que lutam afincadamente pela manutenção ou pela obtenção de pontos que lhe permitam um campeonato mais desafogado na sua recta final são equipas que tendem a adoptar uma disposição mais recuada no terreno e um comportamento muito conservador (excessivamente focado na questão dos equilíbrios defensivos) na abordagem aos jogos contra as equipas que tem objectivos mais altos e\ou maior poderio ofensivo.

Não quero porém, de forma alguma generalizar esta norma-padrão histórica do futebol, norma-padrão que foi validada ao longo de décadas de observação de centenas de formações. Grande parte das equipas vencedoras são equipas que passam grande parte das partidas a tentar invadir o espaço adversário em ataque posicional, mas, como todos sabemos, esporadicamente lá aparece uma equipa (as equipas de Mourinho, por exemplo; o Leicester de Ranieri, a Juventus de Marcelo Lippi, o Atlético de Madrid de Simeone, a selecção italiana do Mundial de 82, entre outros exemplos históricos) capaz de conquistar títulos à guisa de um modelo de jogo operacionalizado com base numa arreigada estrutura (e atitude) ultradefensiva complementada por processos ofensivos estrategicamente verticais, pragmáticos e cínicos, próprios da transição ofensiva em contra-ataque.

O grande erro de Conceição na partida residiu no avanço de Óliver no terreno. Se em teoria, na ficha de jogo, Conceição já sabia que a sua equipa ficaria exposta a uma superioridade numérica 3×2 a meio-campo (Ozyakup, Hutchinson e Talisca frente a Óliver e Danilo) quando o técnico pediu ao jogador para se adiantar mais no terreno de forma a apoiar a frente de ataque, chegando o espanhol a aparecer várias vezes em zona de finalização, deu o bónus que era pretendido pelos turcos, visto que Danilo foi insuficiente para travar a saída para o contra-ataque de uma equipa que tem a meu ver, um dos seus pontos fortes, na saída para o contragolpe dada a qualidade individual dos seus executantes.

A disposição e os processos ofensivos da formação de Senol Gunes foram, nesta partida (acredito que na Liga Turca o Besiktas tenha de passar mais tempo a atacar no meio-campo adversário) relativamente fáceis de compreender à primeira tentativa. Num meio-campo funcionalmente tripartido no qual Atiba Hutchison tem uma extraordinária capacidade para conseguir retirar o esférico das zonas de pressão adversária e lançar o ataque através de longas aberturas no passe longo para os flancos (onde aparecem, bastante abertos, junto às linhas, os extremos Ricardo Quaresma e Ryan Babel; onde cai por vezes o avançado Cenk Tosun, passando Babel para zonas interiores sempre que o avançado procura receber na ala esquerda), Ozyakup é um construtor nato (quase sempre pelo chão) e Talisca aparece à frente “na zona de criação”, o mais próximo possível da área adversária para “sacar um coelho da cartola” quer através do seu apurado remate quer através do último passe (concentrando uma data de jogadores na sua acção antes de abrir para a desmarcação do avançado para as costas da defesa ou para a entrada dos extremos em zona de finalização; em especial, Babel; exemplo disso foi o lance de perigo criado pelo brasileiro logo aos 4 minutos) sem esquecer que quando a bola é enviada para as alas, o brasileiro tenta entrar em zona de finalização (prova disso foi o movimento executado pelo brasileiro no lance do primeiro golo), a equipa turca foi no Dragão uma equipa especialmente inclinada para a transição para o contragolpe vertical e pragmático alicerçada no controlo do meio-campo.

Defensivamente, os turcos deram um pequenino empurrão ao entusiasmo do técnico portista. Ao expor numa primeira instância os laterais quando a equipa tentava sair a jogar a partir do seu meio-campo, sempre que a equipa perdia a bola, havia algum espaço para lançar nas costas destes. Conceição tentou o melhor de dois mundos (explorar o adiantamento dos laterais adversários e matar as dificuldades que a equipa estava a sentir a meio-campo) quando colocou Marega na ala e puxou Brahimi para o meio, passando Oliver a frequentar terrenos mais próximos do corredor direito com franquia directa para a área quando fosse necessária a presença de mais unidades em zona de finalização. A passagem do argelino para o meio, no meu entendimento tinha um propósito específico que visava condicionar ofensivamente os dois centrocampistas da formação turca, obrigando-os a ter que baixar no terreno para acompanhar mais de perto as movimentações do argelino nas suas costas, facto que lhes poderia retirar preponderância nos processos ofensivos acima descritos.

Nem a mudança do internacional argelino para o meio reduziu a exposição em inferioridade de Danilo. Incapaz de pressionar os dois centrocampistas numa primeira fase (a equipa também não foi incisiva na reacção à perda) e de estar ao mesmo tempo de olho em Talisca (o médio portista tem um raio de acção extenso mas não tem o dom da ubiquidade) o médio foi incapaz de acorrer a todos os fogos.

Quero com isto concluir que este sistema de jogo é um sistema muito útil para as dificuldades que são colocadas por equipas que apresentem um comportamento globalmente mais conservador (fechadas no seu meio-campo; que saem com poucas unidades para as acções ofensivas; quando digo poucas unidades digo 2, ou 3, no máximo; o Besiktas saía quase sempre com 6) como são os casos de grande parte das equipas da liga portuguesa mas não é viável para os jogos das competições europeias, frente a equipas que apresentem um maior potencial na saída na transição para o contra-ataque porque a equipa fica demasiado exposta defensivamente.

Momento da partida: 

Em completo contraciclo com a fase positiva que o FC Porto estava a passar na partida, Cenk Tosun, saiu da esfera de acção dos centrais para aproveitar aquele espaço entre linhas concedido pelos portistas para receber, girar e rematar aquela pequena bomba. Não creio que houvesse muito mais a fazer da parte de Casillas visto que o espanhol teve que atacar uma bola que lhe passou seguramente a uns 130 ou 140 km\h. Poucos são até os guarda-redes que tem um tempo de reacção tão rápido quanto o tempo de reacção do espanhol a este remate.

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