Antevisão aos campeonatos do mundo de ciclismo


peter sagan 5

Quem poderá suceder a Peter Sagan como o proprietário (no próximo ano) da camisola do arco-íris, símbolo da União Ciclista Internacional? Terá o próprio ciclista eslovaco capacidade para conseguir realizar em Bergen um feito inédito na história do ciclismo ao tornar-se o primeiro atleta a conquistar três vitórias seguidas na prova de estrada dos Campeonatos do Mundo? 

Os Mundiais de ciclismo estão aí à porta. De 17 a 24 de Setembro, cerca de um milhar de atletas dos mais variados escalões (dos juniores ao escalão de elites) e das mais variadas proveniências do globo tentarão, individual ou colectivamente (desde há alguns anos a esta parte tem-se realizado o contra-relógio por equipas) lutar por um sonho que é co-partilhado por todos os que participam na prova: conquistar o direito a possuir a camisola de arco-íris do seu respectivo escalão ou especialidade no próximo ano. Em Bergen, o palco escolhido pela UCI para a edição de 2017 da prova, teremos uma semanada de eventos compostos por 12 provas. Do contra-relógio masculino ou feminino por equipas à prova de estrada de elites (domingo, dia 24, com início marcado para as 10.05 de Bergen\9:05 em Portugal Continental), prova máxima que encerra as festividades, tentarei acompanhar o máximo número de provas, com especial incidência para as provas de sub-23 e elites.

Neste post irei como habitualmente realizar uma breve antevisão ao traçado desenhado pela organização norueguesa para além da indispensável apresentação das figuras, com especial relevo para as provas de estrada e contra-relógio do escalão de sub-23, para as provas do escalão de elites e para a participação portuguesa em todos os escalões de competição.

Comecemos pelo perfil da etapa.

bergen

Para as provas de estrada da presente edição de 2017, a UCI voltou a optar por um percurso dividido em duas fases para o escalão de juniores elites masculinas: a primeira parte da tirada será corrida em linha entre Rong e Bergen enquanto a segunda será corrida em circuito fechado. Para os diversos escalões da vertente feminina e para os sub-23 masculinos a prova só será corrida no circuito fechado desenhado pela organização. A extensão das provas é bastante variável consoante o escalão etário.

  • A prova de estrada de juniores femininos terá a extensão de 76.4 km divididos por 4 voltas ao circuito final.
  • A prova de estrada de juniores masculinos terá a extensão total de 133 km, divididos entre 57,4 km corridos em linha e 75,4 corridos em circuito fechado num total de 4 voltas.
  • A prova de estrada de sub-23 masculinos terá a extensão de 191 km corridos em 10 voltas ao circuito fechado.
  • A prova de estrada de elites femininas terá a extensão de 152,8 km corridos em 8 voltas ao circuito final.
  • A prova de estrada de elites masculinos terá a longa extensão de 267,5 km (prevê-se no melhor dos cenários uma prova com a duração de 6 horas; média horária de 44 km\h; o cenário razoável aponta para uma duração a rondar 6 horas e 40 de duração) divididos entre 57,4 km em linha e um total de 11 voltas ao circuito na extensão de 210,1 km.

bergen 2

Se até à chegada a Bergen, o perfil será corrido (lentamente) num falso plano de pequena exigência técnica e física, chegados ao circuito final, os ciclistas terão que se deparar com uma dificuldade de exigência média\baixa nas pequenas rampas onde se inclui a subir ao Monte do Salmão.

bergen 3

No circuito final, os ciclistas terão que ultrapassar:

  • A ascensão ao Solheimsviken – 500 metros a cerca de 3% de pendente média.
  • A ascensão a Astrad – 1 km a 5% de pendente média
  • A ascensão ao Monte Salmão – 1,4 km a 6,5% de pendente média.

Qualquer puncheur que queira fazer a diferença nas últimas voltas terá que acelerar a corrida na passagem pela última grande dificuldade do circuito.

Quanto às provas de contra-relógio:

por equipas

As equipas que se apresentam em prova terão que ultrapassar os exigentes 42,5 km de falso plano marcado por um ou outra rampa de curta extensão a rondar os 6\7% de inclinação média.

floyen

Já o contra-relógio masculino de elites apresenta um traçado algo invulgar para o que temos visto no último ano. Grande parte da prova será corrida em falso plano, terreno que irá exigir aos ciclistas constantes mudanças de ritmo, num circuito ligeiramente mais curto do que o normal. Na parte final, os ciclistas terão que subir até aos 300 metros de altitude do Mount Floyen numa subida que promete.

mount floyen

Os 3,4 km da subida final ao Mount Floyen é a razão pela qual Christopher Froome se apresenta no terreno para conquistar um dos títulos que lhe falta no curriculum. Tom Dumoulin será a meu ver o grande rival do inglês na luta pela conquista na prova de contra-relógio visto que o holandês tem capacidades para conquistar terreno ao inglês tanto nos sectores de plano como na subida final.

Este não será à partida uma prova adequada às características do nosso Nelson Oliveira, mas, como o ciclista bairradinho tem melhorado imenso na especialidade de pequenas colina, fruto da aposta que a Movistar tem desenvolvido nos últimos meses com a realização de estágios em altitude. A formação espanhola pretende que Nelson seja capaz a médio prazo de aparecer nos momentos de discussão de clássicas com este tipo de perfil, casos de algumas clássicas nas Ardenas.

As figuras do escalão de sub-23.

À semelhança daquilo que acontece no escalão de elites, a selecção de atletas por parte das várias nações também obedece a um sistema de rankings por coeficiente por nação. Ao longo da temporada, nas provas destinadas ao escalão em questão, os vários ciclistas de cada nação vão marcando pontos consoante a sua classificação nas provas para 3 ranking distintos: o individual, o colectivo (para a classificação da sua equipa no ranking) e o ranking por nações. As nações que atingem mais pontos podem levar à prova de estrada um máximo de 8 ciclistas. A selecção portuguesa está autorizada a levar 4 ciclistas para a prova de estrada. Os atletas convocados por José Poeira foram André Carvalho (Cipollini Iseo Serrature Rime), Francisco Campos (Miranda/Mortágua), Ivo Oliveira (Axeon Hagens Berman) e José Neves (Liberty Seguros/Carglass). Tanto André Carvalho como Ivo Oliveira tem condições para atingir um bom resultado na prova de estrada do seu escalão, mas duvido que tenham hipóteses de ganhar a prova visto que se nesta se apresentam um conjunto de corredores que tem conquistado provas de alguma relevância na presente temporada.

egan bernal gomez

A Colômbia tem como chefe-de-fila o explosivo Egan Bernal Gomez, ciclista que se irá transferir no final da temporada da Androni-Giocatolli para a poderosa Sky. Apesar do perfil não ser totalmente adaptado às suas características de trepador, o colombiano poderá ter na subida ao Monte Salmão uma boa plataforma de ataque nas últimas voltas ao circuito visto que é um corredor à imagem tradicional do ciclismo colombiano: explosivo e destemido.

Bahrein - Merida 2017

A chefiar a selecção espanhola apresenta-se em prova Ivan Garcia Cortina, sprinter de 22 anos que recentemente vimos a tentar discutir uma etapa até ao final na Vuelta. Bastante experiente e maduro, o ciclista espanhol que actualmente representa a Bahrain-Mérida (e a esquadra que o acompanha; saliente-se também o talento de Alex Aramburu e Sergio Samitier) contará com os préstimos de uma selecção que fará tudo para levar a etapa para um sprint final, massivo ou em grupo reduzido.

remi cavagna

Um dos possíveis rivais do ciclista do espanhol, será, por condições morfológicas e estratégicas opostas, Remi Cavagna, uma das apostas da França para a prova. O ciclista da Quickstep já conquistou alguns resultados muito positivos em provas menores de 1 dia como o Circuito das Ardenas ou o Paris-Arras-Tour. Cavagna é também a grande esperança da selecção francesa para o título mundial de contra-relógio ou para as medalhas.. Nos campeonatos europeus recentemente disputados em Dusseldorf, o ciclista alcançou a medalha de bronze na prova de sub-23. Cavagna poderá surpreender com um ataque de longe visto que é um extraordinário rolador. Se a corrida for levada para um sprint massivo, o corredor terá poucas hipóteses de se imiscuir na luta pelas medalhas.

max kanter

A selecção alemã jogará todas as suas cartas no jovem Max Kanter, ciclista que actualmente corre pela formação de desenvolvimento da Sunweb. Aos 19 anos, Kanter já é uma das maiores esperanças do ciclismo alemão. Campeão nacional de sub-23 no presente ano, joga a seu favor o facto de já ter alguma experiência internacional de elites, adquirida no ano passado como estagiário da Giant-Alpecin.

vincenzo albanese

Da selecção italiana chega Vincenzo Albanese, atleta da Bardiani. Albanese é uma das grandes esperanças da formação italiana. Aos 20 anos, o sprinter já tem um curriculum interessantíssimo com vitórias na Volta à França do Futuro de 2016 (classificação dos pontos e uma etapa) no Gran Premio della Liberazione, no Trofeu Matteoti e na Volta à Austria. Albanese é dono de uma ponta final fortíssima e de uma enorme inteligência táctica. Terá em Bergen uma selecção inteira a trabalhar para si.

kristoffer halvorsen

Da selecção da casa chega o principal candidato à revalidação do seu título mundial Kristoffer Halvorsen. O ciclista de 21 anos natural de Kristiansand, corredor que actualmente representa a maior formação do ciclismo norueguês (a Team Joker) está a realizar uma temporada muito interessante nas qual conta com vitórias numa etapa da Volta à França do futuro (também conquistou a classificação por pontos) e na Handzame Classics. No campeonato europeu de sub-23, o norueguês foi 5º classificado na prova de estrada. Halvorsen é o mais digno herdeiro da tradição ciclista daquele país, visto que é um sprinter com uma fantástica capacidade geradora de potência nos metros finais. Para mim é o principal candidato à prova.

alan banaszek

Da frieza que caracteriza a escola polaca de ciclismo surge Alan Banaszek. Não sendo de todo um frontal candidato à vitória, o jovem de 19 anos da CCC vem de uma temporada brilhante dentro de portas na qual ganhou várias provas como no GP da Solidariedade. Há 2 anos, aos 17, o ciclista foi campeão europeu de juniores e na presente temporada, foi 7º na prova de elites do acirrado campeonato nacional do seu país. Ao seu lado para o acompanhar terá o seu primo Norbert, ciclista 3 meses mais velho e um conjunto de corredores interessantes como Piotr Brozyna ou Kamil Malecki.

patrick muller

Da selecção suíça chega-nos Patrick Muller. Aos 21 anos, o antigo campeão de juniores e sub-23 (5º classificado na prova de elites do campeonato de estrada daquele país) é um homem a ter em conta para a prova norueguesa. Ao longo da temporada, na equipa de desenvolvimento da BMC, atingiu bons resultados nas provas de sub-23 em que participou.

As figuras do contra-relógio por equipas.

Na prova irão participar 17 equipas das várias divisões da UCI. As principais favoritas à vitória serão:

bmc

A BMC e a Quickstep irão novamente ombrear taco-a-taco, metro-a-metro pela vitória. Os ciclistas da formação do fabricante suíço apresentam-se em Bergen com um esquadrão de ouro do qual fazem parte entre outros Rohann Dennis, Silvain Dillier, Stefan Kung, Daniel Oss e Tejay Van Garderen.

quickstep

A Quickstep também apresenta um conjunto do luxo do qual fazem parte Jack Bauer, Phillippe Gilbert, Bob Jungels, Marcel Kittel, Yves Lampaert, Niki Terpstra, Matteo Trentin e Julien Vermote.

A Orica, a Lotto-Jumbo-NL, a Sky e a Sunweb podem num dia bom lutar pela vitória.

A formação australiana apresenta em Bergen uma formação onde se destacam bons corredores na especialidade como Luke Durbridge, Alex Edmonson, Daryl Impey, Damien Howson, Svein Tuft e Christopher Juul Jensen. A formação holandesa contará com todos os seus contra-relogistas, com especial incidência para Jos Van Emden, Victor Campanaerts (o actual campeão europeu da especialidade) Primoz Roglic, Lars Boom e Stef Clement.

A Sky também apostará forte na prova com a inclusão na sua equipa de Chris Froome, Vasil Kyrienka, Michal Kwiatkowski, Gianni Moscon, Salvatore Puccio e Geraint Thomas.

Já a Sunweb jogará forte com Tom Dumoulin, Niklas Arndt, Chad Haga, Lemnard Kamna (o principal candidato à vitória na prova de CRI do escalão de sub-23) Soren Kragh Andersen, Sam Oomen e Michael Matthews.

Com possibilidades de chegar às medalhas estão, se fizerem uma boa prestação, as formações da Movistar e da Bora. A Movistar apresenta uma formação composta por ciclistas muito aceitáveis nesta especialidade como o nosso Nelson Oliveira, Jonathan Castroviejo, Alex Downsett ou Jasha Sutterlin. A formação alemã tem em Maciej Bodnar e Jan Barta os seus principais trunfos.

A prova de elites de contra-relógio – principais candidatos à vitória, às medalhas e a lugares dentro do top10.

rohan dennis 3

A representar a selecção australiana estará Rohan Dennis. O australiano da BMC não será um dos principais candidatos à vitória em função da dura subida final mas será um candidato a uma medalha. O traçado não privilegia as suas características. Para Dennis poder ter hipóteses de vencer, precisaria claramente de um traçado totalmente plano.

campanaerts

O actual campeão europeu da especialidade também tentará lutar por um lugar nos 5 primeiros. Campanaerts também não tem no percurso um percurso à medida das suas características de rolador mas como sabemos é um ciclista muito combativo capaz de cerrar os dentes para ir à luta.

vasil kyrienka

O antigo campeão do mundo poderá ter neste traçado uma oportunidade flagrante para voltar a vencer a prova. Como Kyrienka dá-se muito bem com qualquer tipo de terreno (sendo até um dos ciclistas que ao longo de anos ajudou Froome na aceleração de subidas) fruto da sua constante e mecânica cadência, cadência que lhe permite fazer uma boa gestão das energias para a ponta final (bem precisará neste percurso) e que lhe permite ser menos imune às dificuldades que irão ser levantadas pelo próprio terreno no que concerne à questão das mudanças de ritmo. Se chegar à subida final nos melhores tempos intermédios, o veterano bielorusso poderá aí tentar fazer a diferença para os demais candidatos.

chris froome 3

Vroome Vroome vem para ganhar em Bergen. Moralizado pela vitória na Vuelta, o ciclista britânico vai para a Noruega com os olhos postos na vitória, visto que o traçado adapta-se que nem uma luva às suas características.

geraint thomas 3

Why not, Geraint Thomas? O galês da Sky será ao que tudo indica o 2º corredor da formação da Grã-Bretanha para este crono. O percurso adapta-se às suas características, acrescendo também, para o efeito, o enorme crescimento que o ciclista tem vindo a ter nos últimos 2 anos nesta especialidade. Exemplo disso foi a sua vitória no contra-relógio de abertura (plano; disputado debaixo de condições climatéricas muito adversas) da edição de 2017 do Tour. Parece-me mais que certa a sua presença nos 10 primeiros no final do crono de Bergen.

tony martin 2

O eterno candidato – O percurso não encaixa de perto nem de longe no seu perfil (não é suficiente longo nem suficiente plano) e o físico do ciclista tem-se vindo a deteriorar em virtude dos sistemáticos problemas nos joelhos, mas, o maquinão germânico é e sempre será, em função do seu extenso palmarés (41 vitórias nesta especialidade, entre as quais 4 campeonatos do mundo e 7 vitórias no campeonato alemão) um eterno candidato à posse da camisola do arco-íris, camisola que voltou a conquistar na prova disputada no ano passado nos Campeonatos de Doha.

Cycling: 99th Tour of Italy 2016 / Stage 14

Numa boa condição de forma Bob Jungels poderá lutar em Bergen por uma medalha. Os seus indicadores físicos não parecem estar porém de acordo com esta expectiva. Na Vuelta, num contra-relógio plano, o luxemburguês não foi além de um 9º lugar. O luxemburguês aparece nos campeonatos algo desgastado fisicamente. Creio que poderá lutar por um lugar no top 10 mas não acredito que venha a ficar na metade superior da tabela.

dumoulin 3

Fresquinho, fresquinho vem a Bergen o Sr. Giro. Tom Dumoulin passou grande parte do mês de Agosto na pista a treinar o seu andamento para este crono. O traçado favorece-o porque o holandês é um extraordinário rolador e um ciclista muito aceitável na subida de pequenas rampas. Na parte de falso plano, o holandês tentará ganhar o máximo de tempo a Froome para poder ter uma almofada para os km finais de subida, terreno onde perderá decerto tempo para Froome.

bodnar 2

Maciej Bodnar será candidato a um lugar no top 5. O rolador polaco não terá grandes hipóteses de desafiar Froome, Dumoulin ou até mesmo Geraint Thomas em virtude da subida que pauta a ponta final da prova mas se tiver um bom desempenho nos sectores planos será um homem a ter em conta para os primeiros lugares da geral.

nelson oliveira

O que é que poderá render Nelson Oliveira neste traçado? Um lugar no top 10 será um resultado muito aceitável para o ciclista de Anadia. Mais que um 8º ou 9º lugar será face à concorrência existente um resultadão de topo para o ciclista da Movistar.

roglic

Primoz Roglic não é um especialista puro mas é um ciclista que já conquistou 3 contra-relógios em provas de proa ao longo da sua jovem carreira. Com 3 vitórias no Giro, Volta à Romandia e Volta ao País Basco e um traçado que favorece imenso as suas características de trepador, o esloveno poderá surpreender. Não será de todo descabida a possibilidade de fechar nos 5 primeiros lugares, ou seja, de lutar por uma medalha.

kung

O relógio suíço do “Mini Cancellara” Stefan Kung – Com 4 contra-relógios conquistados na presente temporada nos Campeonatos do seu país, no Binckbank Tour, na Volta à Comunidade Valenciana e no Tirreno-Adriático, o jovem ciclista da BMC tentará começar a deixar a sua marca de água na especialidade. Em Bergen, antevejo a possibilidade de Stefen Kung ficar entre os 7 melhores. Nos próximos anos será indubitavelmente um dos crónicos candidatos à vitória.

ludvigsson

Um bom resultado no último crono da Vuelta (5º lugar) poderá ter acalentado o coração do crónico campeão nacional sueco. O corredor da Française des Jeux não tem no traçado de Bergen um alfaiate capaz de tirar as medidas exactas ao seu corpo mas poderá lutar facilmente por um resultado no top10.

tejay van garderen

Se Tejay Van Garderen for o Tejay que conhecemos dos últimos anos, posso afiançar a possibilidade do norte-americano vir a lutar por um lugar dentro dos 7 primeiros. Se o norte-americano vier com a pedalada amorfa da Vuelta (no crono final nem sequer entrou no top10) muito dificilmente conseguirá até lutar por um dos 10 primeiros lugares da prova.

A prova de estrada de elites – os grandes candidatos e as figuras que podem agitar a prova.

Sprint em grupo reduzido ou sprint massivo em grupo mais alargado? Como é que terminará a prova de Bergen? Ambos os cenários são à partida exequíveis em virtude da possibilidade da corrida tanto poder ser mexida por qualquer candidato no obstáculo mais difícil do dia como, da corrida vir a terminar num grupo mais ou menos alargado de corredores se a corrida não for devidamente agitada nas suas voltas finais. Tudo dependerá portanto da estratégia que for tomada nos carros pelos seleccionadores e dos cenários que sejam gerados ao longo do decurso da prova por essas estratégias.

Numa altura em que ainda não se conhece com exactidão o elenco de grande parte dos corredores que estão presentes na prova, vou arriscar os meus palpites quanto aos grandes candidatos à vitória, às estratégias que cada selecção poderá trazer para Bergen e às figuras que podem agitar a prova norueguesa com os seus poderosos ataques:

michael matthews

A selecção australiana vem a terreiro com uma equipa totalmente equipada para trabalhar para os seus dois sprinters Michael Mattews e Caleb Ewan. Com uma postura dominadora, veremos a selecção australiana a trabalhar na frente do pelotão caso uma selecção sem pretensões a uma chegada em sprint massivo lançar uma das suas cartas nas voltas finais ao circuito. A selecção australiana levará o assunto até às últimas consequências dada a qualidade das suas cartadas para um sprint final. Caso a corrida se rompa num ou vários grupetos, tanto Matthews como Ewan terão de estar bem posicionados para seguir em frente.

greg avermaet

Com um elenco para todos os gostos, a selecção belga, capitaneada a meias por Greg Van Avermaet e Phillippe Gilbert, tem opções para qualquer estratégia de corrida. Van Avermaet é corredor para qualquer cenário. Já Gilbert pode ser o agitador que a Bélgica necessite para desgastar as outras formações ao longo da corrida, obrigando-as a gastar energias que poderão faltar no acto de lançamento de um sprint massivo, sem esquecer que um ataque letal do belga no Monte do Salmão poderá ter efeitos devastadores. A belga tem contudo outras cartadas que tanto podem servir para agitar, casos de Tiesj Benoot, Tim Wellens, Dylan Teuns como para trabalhar, casos de Oliver Naesen e Jens Keukeleire. Naesen, o actual campeão terá para si a missão de guiar Avermaet no lançamento de um sprint dada a propensão que possui para colocar o ritmo de corrida numa fona.

gaviria

E Fernando Gaviria, pode chegar lá ao lugar mais alto do pódio? Pode sim senhora. Pode desde que esteja lá na frente para o colombiano poder colocar o seu motor de explosão a trabalhar. Se a corrida assumir proporções dantescas muito cedo, o colombiano terá poucas hipóteses de vir a discutir a vitória. No entanto…

rigo

Don Rigo poderá ser uma cartada colombiana para um cenário de corrida rasgadinho. Se em Londres, o colombiano conquistou a prata num traçado que não o beneficiava de todo, porque é que em Bergen o colombiano não poderá repetir a gracinha?

stybar

O agitador checo – Um bom ataque no Monte Salmão poderá valer literalmente ouro para o corredor da República Checa. Zdenek Stybar e o elenco checo não tem qualquer solução para uma chegada ao sprint massivo. Tanto Stybar como Vakoc como o próprio Kreuziger terão que agitar a prova.

valgren

Tenho cá um feeling que me diz que Michael Valgren poderá ser um dos agitadores da prova. Sem grandes recursos para um sprint final, pese embora a presença no elenco dinamarquês de Soren Kragh Andersen (em condições normais, não será um dos 5 primeiros ao sprint), o ciclista da Astana poderá ser um dos agitadores da prova. Coragem não lhe falta para expor a cara ao vento.

luis leon sanchez

Sem Alejandro Valverde, Luis León Sanchez terá nas suas pernas a missão de liderar a equipa espanhola. Pela primeira vez, a selecção de nuestros hermanos apresenta-se sem um candidato de topo à vitória, mas, creio que, por outro lado, jogam a seu favor o facto de terem pela primeira vez, liberdade para não controlar a corrida na dianteira do pelotão (a Espanha é cronicamente uma das equipas mais sobrecarregadas de trabalho sempre que apresenta um candidato de primeira água) e uma série de agitadores nos quais se insere Sanchez. O ciclista veterano da Astana poderá ser um dos agitadores da etapa, mas só conseguirá eventualmente lutar pela vitória na prova se chegar à meta sem sprinters por perto. Rojas e Gorka Izaguirre poderão ser também dois dos vários agitadores da corrida.

alaphillippe 2

Na Vuelta, Julian Alaphillippe adquiriu um precioso ritmo de competição que lhe poderá ser muito útil em Bergen para tentar rasgar com qualquer grupo na subida final. Num elenco francês no qual várias são as unidades em boa forma (Julien Simon; Warren Barguil também deve vir fresquinho face à sua expulsão da Vuelta à 4ª etapa por ordens da sua equipa; Alexis Gougeard também vem muito activo da Vuelta; como pudemos ver na Valónia, na prova de quarta-feira, Tony Gallopin também está em boa forma) e em que as ausências dos seus dois maiores sprinters (Bouhanni e Demare) são obviamente notadas, este elenco francês é um elenco estrategicamente composto para desgastar, para tentar vencer através de um ataque de média ou curta extensão.

adam blythe 2

There comes the British Cavalry

Sem Mark Cavendish no elenco (o sprinter não recuperou da lesão provocada pela “dramática” queda sofrida no Tour) a cavalaria de ataque britânica estará centrada nos seus dois sprinters Adam Blythe e Ben Swift. A formação britânica terá que carregar os dois sprinters até à chegada. Para o efeito, estão convocados Tao Gheoghan Hart, Peter Kennaugh, Ian Stannard e Owain Doull – a mini Team Sky  para terrenos planos (tanto Blythe como Swift saíram da Sky, sabendo portanto com o que contar dos seus companheiros).

john degenkolb

Sem Andre Greipel ou Marcel Kittel na lista de pré-convocados, a Alemanha volta a apostar na versatilidade de John Degenkolb para a prova. Em sprint massivo ou em sprint num grupo reduzido, o alemão estará certamente na dianteira da corrida, embora acredite que neste momento, o ciclista da Trek é uma sombra daquilo que já foi. As lesões tramaram-lhe grande parte da carreira. Para o secundar, a equipa germânica escalou uma team de sonho com Niklas Arndt, Marcus Burghardt, Simon Geshke, Tony Martin, Jasha Sutterlin, Paul Martens, Rick Zabel e Nils Polits, ciclistas que serão importantíssimos tanto para perseguir na frente do pelotão caso seja essa a estratégia como para um eventual acto de lançamento.

colbrelli

Que itália poderemos ter em Bergen? Uma Itália com soluções para todos os gostos. Colbrelli e Viviani para os sprints. Ulissi e Nibali para um ataque nos quilómetros finais (beneficiando da descida de 2,5 km logo a seguir ao Monte do Salmão), Moscon e Puccio para trabalhar. De Marchi para andar na frente a desgastar nas primeiras voltas do circuito. Candidatos à vitória? Talvez. Da Itália espera-se sempre o melhor nestas provas.

lutsenko 5

É agitador e dos melhores. Alexei Lutsenko tentará sair num momento apropriado do pelotão para agitar e tentar quem sabe surpreender. Neste momento, o jovem corredor da Astana, campeão do mundo no escalão de sub-23, é o melhor que o casaquistão tem para vender na Noruega.

netherlands

Dumoulin, Mollema, Terpstra, Boom, Poels, Langeveld Dylan Van Baarle – nem todos estão nesta imagem. A selecção holandesa vem a Bergen claramente para agitar. Sem um sprinter de raiz no elenco (Danny Van Poppel foi estranhamente preterido, facto que se considera estranho face ao rendimento do jovem sprinter nos últimos meses) esta será um elenco que virá para atacar muito.

kristoff

Crónico candidato ao ceptro mundial é Alexander Kristoff. As probabilidades de vitória do norueguês serão mais altas quantos forem os adversários directos eliminados ao longo da corrida. Num sprint massivo, o norueguês dificilmente conseguirá ganhar a corredores como Sagan ou a Greg Van Avermaet. O seu estado de forma não me pareceu ser o melhor nas últimas provas disputadas pelo sprinter da Katusha. A acompanhá-lo nesta missão estará uma equipa simpática composta por Odd Christian Eiking (FDJ), Edvald Boasson Hagen (o plano B) e Kristoffer Skjerping.

michal kwiat

Ao antigo campeão do mundo em 2014 Michal Kwiatkowski não interessa uma chegada ao sprint. O corredor da Sky será certamente um dos agitadores da corrida no quilómetro final de forma a poder chegar isolado ou num grupo muito reduzido (de preferência sem sprinters) com possibilidades de colocar aquela ponta final fantástica que lhe é mundialmente reconhecida.

rui costa 8

De campeão para campeão, na ordem cronológica inversa. Quem nos dera que esta imagem se voltasse a repetir em Bergen. O Rui não é o principal favorito à vitória, mas caso a corrida se parta na última subida e todos os sprinters ficarem para trás, pode facilmente tornar-se candidato. O português já não parece ter a alma e as ganas de outros dias, de dias em que o seu ciclismo era bem mais colorido e ofensivo. Ao longo do anos na Lampre e na sucessora UAE (questione-se mais uma vez a errada escolha protagonizada em 2013 quando o português tinha o mundo todo em cartel à sua procura) o poveiro tornou-se um atleta demasiado lamechas (basta para o efeito passar o scroll nas lamentáveis e até surreais desculpas que o ciclista usa para justificar os seus fracassos na sua página de facebook) demasiado conservador e até cínico na abordagem estratégica às corridas. Tal atitude granjeou-lhe junto dos seus companheiros de profissão uma certa inimizade (vêem na capacidade leitura de corrida do português um certo oportunismo) e alcunha de “chupa rodas”, alcunha atribuída pelos comentadores espanhóis da modalidade.

Sem muitas expectativas e sem grande pressão, vamos ver o que é que o Rui pode fazer na Noruega, inserido num elenco de trabalho que conta com Tiago Machado, Rúben Guerreiro, Ricardo Vilela, José Gonçalves e Nelson Oliveira. Poderemos ter alguém para desgastar as restantes selecções com um ataque? Sim, creio que sim. José Gonçalves, Rúben Guerreiro podem eventualmente auxiliar o português nesse sentido. Temos alguém para acelerar a corrida para eventualmente nos livrarmos de vários sprinters? Sim, tanto Tiago Machado como Nelson Oliveira estão preparados para fazer esse trabalho de desgaste se for necessário.

sagan 11

Dispensa apresentações. Para fazer história. Sagan é, como já puderam reparar em várias ocasiões e até no gravatar que inseri no meu perfil público, o meu ciclista preferido da actualidade. O eslovaco chega a Bergen cheio de vontade de fazer o que ninguém conseguiu fazer desde que a prova teve o seu início em 1927: conquistar pela 3ª vez consecutiva o título mundial, juntando-se à grande elite da prova, grupo composto por Oscar Freire, Alfredo Binda, Rik Van Steenberger e Eddy Merckx.

 

 

 

 

 

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