A 3 razões pelas quais Guardiola continua a ser extremamente revolucionário no futebol actual


guardiola

Depois de uma temporada de estreia em que o modelo de jogo clássico de verticalidade e controlo do adversário pela posse de bola do treinador catalão não foi totalmente assimilado e operacionalizado pelos jogadores do City em função das dificuldades sentidas pelo mesmo na modelação dos seus laterais (Clichy, Kolarov, Sagna; todos saíram do clube no final da temporada, dando lugar às entradas de Danilo, Kyle Walker e Benjamin Mendy) e dos próprios centrais à saída de jogo apoiada pretendida (basta recordar que o City é eliminado da Champions pelo Mónaco em duas partidas nas quais a equipa deu imensa barraca na saída de jogo, oferecendo um conjunto de bolas ao fortíssimo contragolpe da formação de Leonardo Jardim) Guardiola regressa na presente temporada às suas vestes de revolucionário do futebol, detendo para efeito no plantel os jogadores que necessita para operacionalizar o seu revolucionário modelo de jogo. Este post visa conceder algumas pistas para compreender o modelo de jogo do City, a visão revolucionária do treinador sobre o jogo, e as mais-valias que os 3 laterais recentemente contratados oferecem à equipa.

1 – A visão e a divisão do terreno para Pep Guardiola

treinador normal

Enquanto grande parte dos treinadores do futebol mundial dividem o terreno de jogo em 5 divisões verticais (desenho em cima) nas quais contemplam as zonas exteriores, interiores e o corredor central, o catalão tem uma visão muito mais complexa do terreno de jogo na qual privilegia a visão do terreno de jogo em pequenos sectores nos quais não devem estar mais de 2 jogadores em cada sector

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(perdoem-me a falta de geometria nos desenhos. reconheço que sempre tive negativa a educação visual no ensino básico porque era um verdadeiro nabo a desenhar as letras e a decalcar folhas)

Assume-se o sistema táctico 3x1x4x2 com recurso a dois médios alas (Walker e Zabaleta por exemplo) abertos e bem projectados no terreno junto às linhas.

Como podem ver a disposição da equipa no terreno facilita os processos de verticalização do jogo. Os laterais devem ter a capacidade de se projectar no terreno quando a equipa tem bola e de descer rapidamente quando a equipa perde a posse de bola. Mesmo assim existe à frente da defesa um jogador capaz de compensar uma eventual falha, mantendo assim total controlo sobre o jogo.

Vejamos um exemplo prático do jogo contra o Watford:

Esta jogada surge no seguimento de uma acção ofensiva do Watford. A equipa de Guardiola sentiu necessidade de colocar, por breves instantes um ritmo mais calmo no jogo que pudesse ao mesmo tempo chamar a equipa adversária à pressão mais adiantada. Como vemos, numa primeira fase (na troca de bolas entre o sector defensivo) os laterais não abrem enquanto Fernandinho não chegar ao meio. Quando o médio chega junto dos centrais, os laterais abrem e projectam-se no terreno, tendo ordem para entrar imediatamente no último terço adversário.

O mesmo raciocínio se aplica quando o espanhol usa um sistema de 4 linhas em 4x1x4x1 com os laterais mais recuados. A utilização de uma linha de 3 (com a descida de um dos médios até aos centrais) ou de 4 dependerá sempre da quantidade de avançados que a equipa contrária colocar no terreno. Guardiola aproveitou portanto uma das ideias criadas por Bielsa: a equipa deverá ter sempre mais um defesa do que o número de avançados da equipa contrária, sem que para isso tenha de perder verticalidade na construção do seu jogo.

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O recuo dos laterais poderá permitir a sua entrada ao meio (the theory of inverted fullbacks) nas situações em que a equipa precise de mais unidades para sair a partir de trás (um dos motivos da contratação de Ederson ao Benfica; frente a equipas que consigam fazer uma pressão alta efectiva) como ofensivamente no último terço pode assumir um cariz diferente com a entrada dos interiores em zonas exteriores através de movimentações interiores de sobreposição.

Ambos os sistemas estão desenhados de forma a promover verticalidade imediata ao jogo do City, factor que permite aos citizens controlar o adversário através da posse ou da iniciativa ofensiva.

2 – A saída de jogo através dos laterais invertidos.

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Frente a equipas capazes de executar um bom sistema de pressão alta à saída de jogo, Pep contrariou com a entrada dos laterais ao meio, descendo o jogador que joga à frente da defesa. Assim sendo, o City pode passar a assumir esta disposição no seu eixo recuado, solução que lhe permite ter sempre mais uma unidade livre em relação ao número de jogadores colocados pelo adversário no centro do terreno.

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Vamos a um exemplo prático de uma saída com os laterais invertidos na temporada passada:

Porque é que Clichy, Kolarov e Sagna foram despedidos? Porque não se souberam adaptar à variedade de funções pedidas pelo treinador.

O jogador sérvio não sabe sequer o que é jogo interior. Os dois laterais francês perdiam imensas bolas na saída de jogo quando eram obrigados a ter pensar e executar rapidamente o passe vertical. Com Danilo, Kyle Walker e Benjamin Mendy espera o catalão ter laterais mais rápidos a pensar e a executar quando a equipa for obrigada a adoptar estes procedimentos e mais inteligentes a antever as suas funções em campo consoante a disposição adversária no terreno. Ou seja, quero com isto dizer que os laterais tem que saber ler as intenções adversárias e adaptar-se funcionalmente às necessidades que são ditadas pelo comportamento adversário. Quando complicam mais a saída com um sistema de pressão alta, entram no miolo para criar superioridade numérica, apoiando a transição, sem perder qualquer bola nesse esforço. Quando a pressão é executada a partir do meio-campo, esperam a descida de Fernandinho para se projectarem no terreno.

3 – Verticalidade total nos processos de jogo.

Já aqui exposta com vários exemplos práticos surgidos do jogo frente ao Liverpool. Não há cá merdas, rebicoques ou a sistemática utilização de passes para o lado que não acrescentem profundidade à equipa. A equipa tem que ser totalmente vertical (procurar a ruptura) no seu jogar.

Frente ao Watford. Tão simples e ao mesmo tempo tão bom:

Para poder praticar um futebol vertical, Guardiola apropriou-se de mais uma matriz identitária do futebol de Bielsa: a constante mobilidade dos jogadores (desmarcações\antecipações) para vir receber jogo.

 

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