Os golos da jornada (2ª parte)


 

Regresso ao tema interrompido no post anterior, para mostrar o 3º golo do Chaves frente ao Moreirense. A formação de Luís Castro é na minha sincera opinião uma das equipas que melhor futebol tem praticado neste arranque da Liga Portuguesa. No entanto a prática de um futebol de elevado quilate de qualidade, estético, no qual se denota a existência de imenso trabalho de um treinador na expressão e na operacionalização das suas ideias de jogo junto dos seus jogadores, nem sempre vem acompanhada de resultados, dos malvados resultados. Dos malvados resultados que catapultam treinadores medíocres (metodologicamente; aqueles cuja qualidade do plantel chega e sobra para se alcançarem vitórias, sem que por trás tenha existido todo um trabalho de fundo do treinador na construção identitária da equipa e na modelação de jogadores para uma determinada forma de jogar) para o estrelato e que empurram bons treinadores, aqueles que num mar de incertezas conseguem construir e consolidar um bom modelo de jogo, modelando um plantel inteiro (cuja matéria-prima é por vezes desconhecida quando este assume funções ou sistematicamente alvo da cobiça de outros clubes) cada jogador à sua forma de jogar, para o abismo ou para um certo estado de ostracismo junto do grande público. 

Para o comum consumidor de futebol, a grandeza de uma equipa ou de um treinador é construída só com base nos seus resultados. Muitos são aqueles que apanhamos diariamente a dizer, nas barras de comentários das redes sociais, “ah sim, o futebol é bonito mas a equipa e\ou o treinador não ganham nada há vários anos” – Para mim, o facto de Wenger (por exemplo) não ganhar “nada que se veja há alguns anos” não invalida a estética do futebol que é praticado pelas suas equipas. Problemático é quando, à semelhança daquilo que aconteceu na época passada, a sua equipa não ganha nem dá espectáculo.

Para os verdadeiros adeptos de futebol, o que interessa não é apenas o resultado, mas sim o resultado e a forma em como um grupo de trabalho chega a esse mesmo resultado, ou seja, o produto do trabalho de um grupo. É certo e sabido que esta indústria vive de resultados. Um clube que não os obtenha cai a pique na nomenklatura do futebol em que participa. Se uma equipa deixar de ser competitiva, pode cair várias divisões, deixa de obter os generosos contratos de publicidade e de cedência de direitos televisivos que lhe garantem a sua subsistência e normal operacionalização estrutural. No entanto, tão ou mais importante que a obtenção de resultados é a forma de jogar das equipas. Se uma equipa não pratica um bom futebol, o adepto não vai ao futebol porque não gosta do espectáculo que paga para ver. Os maiores clubes não se interessam pelos seus jogadores, não comprando a “peso de ouro” os artistas que não dão espectáculo. O adepto de futebol aprecia o método, as ideias, o modelo, a construção de uma forma de uma “forma de jogar”.

Os resultados tem andado um bocado arredios de Chaves nestas primeiras jornadas do campeonato mas o que é certo é que a forma de jogar da equipa de Luís Castro é apetecível, é tentadora, dá espectáculo a quem assiste, vale o bilhete: é um manjar dos deuses para todos os adeptos do futebol. Posso afiançar esta foi a primeira vez (em vários anos) em que deixei de jantar a horas certas para ir para o café “papar” o show de bola da formação flaviense.

O processo base de construção de jogo dos flavienses em ataque organizado é magnífico. Sempre em triângulos (lateral\extremo\médio interior) com a equipa a subir em bloco, devendo um dos jogadores que joga no meio-campo (no exemplo dos flavienses é Pedro Tiba; Jefferson é um jogador de características mais defensivas) fazer a interligação entre flancos sempre que a equipa procura o jogo interior variar o centro de jogo para o outro flanco. A organização defensiva não lhe fica atrás. Consoante os processos de circulação da equipa adversária e a distância para a baliza, a equipa de Luís Castro consegue rapidamente assumir a necessidade de fazer uma correcta transição defensiva para o modelo de organização defensiva mais conveniente para abordar os processos adversários, não sendo porém muito intensa na pressão porque posicionalmente está sempre muito bem equilibrada na sua rectaguarda com a presença de um jogador à frente do quarteto defensivo. Para terem uma ideia: a equipa de Luís Castro começou a partida numa organização defensiva num sistema de pressão médio\alto em 4x3x3 (3 linhas) terminando a mesma partida, em bloco recuado, com a disposição da equipa num sistema de 4 linhas estendidas a toda a largura do terreno, disposição que não permitiu à equipa do Moreirense entrar no jogo interior (entre linhas) como forma de poder comprimir a equipa flaviense no corredor central para ter espaço para jogar nos corredores.

Em contra-ataque a história é outra. Sempre que recupera a posse, a equipa procura imediatamente progredir com um passe para o seu avançado William. Capaz de segurar bem o esférico quando recebe de costas para o defesa, o avançado permite a subida dos extremos no terreno. O processo normal será William tocar para a abertura de um dos médios para as alas, tendo portanto os extremos ordens para avançar para o 1×1 e desequilibrar em acções individuais. Jorge Intima é muito forte nessas acções. Quando o brasileiro não está disponível para receber imediatamente (por norma dá sempre meia dúzia de passos atrás para se antecipar) a equipa procura novamente os corredores (os laterais) para lançar em profundidade, podendo entrar junto aos defesas adversários um dos extremos (Davidson; o autor do movimento de ruptura e do passe de calcanhar que permitiu a William entrar na área com todo o espaço e tempo para finalizar) ou de um jogador vindo em diagonal do interior ou do flanco contrário.

Dybala no seu spot

Numa fase da partida em que a Juventus estava a convidar o Sassuolo a adiantar as suas linhas para pressionar mais alto depois de um pressing ofensivo inicial no qual os bianconeri criaram bastante caudal ofensivo pelos corredores, em particular pelos seus laterais com diversas situações de cruzamento para a área à procura de Gonzalo Higuaín. A Juventus explorou e de que maneira o adiantamento dos dois pivots defensivos neste lance.

juventus

Dybala aparece no seu “spot da morte”, nas costas dos dois pivots do Sassuolo. Com Higuaín a prender os centrais (impedindo-os de sair para interceptar o passe ou pressionar a recepção do jogador argentino; uma das mais-valias que o ponta-de-lança oferece ao jogo do seu compatriota), Dybala teve ali o momento perfeito para aplicar o seu arqueado remate de “sinistra”.

Parece tão fácil… mas não é!

 

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2 thoughts on “Os golos da jornada (2ª parte)”

  1. O Manuel Machado é um bom contra-ponto a um treinador com boas ideias como é o Luis Castro. Todo o posicionamento e comportamento da linha defensiva neste golo é simplesmente ridículo.

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    1. Verdade. As equipas dele continuam a praticar um futebol miserável, cínico e extremamente resultadista. Eu cá creio que ele não vai durar mais do que 2 ou 3 jornadas no comando técnico do Moreirense.

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