Nelson Oliveira escreveu uma bonita página de história nos Campeonatos do Mundo, no dia em que Tom Dumoulin pulverizou toda a concorrência


nelson oliveira

É com um misto de emoções, de alegria e ao mesmo tempo de uma enorme tristeza que anuncio o brilhante 4º lugar alcançado por Nelson Oliveira na prova de contra-relógio dos Campeonatos do Mundo. Não posso deixar de estar contente pela fantástica prova do Nelson. O 4º lugar alcançado pelo bairradino, ciclista natural de Anadia, é o nosso melhor resultado de sempre nesta prova. Quando um dos nossos, sangue do mesmo sangue, ser dotado daquela alma guerreira que caracteriza o nosso povo, figura de uma região que adora ciclismo, corredor cujas previsões (de toda a gente, não só a minha) apontavam, no melhor dos cenários, para a obtenção de um lugar dentro do top 10 atinge um resultado desta escala, só podemos estar felizes. Por outro lado, como referiu e bem o atleta na antevisão da prova, jamais saberemos que se vamos ter, nos próximos anos, um traçado que nos permita atacar as medalhas ou até os primeiros 5 lugares desta prova. O Nelson está de parabéns pela prova que realizou. Para além de ter sido um osso duro de roer para toda a gente (até para Christopher Froome; foram 7 os segundos que separaram o Nelson do ciclista britânico à chegada) conseguiu bater vários dos favoritos às medalhas como Vasil Kyrienka, o campeão em título Tony Martin ou Rohan Dennis. Estivemos tão próximos daquela saborosa medalha que os bravos guerreiros do nosso ciclismo nos oferecem de tempos em tempos.

Incrível espectáculo na subida ao Mont Floyen

mount floyen 2

Foi na dura ascensão de 3,4 km a 9,1% de pendente média que se começaram a decidir as medalhas de bronze e de prata. A medalha de ouro esteve sempre fora de equação para qualquer ciclista (até mesmo para Christopher Froome) dadas as ganas que Tom Dumoulin empregou na prova desde a primeira pedalada. O holandês não deu qualquer hipótese à concorrência quer no terreno plano, quer nos km finais em subida. Os 58 segundos de diferença para Primoz Roglic, o minuto e 21 para Christopher Froome assim o corroboram. No último ponto intermédio, Dumoulin passou com cerca de 35 segundos de vantagem para Kyrienka e 42 para Froome.  O holandês realizou uma prova de “pé na tábua” do princípio ao fim, ignorando por completo a chuva que se abateu sobre o traçado no preciso momento em que Tejay Van Garderen (o primeiro do último lote de 10 corredores a partir) iniciava a sua prova.

tom dumoulin 3

Para grande parte dos corredores, a grande questão prévia em relação à prova centrava-se na possível mudança de bicicleta no último ponto intermédio, estacionado no início da pequena crono escalada reservada para os últimos 3,4 km. Como a subida final iniciava com duras rampas próximas dos 10%, com um cenário de pequenas “rectas” divididas por acentuadas viragens em gancho nas quais os ciclistas teriam que fazer algumas mudanças de ritmo, os extensores das suas bicicletas não lhe dariam grandes ajudas. Grande parte dos ciclistas presentes decidiram correr o risco, mudando de bicicleta de contra-relógio para as suas bicicletas de montanha. A mudança de bicicleta no ponto estabelecido pela organização implicava a perda de 10 a 15 segundos, perda que se iria decerto reflectir no tempo final. Nelson Oliveira foi um dos que preferiu mudar de bicicleta no sítio indicado pela organização. A mudança de bicicleta até acabou por revelar profícua para o português visto que conseguiu não só recuperar o tempo perdido na troca como ainda ganhar tempo a vários dos ciclistas que decidiram terminar a prova nas suas bicicletas de contra-relógio.

nelson

Por outro lado, a chuva que se abateu na última hora de corrida beneficiou o português. Nelson correu com o piso seco enquanto o último lote de ciclistas que partiu foram obrigados a adoptar uma postura mais cautelosa nas viragens. No entanto, creio que esse factor não apaga o mérito do português na subida final. Tenho a ideia que Nelson fez o 3º tempo mais rápido na subida, conquistando até algum tempo a Christopher Froome.

nelson oliveira 2

A ponta final, zona na qual se aglomeraram em puro clima de euforia milhares de entusiastas da modalidade, acabou por ditar as pequenas diferenças registadas entre o 3º classificado (Chris Froome) e 10º lugar (o esloveno Jan Tratnik). Se os sectores plano redundaram em diferenças minimais entre os ciclistas “candidatos às medalhas”, foi a subida que acabou por fazer a diferença de 23 segundos registada entre o 3º e o 10º classificado. A cada adversário que o Nelson conseguia eliminar da luta pelas medalhas, subia o meu grau de excitação. Estivemos mesmo próximos das medalhas. Temo que o nosso grande herói não volte a ter um palco tão privilegiado para conseguir voltar a repetir este feito.

roglic

O esloveno Primoz Roglic foi a grande surpresa da prova. Roglic não é um especialista puro mas é um ciclista que atinge sempre bons resultados na especialidade. O traçado acabou por beneficiar as suas características de trepador e o ciclista esloveno acabou por ter um pózinho de motivação extra na sua prova quando se cruzou com o azarado Maciej Bodnar, vítima de uma queda logo nos primeiros metros da prova. Aposto que o seleccionador esloveno terá omitido tal informação ao seu ciclista para lhe induzir a sensação que estava a apanhar o polaco (vice-campeão europeu da especialidade) à guisa do seu ritmo.

Bons resultados também obtiveram Gianni Moscon (6º; o italiano foi demonstrando ao longo da prova pretensões a uma medalha), Wilco Kelderman (7º), e Jan Tratnik (Eslovénia; 10º). As grandes desilusões foram Bob Jungels (11º; o belga, candidato a uma medalha, voltou a fazer um contra-relógio mediano para as suas capacidades, confirmando um péssimo estado de forma nesta fase da temporada), Victor Campanaerts (o campeão europeu foi 23º; é certo que o traçado não o beneficiava mas, o ciclista belga perdeu por completo a compostura quando atirou a sua bicicleta ao chão no último tempo intermédio), e Tejay Van Garderen. Ao terminar na 26ª posição (muito longe do top 10 que lhe era apontado), o norte-americano realizou a sua pior prestação da carreira na prova de contra-relógio dos Mundiais.

Sexta-feira teremos o início das provas de estrada.

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