Até onde se estende a teia de Vieira?


julio loureiro

Júlio Loureiro, à direita, é a prova que o Benfica não domina apenas as instâncias federativas. Os tentáculos do polvo encarnado estendem-se até à justiça. 

No princípio era o verbo. Tudo começou com uma linguagem sacra algo recambolesca. Um comentador de verborreia enviesada e abjecta, comentava com um antigo árbitro e observador de árbitros de primeira categoria, a ordenação de uns padres escolhidos e a celebração de umas missas. No alto, havia um primeiro-ministro, o homem que tudo controlava. As metáforas utilizadas não deixavam muitas dúvidas: naqueles textos não haviam meras suposições, haviam indícios claros daquilo que todos já suspeitávamos há muito: um singelo exercício da prática de manipulação dos resultados de um determinado clube por via do tráfico de influências.  A teia foi sendo calmamente desmontada nas semanas seguintes.  O antigo árbitro pedia ao assessor jurídico do clube em causa a intercessão pelo futuro do seu filho, também árbitro. Os padres eram ordenados com recurso à intermediação de um bom menino. De um bom menino, delegado da liga em funções, que divulgava antecipadamente informações intra institucionais alegadamente confidenciais em troca da sua participação (como delegado da Liga) num ou noutro jogo de 1ª liga. Esse bom menino manteve ao longo de vários meses, boas relações quer com árbitros de primeira, quer com árbitros de segunda categoria. Um órgão de comunicação social teve acesso a uma informação muito preciosa: o Benfica tinha intercedido junto dos órgãos competentes para baixar a nota de um árbitro (hostil) num determinado jogo. Mais revelações surgiam: o Benfica tratava de utilizar os seus enviados no terreno para promover a subida dos árbitros (vulgo padres) evangelizados na causa.

nuno cabral

Noutro âmbito, um conjunto de dirigentes das mais altas instâncias de decisão recebia uma pazada de bilhetes para os jogos do clube em causa em troca da prestação de um conjunto de favores cujos objectivos visavam beneficiar esse clube e prejudicar os seus rivais. Pelo meio, houve a revelação de actos de bruxaria da boa, erros de sintaxe primários, espionagem, e entrevistas que nunca aconteceram para divertir a malta e descredibilizar ainda mais os agentes envolvidos. Passados 3 meses veio a revelação que na minha opinião é a gota de água neste processo de revelações: o polvo encarnado ultrapassa as fronteiras do institucionalismo desportivo até ao institucionalismo judicial. Vieira unta com generosidade as mãos a árbitros, observadores, delegados, membros dos Conselhos de Arbitragem, Disciplina e Justiça, dirigentes sindicais, jornalistas, funcionários da justiça – e quem sabe até a inspectores de polícia, procuradores, magistrados, políticos, governantes. Todos os cenários são possíveis e exequíveis face à gravidade das acusações reveladas. 

Segundo as revelações realizadas durante a presente semana pelo director de Comunicação do FC Porto Francisco J Marques, Júlio Loureiro, antigo árbitro e observador de 1ª categoria, entretanto despromovido pela nova direcção do Conselho de Arbitragem para a 2ª categoria, funcionário judicial do Tribunal de Guimarães, avisou ilegitimamente, à revelia ou com o conluio de um colega de profissão da referida secção a que dizia respeito o processo, Paulo Gonçalves sobre uma notificação que seria enviada a Rui Vitória para ir a tribunal testemunhar no processo que envolvia o Vitória de Guimarães. O mesmo Júlio Loureiro é actualmente, desde a temporada passada, observador de árbitros de 2ª categoria, ou seja, um possível (mais que provável) evangelizador ao serviço do Benfica. Júlio Loureiro pode ser aquele que anui a subida de categoria daqueles que mais tarde, no alto, servirão os interesses da causa.

Sporting vs Rio Ave

Porque Júlio Loureiro já serviu a causa. Júlio Loureiro foi o observador do fatídico jogo que condenou Marco Ferreira à bizarra descida de categoria na temporada em que foi nomeado para dirigir o jogo da final da Taça de Portugal. Incongruências claras. Por um lado o homem era competente o suficiente para dirigir um jogo de semelhante escala de importância. Por outro lado, um conjunto de personagens faziam-lhe, como se diz na gíria, a a folha de serviço. Com isto, arruinou-se a carreira de um bom árbitro. Loureiro foi despromovido por José Fontelas Gomes. Resta saber se a despromoção se deveu à sua clara falta de capacidades ou aos motivos já citados. Presente e atento a tudo isto estava o então presidente do Conselho de Arbitragem Vítor Pereira, o tal cujos telefonemas a Marco Ferreira nas vésperas dos jogos do Benfica para os quais o árbitro madeirense estava nomeado, indica o nexo de causalidade de toda esta história.

Confesso-me (confessamo-nos, de certa forma) incrédulo(s) perante a investigação que alegadamente está a ser levada a cabo pela Unidade de Combate à Corrupção da Polícia Judiciária em função da falta de informações precisas sobre a condução da mesma. Em 5 meses, não tivemos acesso ao desenrolar do processo. Não foi realizada uma única busca, não foi detido preventivamente ou chamado formalmente para interrogatório qualquer agente envolvido, os próprios dirigentes das instâncias envolvidas ainda não vieram a público tecer qualquer comentário sobre as acusações nem tão pouco iniciaram as diligências internas necessárias que deveriam ter sido abertas por ofício para apurar os factos e as responsabilidades de todos os intervenientes mencionados nos emails. Esta é a prova de que Vieira não só domina as instituições desportivas como pode também colocar a sua foice na seara das instituições judiciais deste país. A Justiça Portuguesa sai completamente enfraquecida deste processo. Não bastavam as constantes e abundantes revelações que são realizadas a partir de dentro para os órgãos de comunicação social. Temos mais interesses enfiados na nossa justiça: qualquer um de nós pode ser vítima desses interesses. Qualquer pessoa pode facilmente aceder ilegitimamente a informações relativas aos processos em que estamos envolvidos.

Estas revelações levam-me a colocar esta pertinente questão: quantos funcionários judiciais, inspectores, procuradores e magistrados poderá ter o presidente do Benfica no seu payroll? Quantos destes elementos poderão encontrar-se devidamente subornados pelo Benfica para tudo revelar, nada mexer, nada remexer, nada investigar, nada concluir, não condenar? Até onde vai a extensão do poder, da influência e do dinheiro do presidente do Benfica? Até ao governo?

mario 3

Essa é outra questão pertinente. Numa altura em que um antigo secretário de estado enfrenta um processo judicial movido por suspeitas da execução de crimes de responsabilidade dos titulares dos cargos públicos, crimes motivados por pedido e recepção indevida de vantagens no caso “Galpgate”, existem dois ministros (os dois mais influentes) que se sentam habitual e tranquilamente na Tribuna Presidencial do Estádio da Luz ao lado de Vieira um dos maiores devedores da coisa pública (487milhões de euros aos bancos recentemente resgatados e nacionalizados pelo estado com recurso ao dinheiro de todos os contribuintes portugueses) numa atitude inconcebível que também pode enquadrar-se na mesma moldura criminal que serviu para exonerar e acusar Rocha Andrade. Não posso de todo proibir os dois governantes de assistir aos jogos do seu clube, mas posso criticar o cheque em branco de legitimidade que é passado ao ilegítimo e imoral (face aos sacríficios pelos quais tem vindo a passar o povo português) Luís Filipe Vieira. Não podemos de forma alguma proibir os dois governantes de irem ao Estádio da Luz assistir aos jogos do clube da sua simpatia. Podemos sim criticar a forma como o fazem. Num país desenvolvido devem distinguir-se os papéis de governante e cidadão. No papel de governantes da coisa pública, Costa e Centeno jamais deveriam aceitar a formalidade de assistir aos jogos dos encarnados ao lado de um devedor da coisa pública na sua tribunal presidencial. Como cidadãos, sócios ou simpatizantes da instituição, são livres de comprar bilhetes para assistir aos jogos da equipa nas bancadas.

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5 thoughts on “Até onde se estende a teia de Vieira?”

  1. E depois, para cúmulo, aquele discurso de Fernando Gomes, cuja verdadeira tradução é: ou param com as revelações que possam pôr em causa os responsáveis pela minha ascensão de Faz de Conta na FIFA ou levam chumbo!
    De resto, para além daquele mail do Júlio Loureiro, a revelação mais importante destes últimos meses, a meu ver, foi mesmo a de Paulo Teixeira e aquele negócio (negociata?) de Mitroglou. Porque confirmou aquilo que eu cada vez mais suspeito: a verdadeira cabeça disto tudo nem sequer é Vieira, mas sim o Super Agente dos Mendilhões. É que não deixa de ser também curioso como os mails andam a ser revelados simultaneamente com todo o processo que o envolve com o Fisco espanhol. Tudo isto, se analisarmos bem, está mais ligado do que pensamos. Até porque foi Pippo Russo (o autor de A Orgia do Poder, como bem deves saber) quem disse, há quase um ano, que Jorge Mendes já tinha mais poder que a própria FIFA.
    Com tudo isto, acho que é cada vez mais fácil perceber com que linhas se cosem esta teia.

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  2. O teu comentário é muito pertinente Ricardo e abre portas para muitas discussões para diversos assuntos que estão interligados com este.

    No que concerne ao discurso do Fernando Gomes tens razão. Como deverás saber, o Fernando Gomes é desde Abril o vice-presidente incumbido com a pasta das relações institucionais com os clubes. Este discurso está naturalmente inserido numa estratégia particular, de agenda própria. O Gomes quer fazer transparecer a imagem ao estrangeiro, mais concretamente aos seus pares da FIFA e da UEFA, que tem tudo controlado na sua própria casa. Mas não tem. Não deixa de ser uma deliciosa ironia. O vice presidente para as relações institucionais do organismo com os clubes europeus é ao mesmo tempo um presidente de federação incapaz de por ordem na sua própria casa e é um capacho do presidente de um dos maiores clubes.

    Este discurso foi claramente ordenado a mando do Vieira. O Gomes não se pronunciou sobre as acusações e sobre os nomes envolvidos, não repudiou o verdadeiro sistema de espionagem instalado na federação, não se pronunciou sobre o total falhanço do video árbitro em alguns jogos do Benfica, entre outros assuntos. A esses é que o Presidente da Federação deveria ter dito “basta!”.

    Quanto ao Mendes, estás totalmente certo. O Mendes põe e dispõe em todos os clubes. Os benfiquistas estão agora a aperceber-se que afinal ele não é um parceiro assim tão bonzinho. Se tiver que delapidar clubes e investidores até ao tutano em proveito pessoal, assim o fará.

    Eu sempre acreditei que seria a justiça espanhola a alavancar a justiça portuguesa. A Justiça Portuguesa só age em 4circunstancias muito peculiares: quando a pessoa é um comum, quando a pessoa morre, quando a pessoa de notoriedade começa a entrar em decadência (seca de apoios; olha os casos do Duarte Lima e do Armando Vara por exemplo) ou quando o partido que está no poder precisa de prender uns quantos do partido da oposição para abrir um fait divers que ofusque uma trapalhada do governo.

    Que eles tem muita gente com as mãos untadas na justiça portuguesa lá isso tem. Até a Doyen tem. Basta por exemplo relembrar esta notícia. https://desporto.sapo.pt/futebol/primeira-liga/artigos/football-leaks-acusa-doyen-de-censura – Se a Doyen tinha no seu payroll um inspector da PJ, quantos inspectores, procuradores, e magistrados não terão sob a sua alçada Vieira e Mendes?

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  3. Fantástico, os meus parabés pelo excelente post. Descreve na perfeição a triste realidade do futebol portugues e da ação corrompedora de padres, bispos e do Pápa (dos pneus), assim como o mistério do silencio ensurdecedor das autoridades judiciais e governamentais deste pais do 3° mundo (no que à justiça diz respeito).

    MJ

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