Tudo errado! – Uma dúzia de pensamentos soltos e factos sobre o empate do Sporting em Moreira de Cónegos


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Estava profundamente enganado. Quando há algumas semanas atrás escrevi neste preciso espaço a ideia de que Jorge Jesus estaria, na presente temporada, mais consciente e mais criterioso na gestão que faz do seu plantel, escolhendo com prudência e mestria as soluções ideais para cada “tipo de adversário” estava profundamente enganado: os erros básicos de percepção e análise dos pontos fortes e fracos do adversário e a incapacidade evidente que o treinador do Sporting possui para “pensar um jogo de cada vez”, leva-o a cometer erros desnecessários (dados os objectivos traçados para a temporada e ao contexto do grupo de Champions no qual está inserido) que custam pontos e que custam, acima de tudo, títulos ao clube. Sempre que Jesus inventa, o Sporting perde pontos. Sempre que a equipa vem de um jogo contra um grande europeu, a equipa perde pontos. Só um treinador com uma enorme (inabalável) fé na(s) (falta de) qualidades de um jogador cuja prática (ou falta dela), perdoem-me a expressão, mete, a cada dia que passa, os adeptos leoninos à beira de um ataque de nervos, leva o treinador leonino a prescindir (num jogo em que era mais que “certo e sabido” que o adversário iria tentar complicar ao máximo a circulação leonina com uma boa prestação defensiva, com um enorme espírito de combate e com processos de jogo essencialmente formatados para a saída em contra-ataque) de um jogador de combate, colocando no seu lugar um jogador que não acrescenta nada a esta equipa. Nada. Volto a repetir. Nada. 

Falo de Battaglia e Alan Ruiz, do que se passou no jogo desta tarde, no que se poderá vir a passar no jogo de quarta-feira. De gestão de um plantel e de “formatação do chip” entre provas, formatação é que historicamente tão difícil de realizar para Jorge Jesus. Da necessidade de fazer boa figura no grupo que nos é muito hostil e muito difícil de ultrapassar aos 2 pontos perdidos na competição que é o nosso único e principal objectivo de temporada.

Já se notava a milhas na antevisão à partida, a possibilidade de Manuel Machado poder vir a actuar com uma equipa de pendente mais defensivo, armada num sistema que privilegiasse os equilíbrios defensivos, uma certa inflexibilidade posicional a meio-campo e uma atitude combativa (um verdadeira atitude de espírito de sacrifício) que pudesse contrariar a bola no chão que o Sporting iria colocar no jogo com um “intenso e viril” futebol aos repelões, repleto portanto de disputas aéreas, divididas, choques, e acima de tudo pequenas faltinhas a meio-campo para travar o ritmo de jogo e para impedir que o Sporting pudesse colocar a sua forte transição para o contra-ataque na sequência dos momentos que a equipa perdia a bola no meio-campo ou no meio campo da formação de Alvalade.

Com a inclusão de Alfa Semedo e Neto à frente do quarteto defensivo, ambos ávidos para anular o jogo interior e patrulhar, pressionar, roubar (fazer faltas) no jogo disputado no meio-campo (a chegada do esférico a Bruno Fernandes; Machado acreditou que Jorge Jesus não faria qualquer mexida no seu onze base depois do clima de poupanças que se verificou quer frente ao Tondela quer no jogo de terça-feira frente ao Marítimo) e de um tridente ofensivo (com algumas missões defensivas; quer Tozé, quer Ronaldo Peña tinham a missão de condicionar a saída de jogo pelos centrais; os médios alas Rafael Costa e Zizo também precisavam obrigatoriamente de acompanhar as subidas dos laterais do Sporting) capaz de receber jogo de trás para dar velocidade às acções de contragolpe, quer no ataque à profundidade (tantas vezes tentado por Tozé e Peña) quer em acções individuais em velocidade pelos corredores (aproveitando uma ou outra situação na qual os subidos laterais do Sporting pudessem ser apanhados em contrapé e sem hipótese de recuperar defensivamente), quando viu a inclusão de Alan Ruiz no onze em detrimento da colocação de Battaglia ao lado de William e de Bruno Fernandes atrás de Bas Dost, o treinador da formação de Moreira de Cónegos deverá ter exclamado “xeque”. E deverá ter exclamado “xeque” porquê?

Um exemplo claro da vigilância apertada realizada pelos médios do Moreirense a Alan Ruiz. Ruiz já é de si lento quando não tem ninguém a apertá-lo. Com 2\3 jogadores a cair rapidamente sobre o argentino quando a bola lhe era endossada, o resultado era óbvio: perdas de bola atrás de perdas de bola e a criação de situações de contra-ataque para o adversário. 

Porque a concentração de jogadores do Moreirense no miolo iria impedir a livre construção de jogo dos médios leoninos e a colocação do lento Ruiz entre linhas permitiria a um dos seus dois médios de cariz defensivo anulá-lo facilmente através de uma estratégia de vigilância apertada. Assim o foi. Nas 15 acções realizadas pelo argentino na primeira parte (sim, eu contei-as; à 10ª bola perdida confesso que estive prestes a ter uma apoplexia motivada pela raiva; cheguei a escandalizar as senhoras que lanchavam ao meu lado com um lusitano “ó ruiz, põe-te no caralho. Vai pro racing avellaneda, para o lanús, para onde quiseres mas põe-te no caralho) só 1 foi capaz de gerar proveitos à formação leonina (o seu remate em arco logo aos 9″) e nem essa situação (não posso de forma alguma transformar o remate do jogador argentino numa ocasião de golo construída porque a bola foi parar miraculosamente aos pés do argentino em virtude de um ressalto de bola) por gerar proveitos no chamado “jogo jogado” (já lá vou ao jogo jogado) – assim que o argentino recebia, caía-lhe logo um jogador da formação visitada em cima, explorando a sua lentidão de processos. Ruiz foi novamente um desespero de disparates, de más decisões, e de uma exasperante lentidão (muita lentidão… já está sem bola!) que permitiu ao adversário roubar e procurar logo (no primeiro passe) a sua referência para armar o contragolpe.

Por outro lado, nos processos de transição para a defesa, Bruno não tem nem de perto, o mesmo sentido posicional e a mesma intensidade na pressão que o argentino. Arrisco-me a dizer que com o argentino em campo (como de resto se pode ver na 2ª parte; assim que entrou na partida, Battaglia recuperou o meio-campo e anulou, no espaço de 10 minutos, 5 investidas do adversário em contra-ataque com a realização de 3 faltas e de 2 recuperações) o golo do Moreirense jamais teria acontecido porque, em primeiro lugar, Alan Ruiz não teria sido titular (logo, não teria perdido a bola que deu azo ao lançamento da acção de contra-ataque da formação adversária), a transição não teria nascido porque Battaglia estaria lá para a anular ou na pior das hipóteses, aquela combinação não teria entrado porque o argentino estaria à entrada da área para fechar a linha de passe. 

Teria esta transição entrado com Battaglia em campo? Duvido muito. O argentino é barra a descodificar os processos adversários. Como na saída para o contragolpe, a formação de Manuel Machado é altamente padronizada neste processo em particular (a colocação de jogo em Tozé; sempre a partir da esquerda), à 2ª tentativa, o argentino já lá estaria para a anular. Ao contrário de William (aparece no lance mas não intervém; noutras transições fica a correr de perfil sem intervir no lance em questão), o argentino intervém, rouba ou no pior dos cenários estorva, obriga o adversário a ter que repensar a acção (a procurar novas linhas de passe para dar continuidade que permita a manutenção da posse) e permite a chegada de outro jogador para roubar o esférico.

Macios, macios. 

William e Bruno César foram incapazes de pressionar o portador… Onde é que anda Bruno Fernandes? O alegado mestrado táctico tirado pelo jogador na Universidade Do futebol italiano de que Luís Freitas Lobo tanto fala não ensinou ao jogador que é de sua missão estar no corredor central a realizar cobertura posicional?

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O mesmo aconteceu no lance do golo do Moreirense.

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Bruno observa, William observa, Piccini está como se pode ver completamente enfiado junto aos centrais (descurando a presença do seu adversário directo nas costas) e Bruno César (a observar também) estava quiçá a marcar o árbitro da partida. 

Battaglia jamais teria ficado impávido a observar o desenrolar deste lance. Juntinho a um dos participantes, o argentino teria posto o seu pé na costa para cancelar a investida.

Sempre que a equipa de Moreira de Cónegos ia ao meio-campo da formação de Alvalade “sacava” sempre qualquer coisa de positivo. Em primeiro lugar porque no momento de perda, Bruno Fernandes e William não foram rápidos a pressionar o portador para impedir que a formação vimaranense conseguisse sair a jogar. Em segundo lugar porque os cónegos conseguiram sempre encontrar Tozé para lançar o contragolpe. Em terceiro lugar porque nas disputas a meio-campo, os médios do Moreirense foram sempre mais fortes que William e Bruno nas divididas. Logo, tinham mais posse que o Sporting. Em quarto lugar, nos lances construídos em redor da área, existiu uma passividade gritante por parte da dupla leonina.

E o Sporting quando tinha posse, decidia mal e definia ainda pior. Ao invés de ser uma equipa paciente na circulação, procurando quiçá (digo eu) obrigar o adversário a bailar (a mover-se) à procura da bola com uma circulação cuidada, cheia de mobilidade dos seus jogadores para abrir linhas de passe quer no jogo exterior, quer no jogo interior (aquilo a que eu chamo um constante fora-dentro) para obrigar o adversário a vascular e a abrir espaços; não, o Sporting foi uma equipa que entrou no “jogo dos repelões” inicialmente pretendido pelo treinador adversário, despejando uma data de bolas para os corredores (em especial para Gelson) e para Alan Ruiz. A cada perda de bola do argentino, saía mais um contra-ataque prometedor para o adversário.

DE QUEM FOI PORTANTO A CULPA DESTE MAU RESULTADO E DESTA MÁ EXIBIÇÃO? Desculpem-me a utilização de maiúsculas: DO CABRÃO DO JORGE JESUS!

Jorge Jesus pode vir com a conversa fiada do costume, e pode repetir uma mentira 1000 vezes que a mesma não passa a ser um dogma ou uma verdade universal, porque nós já lhe conhecemos a pinta de gingeira. O Sporting não estava à espera que o primeiro golo acontecesse mais tarde ou mais cedo. A equipa do Sporting entrou em campo a pensar claramente no jogo de quarta-feira com o Barcelona, dando como “dado mais que adquirido” um triunfo fácil (sem fazer ponta) contra este Moreirense. Os jogadores do Sporting pensavam que o pontos seriam conquistados à imagem e semelhança, com ou sem estrelinha, dos jogos conquistados contra o Tondela, Setúbal e Feirense, ou seja através de um lance de bola parada, de um penalty ou de um remate de meia distância, sem se criar para o efeito uma única oportunidade de golo em lances de bola corrida. Sim, uma oportunidade clara de golo em lances de bola corrida, aspecto que faltou nos jogos contra o Tondela e contra o Feirense até aos respectivos lances (de bola parada) que inauguraram o marcador nesses jogos. Até mesmo contra o Marítimo, o Sporting não criou uma única situação de golo num lance de bola corrida.

Espero que a equipa não venha portanto a  precisar destes 2 pontos no final do somatório para se sagrar campeã nacional. Se nos recordarmos, num passado não muito longínquo foram os pontos perdidos contra Tondela e União da Madeira que deram o título ao Benfica. Quem era o treinador dessa equipa? Era Jorge Jesus…

Muito mais há para dizer deste jogo.

Nos primeiros 15 minutos da 2ª parte, os processos de jogo defensivos e ofensivos melhoraram. A entrada de Doumbia fez activar finalmente o jogo interior e a equipa conseguiu finalmente ganhar as segundas bolas e as divididas para instalar-se em definitivo no meio-campo adversário. A equipa de Moreira de Cónegos começou a comprimir mais a sua defesa no corredor central em função do auxílio que o costa-marfinense prestava à circulação quando baixava para dar apoios frontais a William e Bruno Fernandes. Com mais jogadores inseridos no corredor central, o Sporting conseguiu finalmente espaço para fazer circular a bola até às alas, em especial até à ala esquerda. Tanto Bruno César como Iuri (péssimo na definição dos lances que teve nos pés em cenários muito apetecíveis) tiveram vários lances 1×0 e 2×1 nos pés. Enquanto o brasileiro optou quase sempre pela colocação de cruzamento à falta de outros argumentos (direitinho para o guarda-redes ou para a cabeça dos centrais da formação de Manuel Machado), o jovem extremo, mais veloz que o brasileiro, optou por receber apenas o prémio de jogo, porque jogar, não quis jogar…

O resto, o resto foi um conjunto de bolas semeadas para a frente pelos centrais e por William. Por momentos julguei que estava a ver à minha frente um jogo do Celtic de Glasgow contra o Hibernians, mas não, era o meu Sporting a bater longo na frente à procura de um golo à Benfica, ou seja, de uma cabeçada fortuita de Dost capaz de cair em zona de finalização nos pés de Doumbia.

Nem Bas Dost escapa à minha crítica. O holandês tomou ao longo do jogo duas decisões completamente incaracterísticas para o seu jogo, sinal evidente que o ponta-de-lança também não está a passar por uma boa fase ao nível de confiança. No primeiro, num lançamento longo para as costas da defesa a isolá-lo, Bas recebeu bem com o pé direito mas não finalizou com o pé esquerdo na cara do guarda-redes, optando pela tentativa de serviço a Doumbia. O lance gorou-se. A segunda má decisão apareceu, num lance no qual o ponta-de-lança holandês voltou a receber bem (de costas) no interior da área. Em vez de rodar para finalizar, o holandês voltou a procurar a entrada de um colega na zona da meia-lua.

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