Karol Bielecki: uma história de perseverança, determinação e amor ao andebol


A eleição do polaco para o melhor 7 da 2ª Jornada da Liga dos Campeões Europeus de Andebol, abre portas para poder contar uma boa história, uma daquelas histórias que só o desporto proporciona: a história de um consagrado jogador de andebol (o jogador polaco é indiscutivelmente um dos melhores e mais eficazes laterais esquerdos da sua geração) que continua a ter a mesma paixão pela modalidade mesmo depois da situação trágica que se abateu sobre a sua vida em Junho de 2010, momento no qual, a meio de um jogo amigável entre as selecções croata e polaca, o jogador polaco ficou cego do olho esquerdo em virtude de um viril choque contra um adversário no momento em que o jogador polaco tentava interceptar um passe adversário. 

karol bielecki

11 de Junho de 2010. A Croácia e a Polónia disputavam um amigável de final de temporada. Em virtude de um choque no momento em que tentava interceptar um passe adversário, embate tido como normal de uma modalidade na qual os contactos entre jogadores se dão a altíssima velocidade, eis que o jogador cai no chão a queixar-se do seu olho esquerdo em função de uma intromissão (sem qualquer intenção de dolo) do adversário no seu olho esquerdo. As imagens tiradas pelos fotógrafos no momento em que o jogador já estava a ser assistido pela equipa médica da selecção polaca não eram nada animadoras, sendo até algo horripilantes para os mais sensíveis. O dramático diagnóstico viria a ser revelado uma semana depois: após 2 intervenções cirúrgicas – uma realizada no dia do traumatismo na Polónia e outra realizada 48 horas depois em Tubingen, Alemanha, junto de Thomas Katlun, um dos melhores especialistas mundiais, – as lesões na retina e no globo ocular do seu olho esquerdo resultariam numa deficiência irreversível que decerto lhe iria terminar, aos 28 anos, uma prodigiosa carreira na qual o polaco tinha jogado em 3 dos maiores clubes mundiais da modalidade (Vive Targi Kielce, Magdeburgo, Rhein-Neckar-Lowen) e tinha conquistado imensos feitos individuais e títulos colectivos.

karol bielecki

Não foi o que aconteceu. O que viria a suceder-se nos meses seguintes foi um dos mais espantosos regressos de um atleta na história do desporto. O amor do polaco pela sua profissão, pela sua modalidade e a sua alma combativa, perseverante e resiliente, ajudaram-no “a regressar do mundo dos mortos” quando ninguém acreditava que o pudesse realizar em função de tão trágico acontecimento.

 It was a terrible shock, as I had really no injury in the last 11 years of my professional career “but I will do everything to return on court. I know that I have a chance – and I will take it.” – Bielecki, 1 de Julho de 2010 em declarações ao site do Rhein-Neckar Lowe. 

“We will help him in whatever we can. It’s a tough way he has to go now and this will be the biggest challenge of his whole life. But we know that Karol is a real fighter, – Thorsten Storm, treinador do Rhein-Neckar Lowe entre 2007 e 2014.

Não se pode porém ignorar, para todos os efeitos, os valiosos serviços que foram prestados imediatamente pelo departamento médico do clube com o qual o polaco tinha contrato, o Rhein-Neckar-Lowen, no seu processo de reabilitação. 10 dias depois do acidente, a 21 de Junho, Bielecki iniciou, no pavilhão do clube, com todas as ganas, o processo de reabilitação idealizado pelos responsáveis do clube. Os médicos da formação de Mannheim, trataram de equacionar um plano de reabilitação funcional que permitisse ao atleta voltar à competição no prazo máximo de 1 ano. Para além da utilização de uns óculos especiais que impedissem o contacto directo com o olho direito, o departamento médico da formação alemã tratou de idealizar conjuntamente com o staff técnico um conjunto de exercícios de coordenação e de visão que permitissem ao lateral polaco conseguir suplantar com eficácia as condicionantes resultantes da perda de visão periférica, característica tão importante para um jogador que assume no terreno uma posição mais interior. Com um só olho, a perspectiva sobre velocidade e dinâmicas alteravam-se drasticamente. Era preciso portanto treinar o cérebro do atleta para um nova interpretação do jogo. O plano de reabilitação acabou por ser um tremendo sucesso face às diminutas probabilidades que eram atribuídas em relação ao regresso do jogador à alta competição: o jogador voltaria aos pavilhões em Setembro de 2011 mas o seu rendimento não era o mesmo do jogador que tinha conduzido a Polónia ao estatuto de potência mundial nos anos anteriores. De 70 golos na Liga dos Campeões na temporada 2009\2010, o jogador passaria a um modesto score de 19 golos em todos os jogos da campanha do clube alemão na prova na temporada 2011\2012. Em Junho de 2012, o clube alemão informou o jogador que não contaria com os seus préstimos para a temporada seguinte. Bielecki não desarmou e decidiu voltar à Polónia para representar o Kielce, o clube do seu coração. Em boa-hora o fez.

O recomeço na Polónia não foi fácil. Da boca dos adeptos do clube, o jogador que já tinha sido considerado uma das maiores estrelas mundiais, ouviu que só estava ali por estatuto, por nome. “Eu jogo andebol há 15 anos. Não me esqueci de jogar” – afirmou em Outubro de 2012 o atleta em entrevista a um jornal local. As críticas foram subtilmente caladas. Nessa temporada, o lateral apontou 82 golos na Liga Polaca e 38 na Liga dos Campeões, feito que lhe valeu novamente a confiança do seleccionador polaco para os Jogos de Londres. O jogador voltava a fazer com um olho aquilo que muitos comuns e muitos jogadores de andebol não fazem com dois: jogar andebol. Puro. De cavalgadas malucas. De suspensões por cima do bloco adversário, de intercepções e de vigorosos controlos defensivos que punham cobro às investidas adversárias. O missil man, alcunha pela qual o jogador é conhecido, recuperara o seu sentido de baliza e era o eficaz bombardeiro de 1ª linha do passado.

O seu contributo foi muito importante para a solidificação do Kielce como o principal dominador desta geração do andebol polaco (nas últimas 6 temporadas o clube conquistou o pleno de vitórias quer no campeonato quer na taça daquele país) e para a sua mais recente ascensão no cenário europeu de clubes. Sob o comando do histórico jogador\treinador espanhol de origem casaque-soviética Talant Duyshebaev, o clube polaco sagrou-se campeão europeu em 2016 e 3º classificado da Liga dos Campeões nas edições de 2012\2013 e 2014\2015.

No jogos do Rio, em 2016, o jogador foi importante no 4º lugar alcançado pela selecção (perderam o jogo da atribuição da medalha de bronze) ao alcançar o incrível feito de 55 golos nos 8 jogos disputados, feito que lhe valeu o título de melhor marcador do torneio olímpico e a subida ao primeiro lugar da tabela dos jogadores com mais golos apontados pela selecção polaca com um total de 955 golos em 259 partidas.

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